Risco de Marte

Cap 1

Certamente a maior descoberta durante a exploração de Marte foi o Petrume. Este líquido viscoso e escuro recebeu o apelido de Petróleo Marciano. O apelido não foi escolhido à toa, a começar por sua origem: Assim como na Terra, o Petrume nasceu da fossilização das antigas formas de vida do planeta. Porém, como a vida não foi muito longe em Marte, este combustível não tem muita octanagem e, na sua queima, além de liberar gás carbônico, ainda conta com enxofre, uma combinação que seria bombástica para o aquecimento global na Terra, assolada pelo mesmo durante o início da exploração de Marte.
Porém, o que é veneno para o clima terrestre, é remédio para o clima marciano. Despido de mecanismos reguladores de temperatura, toda água em Marte, ou é vapor, ou é gelo. Uma atmosfera aquecida é tudo que o planeta precisa, embora vá levar vários séculos até que se alcance níveis aceitáveis. Por hora, todas as colônias vivem dentro de grandes redomas.
Marte acabou sendo uma opção viável para a exploração do cinturão de asteróides do interior do Sistema Solar. Mineiros passam meses explorando uma rocha e voltam para Marte para vender seus minérios e se abastecer. Por isso, Marte tornou-se um grande produtor de manufaturados. Essa industrialização, no futuro, irá melhorar seu clima no futuro, e o da Terra também, uma vez que há grande incentivo para que as indústrias deixem a Terra e venham para o Planeta Vermelho.
A grande exploradora do Petrume é a Viguroh S.A., uma empresa muito elogiada, uma vez que emprega, em boa parte, funcionários idosos, algo inédito na história das grandes corporações. Muitos analistas não ficam surpresos: além da experiência, algo torna o serviço de idosos viável em Marte: a gravidade. Como o planeta tem menos gravidade, os idosos têm o mesmo vigor que seus pares mais jovens na Terra. São tão bem tratados que quase todos ficam trabalhando lá até a morte. A empresa praticamente governa Marte, uma vez que quase todos os aspectos sociais e políticos correm por conta da Viguroh (polícia, hospitais, etc).
Mas Marte ainda tem surpresas. Surpresas estas que serão descobertas por Caio Gomes, um soldado de elite da segurança de Marte...


Cap 2

Caio queria ser mágico quando criança. Conhecia muitos truques e sempre se destacava nas festinhas de aniversário de seus amigos. Seu sonho era criar uma mágica que pudesse resolver os problemas da Terra. Ele já havia lido nos livros sobre como o planeta era antes do aquecimento global e ansiava por viver num planeta como era antes.
Porém, Caio cresceu e a vontade de ser mágico passou, mas não a de viver num mundo melhor. Por esse motivo, ele alistou-se nas forças de paz enviadas para a guerra na Índia.
Lá, ele fez questão de ajudar e proteger várias famílias. Ele tinha um carinho muito grande por aquele povo que vivia em situação de miséria, mas riqueza de espírito e cultura.
Foi quando Caio teve a segunda maior decepção de sua vida: ele quase morreu numa tocaia armada por uma das famílias que ele tanto ajudou.
Ao sair do hospital, Caio jurou nunca mais lutar por um mundo melhor. Ele decidiu assim dar baixa e viver como civil.
A vida de civil não era muito melhor. Caio era muito inteligente, mas somente conseguia vagas como segurança particular, ou outro cargo que exigisse seu físico, uma consequencia de ter sido um soldado.
Tudo mudou quando Caio viu um comercial da Viguroh em busca de agentes de segurança para trabalhar em Marte. Um pouco cético, aceitou a proposta.
A viagem durou 3 meses. Caio manteve-se ativo na viagem, uma vez que a falta de gravidade prejudica muito o físico. Ao chegar, ele foi tratado no Instituto Hospitalar Viguroh, onde conheceu Gabriela Caetano, uma médica pesquisadora que o ajudou bastante a se adaptar ao solo marciano.
Foi assim que sua vida começou a mudar para melhor. A Viguroh cuidava muito bem de seus funcionários, principalmente os agentes de segurança. Ele ganhou uma casa da empresa, sua alimentação era preparada com os melhores ingredientes, tanto os cultivados em Marte, quanto os que chegavam da Terra, tinha um bom salário, plano de saúde com cobertura total, enfim, o sonho de muitos altos-executivos da Terra.
Com tudo isso, Caio sentiu-se muito mais estimulado. Treinava com mais dedicação do que qualquer outro colega, estudava o que era necessário e o que poderia vir a ser importante.
-A Viguroh é a minha vida! - dizia com orgulho.
Foi assim, até aquela infame manhã...

Cap 3

Os agentes de segurança de Marte tinham um papel duplo: agiam tanto como policiais no perímetro urbano quanto como militares fora dele. E foi como este último que a tropa de Caio foi convocada naquela madrugada de Capricórnio (terceiro mês do ano marciano, segundo o calendário dariano de 24 meses, com 28 dias, em geral, para cada mês).
Eram 4h00 quando o toque da alvorada tocou. Curiosamente, a duração dos dias em Marte é muito parecida com a da Terra: 24 horas, 39 minutos e 24 segundos. Assim, para manter o padrão de 24 horas, a duração dos segundos no planeta vermelho tem 27,364 milissegundos a mais do que no planeta azul.
Porém, Caio não seguiu para a sala de pauta, onde normalmente se definem os trabalhos que os agentes executam durante o dia. Naquela manhã, o toque ordenava sua presença na sala de comando, onde são definidas incursões militares.
Como sempre, Caio foi o primeiro a chegar. Logo chegou o Sargento Tomas e alguns de seus colegas de batalhão, como os soldados Wood e Kintê. Alguns minutos depois, o Tenente Comandante Baron chegou:
-Os senhores foram convocados para verificar o que aconteceu à colônia Xangai.
Um projetor começou a exibir um mapa da região, mostrando a colônia de Caio (Roma) no centro do mapa, deslocando para um close na Xangai logo em seguida.
-A Xangai é uma colônia recente. Tem apenas 5 anos. Porém, ela está sem comunicação há uma semana. - prosseguiu.
-Comandante, qual foi a última notícia recebida da Xangai? - perguntou o sargento.
-A última notícia era um pedido para envio de peças. A refinaria da colônia havia parado de funcionar e estava refinando petrume com um refinador portátil de emergência.
-Temos as peças?
-Infelizmente não. Teremos de levar alguns galões de combustível refinado conosco.
Wood torceu o nariz. Petrume refinado cheirava mais forte que gasolina. Como iriam em veículos fechados, teriam que aguentar o fedor por toda a viagem.
Dois blindados sairiam da base na colônia Roma em direção à refinaria. Enquanto embarcavam os galões, Caio viu um velho amigo:
-Seu Abrão! Tudo bem?
Um senhor idoso deu um largo sorriso para o soldado.
-Tudo. Vocês vão dar um passeio por Marte?
-Temos um trabalho lá fora. Mas o que o senhor faz aqui? Quase não o vejo longe do poço de petrume de Roma.
-Verdade. Mas agora estou me preparando para minhas férias na Terra.
-Na Terra? O senhor tem parentes ou amigos lá?
-Não, mas já estou velho. Quero dar uma última olhada no meu planeta natal antes de morrer.
-Morrer? O senhor é forte feito um cavalo!
-Bondade sua, mas você sabe que em Marte todos somos mais fortes.
-Eu não estou somente sendo gentil. O senhor é saudável mesmo. Mais saudável que muitos de meus colegas jovens.
-Acho que é o trabalho nos poços. Fazemos ginástica todos os dias.
-Vai ver que é por isso que somente os idosos podem trabalhar nos poços. Isso deve mante-los saudáveis e melhora a imagem da Viguroh.
O sargento chamou Caio. Este se despediu e entrou no veículo.

Cap 4

A viagem durou 45 minutos, mas pareceu durar horas para os agentes nos dois veículos que seguiram para a colônia. Eles tiveram de lidar com o péssimo cheiro do petrume refinado.
-Wood! Deixe para ativar seu traje hermético quando chegar à colônia! – pediu Caio.
-O oxigênio e energia dele dura um dia inteiro. Por que eu precisaria ficar com ele desligado sentindo o cheiro desse líquido fedorento? – justificou-se.
Logo os veículos passaram pela entrada. Os sistemas automáticos de ajuste de atmosfera ainda funcionavam.
-Sorte nossa a atmosfera daqui ainda funcionar. – comentou Kintê.
-Nem tanto. Os sistemas têm autonomia energética e a cúpula é extremamente resistente. Sem energia, a colônia consegue sobreviver por, pelo menos, um mês. – explicou o sargento Tomas pelo rádio, em outro veículo.
-Quais são nossas ordens, sargento? – perguntou Caio.
-Meu veículo irá seguir para o poço de petrume procurar pelos trabalhadores. Vocês devem seguir para a refinaria para levar os galões.
O carro de Caio chegou à refinaria. Tudo estava calmo e deserto nas imediações. Ao longe, via-se o mercadinho local, mas parecia que havia algo errado. Havia muito lixo na frente.
-Gordon, Armando, Souza, levem os galões para dentro da refinaria. Eu, Wood e Benson vamos até o mercado ver o que está acontecendo. – ordenou Caio, que gozava do posto de sub-sargento.
Caio e sua equipe seguiu para o comércio. Chegando lá, havia embalagens, sacolas e restos de comida por toda a parte.
-Vejam! As portas foram arrombadas! – observou Benson.
-Wood, você tem aí um sensor de calor? – perguntou Caio.
-Sim. Parece que há pessoas lá dentro.
-Vamos entrar com cuidado.
Empunhando armas, os agentes entraram. Tudo estava uma bagunça. Parecia que um batalhão de arruaceiros havia passado por ali. E não havia luz. Tudo estava sob as sombras. Porém, era possível ver o vulto de uma pessoa no final de um corredor.
Benson foi na frente com seus colegas dando cobertura. Chegando perto, pareciam ver esse alguém procurando comida na prateleira.
-Ei, amigo! – chamou Benson cutucando a pessoa.
O homem virou rapidamente e mordeu Benson. Assustado, deixou cair a arma. A visão era chocante: o homem parecia um cadáver. Tinha o rosto cheio de chagas. Os olhos não tinham vida e pareciam turvos. Caio correu e empurrou a criatura, fazendo-a cair no chão. Imediatamente ela levantou. Caio acionou sua arma, fuzilando o morto-vivo, tornando-o apenas morto.
-Como você está, Benson? – acudiu Wood.
Benson mal podia responder. Apenas mostrou a mão. Havia perdido dois dedos.
-O que foi isso que atacou Benson.
De repente, podem-se ouvir gemidos ecoando por toda parte.
-Eu não sei, mas parece que os amigos dele estão vindo! – observou Wood.
Em volta, vinham com caminhar arrastado, dezenas de cadáveres.



Cap 5

Balas zuniam pelo ar como um exame de abelhas africanas. Felizmente os três agentes não estavam longe da entrada, assim, abriram passagem com suas armas pesadas.
Lá fora, um ou outro daqueles monstros se interpunha entre Caio e o blindado perto da refinaria. Finalmente chegaram. Ali puderam ouvir também o som de balas e explosões vindos de dentro da refinaria.
-Deve haver mais deles lá dentro! – gemeu o companheiro ferido.
-Benson, tire essa luva e faça um curativo! Eu e Wood vamos ajudar os outros! – ordenou Caio.
Dentro da refinaria estava ainda mais escuro. Para evitar surpresas, os agentes acionaram a visão noturna.
A cada corredor era preciso cuidado. Um morto-vivo poderia atacar a qualquer momento.
-Como você está de munição, Wood?
-Péssimo. E você?
-Não estou melhor...
De repente, Gordon saiu correndo de um corredor com seu traje todo rasgado e sangrando com marcas de mordidas.
-Fujam!!! – gritou.
Caio e Wood saíram correndo, com uma explosão de uma granada logo atrás.
Os três caíram no chão, empurrados pelo deslocamento do ar. Caio não sofrera ferimentos, voltou-se para Gordon, estrebuchando.
-Gordon! Gordon! Resista!
O agente ferido balbuciava:
-Muitos! Todos... mortos!!!
E, com isso, seu corpo parou de tremer.
-Ele... morreu? – perguntou Wood.
-Sim...
Wood estava aturdido. Fosse a explosão, fosse a situação, fosse o primeiro companheiro que ele viu morrer, ele estava desorientado.
-Wood! Precisamos sair já daqui! – Caio chocalhou o amigo.
Quando a dupla chegou na entrada, mais uma cena assustadora: mais daqueles zumbis estavam cercado Benson, que subia cada vez mais para cima do veículo.
-Fiquem longe de mim! Fiquem longe de mim!
Ele tinha uma arma pequena, que atirava em volta com a mão canhota. Antes que Caio e Wood pudessem dar cobertura, um cadáver, vindo por trás, mordeu o braço de Benson, fazendo-o dar um tiro atingindo Wood.
Benson caiu no meio de uma horda que o atacou imediatamente. Caio saiu atirando, matando todos os monstros de pé. Mas já era tarde: Benson estava morto.
Caio correu para Wood. O sangue jorrava. Estancou o ferimento com uma bandagem. Wood ainda estava vivo, mas precisava ir imediatamente para um hospital, ou morreria.
Dentro do veículo, já seguro com o amigo ferido, voltou-se para o rádio:
-Sargento! Aqui é Caio Gomes! Fomos atacados por seres que pareciam ser mortos vivos!
-Nós os avistamos, sub-sargento. Há vários vagando perto do poço de petrume.
-Eles os atacaram?
-Não saímos do veículo ainda. Estamos aguardando autorização da Viguroh para invadir e pegar a refinaria portátil.
-Ela está aí? Não é perigoso montar essas refinarias portáteis perto dos poços?
-Perigoso e proibido, mas, pelo visto, quem fez isso devia ser muito preguiçoso.
-Sargento, estou levando Wood para a colônia. Ele foi almejado e precisa de atendimento o quanto antes.
-Ele já recebeu sangue de emergência no veículo?
-Sim, e vai ser isso que vai mantê-lo vivo até chegar à colônia.
A resposta surpreendeu Caio:
-Negativo! Vocês ficam!
-O quê?!
-Temos ordens, soldado! O comando da Terra nos ordenou aguardar nas proximidades do poço! Eles estão enviando reforços!
Caio olhou para Wood. Se ficasse, sacrificaria o amigo. Mexeu no rádio:
-Senhor, não estou escutando! O rádio está ruim! – e desligou.
-Você vai ser expulso da Viguroh!... – gemeu Wood.
-Cale a boca! Precisa guardar energia!
Caio dirigiu o veículo para fora da colônia e colocou-o para correr em velocidade máxima em diração à colônia.
De repente, eu ouviu o som de jatos. Olhou no monitor e viu três jatos indo em direção a Xangai.
-Devem ser os reforços. –pensou Caio.
Mas, em seguida, ouviu algo inimaginável: a colônia Xangai explodiu!

Cap 6

Caio não conseguia entender: o que causara aquela explosão? Os jatos não podiam ter bombardeado a colônia. Sabiam que existiam agentes de segurança lá.
Mas a preocupação maior era com Wood. Pisou fundo. Em 30 minutos, ele dava entrada no hospital. A doutora Gabriela os recebeu.
Não havia nada o que falar. Caio já avisara a colônia Roma pelo rádio que estaria chegando com o colega extremamente ferido. Logo que chegaram, Wood foi colocado numa maca e levado para a sala de operações.
Caio sentou-se na sala de espera, e começou a aguardar. Seus pensamentos não se concentravam no amigo, mas na explosão que matara o resto de seu pelotão.
Uma hora depois, Gabriela adentrou a sala.
-Doutora Caetano. Como está o agente Wood?
-Ele já está estável. Logo vai sair da UTI. Você o trouxe na hora certa.
Porém, a atenção de Caio logo foi desviada com a chegada de um agente de segurança:
-Soldado Caio. O General Amir o aguarda.
Caio levantou-se e seguiu para o carro oficial que o esperava. Ele sabia que desacatar ordens era motivo de demissão. Como já dissera, a Viguroh era tudo para ele. Sentia uma forte angústia dentro daquele carro a caminho da sala do general.
-Pelo menos eu salvei uma vida... – pensava tentando se consolar.
Logo ele adentrou a sala do general.
-Agente Caio se apresentando! – fez continência.
-À vontade, agente. Por favor, sente-se.
Caio sentou-se na cadeira em frente à mesa do general. Ele esperava muita coisa naquele momento, mas nunca a pergunta que se seguiu:
-Agente, por que o sargento e seus homens não saíram da colônia Xangai?
-Como assim? – perguntou com um engasgo de surpresa.
-Não soube que o sargento e outros homens ficaram?
-Eu... nós... Eu e mais cinco agentes fomos atacados por seres que pareciam mortos-vivos. Sobrevivemos apenas eu e o agente Wood.
-O sargento também foi atacado?
-Segundo sua última comunicação, ele e seu esquadrão estavam seguros dentro do blindado deles, aguardando ordens do comando da Terra.
O sargento coçou a barba. Respirou fundo e falou:
-Então é isso. Estavam ocorrendo manchas solares, que dificultaram as transmissões da Terra para Marte. O pelotão dele não deve ter escutado quando recebeu ordens para se retirar. Mas, como vocês escaparam?
-O agente Wood estava à beira da morte. Recebemos ordens para nos retirar. – disfarçou Caio.
-Hum... isso é um pouco irregular, mas o sargento deve ter tido seus motivos. E foi acertado, caso contrário todos morreriam.
Caio respirou fundo também.
-Foi uma tragédia... Posso me retirar, senhor?
-Sim. Siga de volta para o hospital. Verifique se você não está carregando nenhuma doença.
-Como assim?
-Aqueles seres que vocês enfrentaram deviam ser pessoas doentes com algum vírus marciano desconhecido. Verifique antes de voltar à ativa.

Cap 7

Uma doença? Parecia uma explicação bastante sensata, afinal, todos aqueles monstros morriam com simples tiros. Mortos-vivos continuariam vivos. E, afinal, mortos não ressuscitam (pelo menos não sob a ótima da ciência). Só uma coisa ainda causava desconforto: a reação exagarada para conter essa doença desconhecida. Uma colônia em Marte é perfeitamente isolada. Não havia risco de epidemia. Mas não era novidade a paranóia dos militares, fosse na Terra, fosse em Marte.
Caio e Wood permaneceram no hospital por dois meses sob quarentena, mas nada ocorreu. Estavam limpos.
Terminado este prazo, ambos os seguranças voltaram às suas rotinas. Havia bastante trabalho pois, em alguns dias, chegaria numa nave o vice-presidente da Viguroh, Adler Aurick, para as comemorações de 75 anos de exploração marciana.
O Sr. Abrão também esperava por essa nave pois, com ela, ele voltaria para a Terra. No dia da partida, Caio pediu folga pois desejava acompanhar o amigo até a nave.
Como era proibido a entrada de pessoas não autorizadas no campo de petrume, Caio aguardou Abrão numa praça.
Logo ele viu o idoso carregando várias malas. Felizmente, a gravidade menor de Marte não as tornava pesadas e o idoso gozava de força e saúde. Caio pegou as malas e acompanhou o ancião até a nave.
A chegada de Adler se dera no dia anterior. Agora a nave estava sendo abastecida de produtos manufaturados para serem enviados à Terra. Na sala de embarque dos passageiros, Caio percebeu certa ansiedade no amigo.
-Seu Abrão, algum problema?
-Estou preocupado com o substituto que me enviaram. Não sei se devia deixar o trabalho.
-O senhor trabalha há anos sem férias. Precisa de descanso. Alem do mais, tenho certeza que a Viguroh mandou alguém capaz.
Abrão olhou para fora. Respirou fundo.
-Caio, preciso lhe pedir um favor...
-Pode pedir, seu Abrão. Estou aqui pra isso!
Abrão pegou seu celular e mostrou uma foto para Caio. Era um jovem rapaz.
-Seu nome é Lucas, filho de Jaqueline, uma falecida operária desta colônia por um acidente de trabalho.
-O acidente na fábrica 1? Eu já ouvi falar.
-Ele não tinha família na Terra e, como a Viguroh não faz um controle muito apurado para assistência social, ele foi esquecido neste planeta.
-E onde está este rapaz agora?
-Nos meus alojamentos. Lucas era muito jovem na época e tive pena dele. Fiquei com ele.
-Mas como o senhor fazia quando precisava ir trabalhar? Deixava-o sozinho?
-Não, eu o levava para trabalhar comigo.
-Seu Abrão, isso é proibido! Só as pessoas autorizadas podem trabalhar nos poços!
-Eu sei, mas ele é uma boa pessoa. Sempre queria me ajudar. Além do mais, no turno da noite ninguém o via.
-Mas o que o senhor precisa de mim?
-Só veja como ele fica. Ele já é um homem feito e sabe se virar sozinho, mas gostaria que tivesse alguma supervisão. Meu alojamento fica fora da área dos poços. Você pode visitá-lo sem problemas.
Caio abanou a cabeça:
-Tudo bem. Seu segredo fica seguro comigo.
O ancião finalmente embarcou. Na porta da nave ainda deu uma última olhada para o campo de petrume. Respirou fundo e entrou.

Cap 8

No dia seguinte, Caio voltou ao seu trabalho. Chegou cedo, como sempre, e começou a ler os relatórios gerais do dia anterior a fim de ficar inteirado das ações do serviço de segurança. Terminado este ritual, seguiu para o vestiário a fim de colocar roupas para a patrulha. Porém, um colega o parou:
-Caio, o comandante está lhe procurando.
Caio agradeceu e seguiu para a sala do superior. Bateu na porta:
-Senhor, estava me procurando?
Na sala, estava o comandante com uma pessoa sentada à sua frente, de costas para a porta.
-Sim. Este homem desejava falar com você.
O homem virou-se:
-Sr. Aurick! – reconheceu Caio.
-Vou deixá-los a sós. Preciso passar uma revista nas tropas. Com licença. – disse o comandante saindo.
Caio estava desconfortável. Não tinha idéia de como tratar com o vice-presidente da Viguroh. Ficou em posição de sentido. Logo Adler quebrou o gelo:
-Pode relaxar, soldado. Eu não sou militar.
-Desculpe, senhor. O que posso fazer pelo senhor?
-Na verdade, estou aqui porque você já fez.
-Já fiz? O que seria, senhor?
-Enfrentou inimigos desconhecidos e salvou a vida de um colega. Isso é um ato de heroísmo, agente Gomes. Nós, da Viguroh apreciamos isso.
-Só cumpri o meu dever, senhor.
-Por favor, pare de me chamar de senhor. Não fique tão formal. Esta é uma visita informal.
-Desculpe-me. Eu... não sei o que dizer.
-Tudo bem, eu que vim aqui dizer algumas palavras. – e, dizendo isso, abriu uma valise de onde tirou um envelope. Entregou-o a Caio.
-A Viguroh estima muito seus funcionários, principalmente aqueles que cumprem deveres perigosos. Esta é uma recompensa pelo que fez.
Caio abriu o envelope. Ali, encontrava-se um belo certificado de reconhecimento da empresa, além de um cartão magnético.
-O que é isto? – perguntou o agente sobre o cartão.
-Isto é um vale-crédito. Você pode utilizá-lo como um cartão de débito em qualquer instalação de Marte. Há um valor substancial depositado para você neste cartão.
-Puxa... obrigado, senhor Adler.
-É o mínimo que podemos fazer para agradecê-lo, sargento.
-Desculpe, mas eu não sou sargento.
-Agora é. – cumprimentou o vice-presidente.
Caio estava perplexo. Agradeceu e seguiu em direção à porta. Mas, antes de sair, voltou-se para o vice-presidente:
-Senhor, gostaria de pedir um favor.
-No que estiver ao meu alcance...
-Por favor, descubra o que era aquela doença que atacou os colonos e matou meus colegas.
Adler abanou a cabeça:
-Não se preocupe: porei nossos melhores especialistas nisto!

Cap 9

A viagem de Abrão se deu numa terça-feira. Sexta, Caio, ao sair de seu plantão, comprou uma pizza, um prato raro e caro em Marte, uma vez que todos consomem Clorela, uma alga verde muito nutritiva. A recompensa que recebera era bem gorda, assim, seria bom comer algo diferente, além de ajudar a conquistar a confiança e simpatia do protegido de Abrão. Com a pizza em seu veículo, o agente seguiu para o alojamento do ancião para conhecer o rapaz da foto.
Era noite. Porém, ao passar próximo de um posto de abastecimento, sentiu o cheiro forte do combustível. Logo percebeu que uma porta do estabelecimento estava arrombada.
Embora estivesse de folga, Caio mantinha a postura de agente de segurança. Ele iria averiguar o que estava acontecendo. Pegou um cassetete pois era perigoso usar uma pistola onde há um vazamento de petrume refinado.
Era a loja de conveniências do posto. Em frente, uma bomba de combustível automática (não existem mais os frentistas: o veículo sobe num plataforma, o motorista passa seu cartão e uma bomba inteligente se liga ao carro) havia vazado. Aparentemente, fora vandalizada. Felizmente, um processo de segurança fecha a bomba em caso de vazamento, mas havia ainda muito petrume no chão.
Entrou. Não podia acender a luz devido ao perigo da faísca causar um acidente. Felizmente, com olhos treinados e a iluminação urbana entrando pela porta ajudaram o agente num planeta que não pode contar com a luz das luas (Fobos tem um terço do tamanho em relação ao que é visto da Lua na Terra e Deimos mais parece uma estrela à noite).
Havia muita comida espalhada pelo chão. Parecia que o mesmo vândalo que quebrara a bomba lá fora havia entrado para dar continuidade a seus atos anti-sociais.
Finalmente, próximo a uma janela viu alguém comendo um pacote de batatas fritas com avidez. A roupa e o porte físico não deixava dúvidas: era o mesmo Lucas apresentado por Abrão na foto.
-Lucas! O que está fazendo aqui? Pense no que o seu Abrão vai pensar! – tentou chamar a atenção do rapaz.
O jovem se levantou e foi lentamente na direção de Caio. Quando passou pela janela, o que viu chocou o segurança: Lucas havia se tornado um morto-vivo!
O sargento levou um susto. A sujeira no chão o fez cair, deixando-o à mercê do rapaz doente.
-É o meu fim! – pensou Caio.
Mas, ao contrário do que aconteceu na colônia Xangai, a criatura não atacou o segurança. Passou lentamente por ele em direção à saída.
Caio não entendeu nada. Levantou-se, procurou seu cassetete e saiu atrás do jovem. Lá fora, teve outra surpresa: o jovem estava de prostrado, em cima do petrume refinado que havia vazado, vomitando.
-Fique aí, Lucas! Eu vou chamar ajuda! – gritou o sargento.
Caio correu para seu carro, para falar ao rádio.
-Aqui é o oficial Caio Gomes! Requisitando uma ambulância e escolta policial para o posto da rua 3 com a 4!
-Qual a emergência, oficial? – perguntou o rádio.
-Uma pessoa com uma doença grave, que precisará ser dominada para ser levada ao hospital.
-O que ele está fazendo?
Caio olhou de volta para o posto. Lucas estava batendo novamente na bomba de combustível com alguma coisa. Pegou os binóculos imediatamente e viu: ele batia na bomba com uma peça de metal que pegara dentro da loja de conveniências. Ao ver isso, abaixou-se imediatamente atrás do carro.
Logo em seguida o posto explodiu.

Cap 10

Caio teve alguns ferimentos, imediatamente cuidados no Pronto-Socorro. Assim que recebeu cuidados, seguiu para o quartel. Ele precisava descobrir o que as autoridades já haviam descoberto sobre a doença na colônia Xangai.
Lucas havia morrido no incêndio. Seu corpo carbonizado seguiu para o morgue assim que o fogo foi controlado. O comandante dos bombeiros tentou procurar Caio no hospital, mas não o encontrou. Ligou para seu celular, pois precisava do relatório do segurança a fim de anexar na investigação das causas da explosão. Caio prometeu entregar o relatório no dia seguinte. Como já era tarde da noite e se tratava de um agente de segurança, o comandante concordou.
Já era madrugada. No quartel, Caio podia ter acesso a alguns documentos militares e procurou sobre as pesquisas realizadas na colônia Xangai. Para sua surpresa, nenhuma investigação ainda tinha tido início.
Caio, frustrado, ficou largado na cadeira. Como a doença havia chegado à colônia Roma? Ele e Wood trouxeram a doença? Não fazia sentido: mesmo que a doença pudesse ficar encubada tanto tempo, nem ele, nem o amigo tiveram contato com Lucas.
Caio precisava de respostas e ele mesmo ia procurar! Como sargento, ele conseguiu autorização para pegar um pequeno veículo de exploração e roupas para o ambiente marciano.
O sol nascia quando Caio chegou ao local onde estava a colônia Xangai.
Não era nada animador: caminhando entre os destroços, pouco encontrava. Somente alguns corpos preservados pelo ambiente marciano e muito entulho derivado das construções destruídas. Ao longe, o poço de petrume estava soterrado abaixo de metal retorcido e muitas pedras de construções vizinhas.
Desanimado, voltou em direção ao seu veículo. Foi quando viu, ainda de pé, uma pequena construção residencial bem ao longe.
Correu até lá. A porta parecia ter sido arrombada de fora para dentro. No interior, tudo estava uma bagunça e, pelas rachaduras nas paredes, era um milagre aquele local ainda estar de pé.
Olhava por tudo, a procura de algo que lhe desse pistas. Foi quando viu, jogado no chão, embaixo de roupas jogadas, um I-pad.
Voltou correndo com o aparelho para seu veículo. Devia encontrar alguma coisa importante ali.
Ligou à bateria do veículo. Ainda funcionava perfeitamente. Começou a fuçar os arquivos, mas logo de cara viu um arquivo de vídeo com um nome sugestivo: SOCORRO!
Ao abrir, viu um rapaz:
-Meu nome é Jonas. Estou deixando isso gravado caso eu morra.
Havia o barulho de batidas na porta e nas janelas.
-Depois que a refinaria parou de funcionar, várias pessoas começaram a ficar doentes, com cara de zumbis. Elas permaneciam perto do poço de petrume, mas, depois, elas começaram a sair pela colônia em busca de comida, destruindo tudo em seu caminho. Acho que sou o único aqui que ainda não ficou doente!
Barulho de porta arrombada:
-Eles entraram para assaltar minha geladeira. Vou fugir daqui com o que tenho. Só queria ter um veículo para poder fugir com mais provisões. Mandem ajuda!
E acabou a gravação. Caio estava confuso: será que a fome havia apertado tanto os doentes que eles quiseram comer seu pelotão? Isso não faria sentido: se fosse assim, por que eles não se canibalizavam entre si? Seria muito mais complicado matar um soldado do que outro doente. E ele não vira sinais de doentes devorados.
-Preciso voltar para Roma. Só a Gabriela pode me ajudar agora...

Cap 11

-Estou interrompendo? – perguntou Caio com a porta da enfermaria parcialmente aberta.
-Já é a segunda vez esse ano, hein, Caio! – respondeu Gabriela em tom de brincadeira.
-Oh, desculpe. – respondeu o segurança, não entendendo a piada.
-Brincadeira, Caio! Vai entrando! Eu não estou aborrecida, não! Eu já estou quase terminando aqui. – explicou a doutora.
Gabriela tinha o braço esquerdo como prótese biônica. Ela perdera este membro pouco antes de vir a Marte. Felizmente, as próteses desta época são perfeitas, permitindo movimentos muito finos como se fosse um braço normal. Nenhum médico de respeito se forma sem aprender o básico de mecânica e eletrônica. Ela estava fazendo reparos quando Caio chegou.
-Diga-me, doutora, quando foi a primeira vez que eu a interrompi?
-Foi no dia em que você voltou da Xangai com Wood ferido. Eu estava assistindo ao último capítulo de minha novela com transmissão da Terra.
-Desculpe.
-Não tem do que se desculpar. Era meu plantão mesmo. E, além do mais, foram apenas os cinco minutos finais que perdi. E, também, já deu pra pegar estes cinco minutos que faltaram no site da emissora. – respondeu fechando a prótese.
-É sobre a Xangai mesmo que eu queria falar...
Caio contou tudo que acontecera até aquela manhã. Mostrou o I-pad para a doutora.
-Parece-me tão estranho para mim quanto pra você. Mas, se o tal rapaz morto no incêndio também tinha a doença, podemos verificar o que diz os arquivos da autópsia. – disse, abrindo seu computador.
-É... talvez isso nos ajude...
-Você parece abatido, Caio. Há mais alguma coisa que você não falou?
-É o seu Abrão... Eu tentei entrar em contato com ele esta manhã. Soube que ele morreu na nave a caminho da Terra...
-Nossa! Mas ele estava tão saudável quando partiu!
-Disseram que foi o coração. Ele já era idoso. Morreu de causas naturais.
Gabriela leu os arquivos. Coçou o queixo. Parecia que algo a incomodava...
-O que foi, doutora?
-Quando alguém morre num incêndio, é comum que a traquéia se feche por conta do ar muito aquecido. Às vezes até pode-se encontrar queimaduras no pulmão. Mas o caso de Lucas extrapolou tudo isso.
-Como assim?
- Ele tem graves queimaduras internas. Principalmente num lugar que não faz sentido.
-Que lugar?
-O estômago. Nem bebendo muita vodka ele teria queimaduras assim.
Caio arregalou os olhos. Parecia que tudo fazia sentido agora.
-Meu Deus! Só pode ser isso!

Cap 12

-Petrume? – perguntou Gabriela.
-Sim! A doença vem dos poços de petrume! – respondeu Caio.
-Mas, por que você acha isso?
-Veja bem: a doença começou na Xangai quando colocaram o refinador portátil próximo do poço de petrume, permitindo a todos na colônia chegarem perto dele. Somente o rapaz da gravação no I-pad não se contaminou, pois não tinha um veículo, logo, ele nunca chegou perto do poço.
-Só o petrume puro transmitiria esta doença? O refinado não?
-Provavelmente, durante o processo de refinamento, o que causa a doença seja extraído.
-Mas há trabalhadores nos poços todos os dias e nunca ouvimos falar de um caso assim.
-Talvez seja esse o caso: a doença só se manifeste quando se fica longe dos poços. Talvez o ar de lá impeça que a doença vá em frente. A abstinência deste ar faz os doentes quererem consumir petrume. Isso explica porque os colonos da Xangai nos atacaram e Lucas não.
-Explica?
-Sim: nosso esquadrão levava tanques de petrume refinado dentro do veículo, logo, ficamos impregnados com o cheiro do combustível. Na necessidade, os doentes de lá quiseram nos devorar a procura de petrume. Eu não cheirava a isso quando encontrei Lucas.
-Então Lucas estava queimado por dentro pois havia bebido petrume refinado no posto?
-Isso mesmo. Talvez fosse por isso que ele vomitou quando saiu da loja. Mesmo doente, petrume não lhe fez bem, e ainda queria mais, por isso ele tentou abrir a bomba do posto, fazendo o mesmo ir pelos ares.
-Mas só o ar do posto já seria suficiente para aplacar sua necessidade. Por que beber?
-Petrume refinado não é petrume natural. Talvez durante o processo de refinamento se perca o componente necessário para o doente.
-Tudo parece plausível, mas e quanto aos trabalhadores que saem de férias ou param de trabalhar lá? Não deveriam já ter ficado doentes?
-Qual a idade dos trabalhadores dos poços?
-São idosos. E daí?
-Aí é que está: a doença deve atacá-los de maneira mais forte pois são todos idosos, levando-os à morte antes de manifestar os sintomas. Já percebeu como esses trabalhadores acabam morrendo quando deixam os postos?
Gabriela pôs as mãos no rosto:
-Santo Deus! E todos nós achando que os idosos estavam morrendo devido à idade avançada!
-Precisamos avisar a Viguroh agora mesmo!
-Caio, a extração do petrume é a base de toda a economia marciana. Na verdade, de toda a economia espacial. A Viguroh não vai parar de retirá-lo do solo com base num palpite. Você precisará de provas.
-Tem alguma sugestão?
Gabriela ficou pensativa. De repente, seus olhos brilharam:
-Sim! Acho que tenho!

Cap 13

-Isto chama-se Upemimo. É a sigla para Unidade de Pesquisa Microbiana Móvel. – disse a doutora em cima de um banquinho enquanto pegava uma caixa de metal com rodas com esteiras.
-E para que serve isso? – perguntou Caio.
-Foi criado para investigar situações de epidemia. Dentro desta máquina colocamos um kit com amostras de tecido vivo do corpo todo em um líquido oxigenado e nutritivo. Ele fica exposto à área a ser verificada e, com registros apurados do comportamento dos tecidos, conseguimos informações detalhadas sobre os agentes patogênicos de um local.
-E isso vai nos dar provas para a minha teoria?
-Isso mesmo.
-Pode contar comigo, doutora. O que devo fazer?
-Muito simples. Você deve levar este aparelho até próximo ao poço. Felizmente a máquina pode ser operada por controle remoto, assim, você pode ficar a uma distância segura.
Caio levou a mão ao rosto.
-Vou precisar ter cuidado para não ser visto. É proibido até para os agentes de segurança entrar nestas áreas.
Estavam no mês marciano de Peixes, início do inverno no hemisfério sul. Como o eixo de Marte é parecido com o da Terra (ligeiramente maior), a duração das noites é maior. Assim, logo anoiteceu.
Como segurança, Caio conhecia todos os pontos cegos das câmeras de segurança até a área do poço. A uma distância segura para não contágio, colocou o Upemimo no chão.
Felizmente, graças à baixa gravidade, aquele robô não era pesado, mesmo com o kit dentro. Começou a operar a máquina, tomando cuidado com outras câmeras.
Finalmente a máquina chegou ao lado do poço. Caio acionou o mecanismo para uma curta exposição àquela área. Agora era só deixar 5 minutos.
Foi quando aconteceu: o operário substituto do seu Abrão surgiu. Caio perdeu o fôlego: embora o Upemino estivesse nas sombras, se o idoso desse mais alguns passos daria de cara com o robô.
-Fique onde está! Fique onde está! – pensava aflito o sargento.
Mas nada aconteceu: o operário somente saiu para buscar seus óculos, que deixara numa mesa do lado de fora. Uma vez de volta à cabine de trabalho, Caio respirou aliviado e conduziu o robô de volta para si.
-Agora vamos descobrir se estou certo ou não... – pensou enquanto pegava o Upemimo no chão.

Cap 14

Os resultados sairiam no dia seguinte. Como de costume, Caio seguiu para seu trabalho. Naquele dia, ele estaria fazendo serviços internos.
Sentou-se em sua mesa e começou seu trabalho. Por volta das 10 da manhã, o comandante do corpo de bombeiros veio à sala de Caio:
-Bom dia, sargento. – saudou o bombeiro com polidez.
Imediatamente, Caio lembrou-se:
-Oh, não! Desculpe-me! Eu já devia ter entregado um relatório sobre o que vi no incêndio!
-Isso mesmo. Eu vim cobrá-lo.
-Comandante, eu gostaria de dar meu depoimento amanhã.
O bombeiro estranhou:
-Isto é irregular, sargento. Mas por que está me pedindo mais tempo?
-Eu tenho pistas que nos levarão a algo muito maior do que este pequeno incidente.
-Pequeno? Um posto foi pelos ares.
-Para o senhor ver como isso é grande perto deste acidente.
O comandante coçou seu queixo. Inspirou:
-Vou lhe dar este prazo, mas porque nossa investigação já está quase no final.
-No final?
-Sim. Sabemos que o incêndio começou na bomba. Ela estava avariada e uma fagulha, derivada de uma peça de metal contra a bomba, deu início à explosão. O que ainda não sabemos é por que alguém foi tolo o suficiente para bater repetidas vezes na bomba com o risco de explosão.
-Confie em mim: se me der mais um dia, eu lhe dou esta resposta.
O bombeiro abanou a cabeça:
-Estou ansioso para saber.
No final do dia, Caio seguiu para o hospital.
-Caio! Estava ansiosa para revê-lo!
-Descobriu se eu estava certo?
-Completamente! Veja, vou pôr as simulações na tela.
Caio sentou-se ao lado de Gabriela.
-Realmente existe uma bactéria no ar próximo ao poço, que se alimenta dos componentes do vapor que sai do chão. Ela se aloja nos pulmões e na pele do paciente.
-Mas isso não devia dar febre nos doentes?
-Só quando fica longe dos vapores do poço. Enquanto não fica, ela se comporta como um simbionte.
-Simbionte?
-Sim. A bactéria filtra todos os componentes ruins do ar, permitindo o paciente respirar ar de melhor qualidade.
-Será que é por isso que os idosos parecem mais saudáveis em Marte?
-Parece que sim.
-Então, o que acontece quando o paciente fica longe do poço?
-A doença só ataca mesmo dois a três dias depois. Num idoso, ele fica com febre e morre por insuficiência respiratória. Porém, em pessoas jovens, a bactéria começa a consumir componentes do corpo para sobreviver. Como ela se aloja na pele, dá a impressão de pele morta e fica cheia de escaras.
-Então o doente começa a procurar comida para repor os componentes perdidos.
-Sim, procura petrume para beber em primeiro lugar, mas como o organismo não está preparado para consumi-lo, vomita. O doente então vai atrás de comida, ou de mais petrume.
-Foi por isso que Lucas vomitou. Ele deve ter bebido petrume refinado. Depois que vomitou, tentou beber mais petrume, mas com a bomba fechada, ele tentou abri-la com a peça de metal.
-Então eu estava certo! Fomos atacados em Xangai devido ao cheiro do petrume!
-Aparentemente sim.
-Gravou tudo isso num pen-drive?
-Posso lhe dar uma cópia. Mas o que pretende?
-Procurar Adler Aurick para avisar a Viguroh!
-O vice-presidente? Mas ele vai recebê-lo?
-Acredito que sim. Ele quis me conhecer assim que chegou a Marte. Queria me parabenizar pelo salvamento de Wood. Devo conseguir uma audiência com ele.
Caio pegou o pen-drive e seguiu para o hotel onde o vice-presidente da Viguroh se encontrava. Ao chegar no atendimento, pediu para chamar por Adler. Logo ele deu ordens para que o segurança subisse. Ao chegar no quarto, o vice-presidente recebeu Caio com um caloroso abraço.
-Caio! O que posso fazer pelo nosso herói?
-Senhor! Os trabalhadores dos poços de petrume correm perigo mortal.
-Como assim?
Caio então contou tudo para o vice-presidente da Viguroh. Ele escutava tudo muito atento. Finalmente terminou:
-Senhor, precisamos avisar os trabalhadores!
Mas a reação do executivo surpreendeu o agente de segurança: o homem caminhou até sua mesa, pegou um cigarro. Deu uma baforada e disse:
-Então você descobriu o que nós, alto-executivos da Viguroh, chamamos de RISCO DE MARTE...

CAP 15

-RISCO DE MARTE???
Novamente de pé, Adler começou a explicar:
- O RISCO DE MARTE é o risco que a Viguroh corre de que esta doença que você citou fosse descoberta e viesse a público.
-Então a Viguroh já conhecia a doença?!
-Caio, pense bem: Marte já está em processo de colonização há 75 anos. Você acha que, no início, ninguém teria se contaminado ao explorar os poços? Já conhecemos quase tudo sobre a doença. Só não conseguimos uma cura.
-Então por que isso não veio a público?
-Marte não se sustentaria sem petrume. A colonização ficaria inviável. A humanidade precisa colonizar Marte pois a Terra ainda não se recuperou do Aquecimento Global. Este segredo precisa ser mantido em nome da preservação da raça humana.
-Então a escolha de idosos para trabalhar nos poços...
-É proposital: quando eles se afastam dos poços, morrem sem deixar as seqüelas da doença. Assim que um idoso decide tirar férias, mandamos um médico nosso na nave que dá um diagnóstico conforme desejamos.
Foi quando Caio lembrou-se da interrupção causada a Gabriela: no dia do ataque à colônia Xangai ela só perdera os minutos finais de sua novela:
-Não houve manchas solares interrompendo a transmissão da ordem para todos se retirarem antes do ataque! – percebeu Caio.
-Está certo. Os soldados viram demais. Era preciso silenciá-los e encobrir a doença.
-E por que estou vivo?
-Seria muito suspeito se você morresse sem mais nem menos. Por isso, fui enviado para cá para assegurar que você manteria silêncio. Bastou prometer uma investigação e lhe dar alguns prêmios que tudo ficaria bem. Pelo menos foi o que pensei. Não cometerei este erro novamente.
-Isso tudo é um absurdo! A Viguroh está condenando idosos à morte!
-Caio, todos eles já estão no final da vida! Vão morrer de qualquer forma! E será pelo bem maior: salvar a humanidade!
-E salvar, também, os lucros da Viguroh! O que os acionistas iriam fazer se soubessem disso?
Adler respirou fundo.
-Vejo que você não irá colaborar conosco... Jaime! Odair!
Enquanto discutiam, Caio não vira a chegada de dois seguranças, provavelmente convocados quando Adler sentou-se, apertando um botão de segurança. A atenção do agente voltou-se para os capangas. A voltar-se de novo para Adler, ele já havia dado a volta e estava próximo de seus agentes.
-E agora? – perguntou Caio.
-Simples: você veio aqui me pedindo mais dinheiro pois gastou toda sua recompensa. Ameaçou-me, mas um de meus seguranças o matou.
-Todos que me conhecem sabem que não sou assim! Os agentes de segurança irão suspeitar.
-Caio, Marte inteira está nas mãos da Viguroh! Até os agentes! Tudo morre aqui com você.
Caio começou a andar lentamente, de costas, em direção à escrivaninha de Adler.
-Não morre não. Ou você acha que descobri tudo sozinho?
Adler, mudou a fisionomia. De calmo para tenso.
-O que está dizendo?
-Eu sou apenas um agente de segurança. Não sou cientista e, neste momento, a pessoa que me ajudou a descobrir sobre a doença está postando sobre ela na internet. Deixe-me sair, ou todo mundo ficará sabendo o que aconteceu.
-A Viguroh é dona dos provedores de Marte, posso mandar bloquear a internet!
-Então é melhor fazer isso agora mesmo.
Adler pegou um celular e começou a discar. Com a atenção desviada, Caio pode examinar o controle das luzes do escritório na escrivaninha. Num golpe rápido, aumentou muito a luz e a apagou, deixando todos cegos momentaneamente. Momento este que Caio aproveitou para agarrar o vice-presidente da Viguroh.
-Muito bem: larguem as armas ou teremos de eleger outro vice-presidente!
Sem alternativa, Adler disse:
-Façam o que ele mandou!

Cap 16

-Não tem onde se esconder em Marte, Caio. – dizia o executivo, enquanto atravessavam a saída.
-Eu só preciso que o todo mundo saiba o que estão fazendo aqui.
-Boa sorte. Não tem como fazer isso sem que o chamem de louco ou sem internet.
-Que convenientemente caiu, não é?
-Você é bem esperto.
Longe da mansão da Viguroh, Caio prendeu Adler a um poste de iluminação com suas algemas.
-Logo irão me encontrar, Caio. Depois, eu que vou encontrá-lo.
-Boa sorte pra você também.
Caio saiu correndo. Precisava avisar Gabriela. Ela logo estaria correndo perigo. Mas tinha que ser discreto. Não podia ser encontrado pelas câmeras de segurança da colônia.
Uma hora depois conseguiu chegar à casa de Gabriela.
-Ufa! Cheguei a tempo!
Não. Não chegou. A casa da jovem doutora explodiu.
Caio caiu de joelhos. Lamentou em voz alta:
-O que foi que eu fiz? Eu trago morte a todos à minha volta!
-Caio! – ouviu uma voz baixa.
Escondida, atrás de sacos de lixo no fim de um beco, o segurança encontrou um vulto conhecido:
-Gabriela! Você está bem?
-Estou precisando de um banho! Este lixo fede demais...
-Mas como você escapou?
-Foi uma coisa que achei estranha: a autópsia do seu Abrão dizia que a morte fora uma parada cardíaca, e não insuficiência respiratória, como deveria ser. Eu fiquei ressabiada com isso e com o fato desta doença nunca ter sido descoberta até então...
-Percebeu que era coisa da Viguroh.
-Isso mesmo.
-Precisamos nos esconder. – comentou Caio olhando para os lados.
-Mas, onde?
-Eu tenho um lugar. Venha comigo.
Gabriela então foi contando como ela começou a suspeitar de todos. Ao chegar perto de casa, ela vira um carro da assistência técnica de TV estacionado em frente à sua casa. Decidiu esconder seu carro e olhar de longe. Viu pessoas revirando sua casa, então, escondeu-se ali pois era escura e sem nenhuma câmera por perto.
Precisaram andar a pé, pois todas as ruas eram vigiadas. Foi uma longa caminhada até o esconderijo de Caio: o alojamento de seu Abrão.
-Estamos seguros aqui? – perguntou Gabriela.
-Sim. Os alojamentos são à prova de som, o que torna o descanso dos trabalhadores mais tranqüilo. Uma das vantagens de trabalhar na Viguroh. – respondeu Caio.
-Só assim para ninguém notar que Lucas estava doente.
A porta estava semi-aberta. Preocupado, Caio entrou para verificar se havia alguém. Uma boa busca e ninguém.
-Lucas deve ter deixado assim quando saiu. Podemos descansar. – deduziu o agente de segurança.
-E se grampearam o local? – preocupava-se Gabriela.
-Se grampearam, logo alguém estará aqui.

Cap 17

Ninguém chegou. Logo, o casal pôde descansar.
A primeira coisa que a doutora fez foi tomar um banho. Caio jogou-se no sofá e ligou a TV. Limpa, a médica colocou um hobby e sentou-se ao lado do ex-agente de segurança.
-Alguma coisa sobre o que aconteceu? – perguntou Gabriela.
-Eu não sei. Com a rede de internet marciana desativada, não posso acessar as notícias deste planeta. Só assistir as transmissões da Terra.
Nisto, surge uma notícia:
-Atenção! Recebemos um comunicado de Marte! Segundo informes da Viguroh, dois terroristas tiraram a rede de internet marciana do ar! Eis as fotos deles:
Surgem as fotos de Caio e Gabriela. Gabriela fica atônita.
-Eles são perigosos, conforme mostra esta imagem da câmera de segurança interna da mansão da Viguroh.
Nisto, Caio é mostrado levando Adler sob a mira de uma arma.
-Se você estiver em Marte e reconhecer estas pessoas, entre em contato com as autoridades locais. O Vice-presidente da Viguroh enviou este vídeo:
Atrás de sua escrivaninha, Adler dá um discurso:
-Caros colaboradores marcianos. Hoje fui vítima de um casal de terroristas que defende a volta de todos os colonos marcianos para a Terra. Como ato para nos forçar a aceitar suas reivindicações, eles me obrigaram a tirar a internet marciana do ar. Fomos obrigados a destruir muitas máquinas, mas uma coisa eles não conseguiram destruir: nossa vontade de salvar a humanidade! Tenho certeza que todos vão colaborar neste momento difícil sem a rede pois, antes de tudo, somos batalhadores! Marte é nossa taboa de salvação enquanto não termina o aquecimento global na Terra! Não deixaremos pessoas mal-intencionadas tirar esta última esperança que temos!
Caio deu pausa na transmissão. Estava furioso:
-Que canalha! Jogou a culpa de tudo em cima de nós! E ainda está posando de bonzinho!!!
Gabriela começou a chorar. Caio parou de esbravejar e começou a acariciar a cabeça da médica a fim de acalmá-la.
-O que vamos fazer agora, Caio? Viramos criminosos! Eu quero minha vida de volta!
O fugitivo suspirou:
-Eu ainda tenho o pen drive. Não entreguei para ele. Podemos tentar levar isso para a mídia.
-Como? Marte não tem mais internet e não há repórteres em Marte!
Caio baixou o semblante. Voltou-se para a TV e tirou a pausa. O discurso continuou, mas logo algo chamou a atenção de Caio.
-Felizmente nada disso irá impedir a grande festividade dos 75 anos de colonização marciana! Convido a todos em Marte para a festa que ocorrerá em dois dias, em 8 de Peixes!
O jovem soldado pulou do sofá:
-Já sei como vamos nos salvar!!!

Cap 18

-O detector de metais está acusando porte de metal.
-É a minha prótese.
O agente passou o detector de mão pelo braço da doutora, confirmando a história.
-Perdoe-nos pelo excesso de zelo, Gabriela. Porém, agora todo cuidado é pouco. – explicou Adler.
Gabriela sentou-se na cadeira em frente à escrivaninha do Vice-Presidente da Viguroh, com um segurança dele ao lado.
-Adler, eu não quero ir contra a Viguroh. Eu só quero ter minha vida de volta.
-Para isso, preciso que você me entregue o Sargento Gomes.
-Você poderá capturá-lo amanhã, na festa dos 75 anos da colonização marciana.
-Haverá muita gente lá. O que ele pretende fazer?
-Irá denunciar a operação da Viguroh. Ele disse que vai aparecer na hora do seu discurso e vai contar a todos que estão ali o que vocês vem fazendo.
Adler coçou o queixo.
-Interessante...
-Vocês vão parar de me perseguir, agora?
O homem levantou-se. Estendeu a mão para Gabriela:
-Mas é claro. Trato é trato. Não conte ao Caio que esteve aqui. Vamos jogar toda a culpa nas costas dele e inocentar você.
-Eu nem pretendo ficar perto dele. Eu disse que ia me esconder na casa de uma prima até que tudo passasse e não fossemos pegos juntos. Se eu o deixasse só, ele desconfiaria que eu estava para entregá-lo.
-Vai ficar onde?
-No hotel de Marte, isto é, se o senhor avisar às autoridades que não sou mais terrorista.
-De acordo. Colocarei dois homens para escoltá-la até lá.
Adler começou acompanhar a moça até a porta.
-Sr. Aurick, sobre os trabalhadores que morrem nas espaçonaves voltando para a Terra...
-Sim?
-Vocês, sabendo que o trabalhador irá morrer por causa da doença dos poços de petrume, colocam um médico de confiança para dar o diagnóstico errado, certo?
-Certo.
-Eu poderia trabalhar para vocês como esta médica. Eu já sei o segredo, e minha vida aqui em Marte nunca mais será a mesma. Pode me escalar para isso?
-Claro! Você poderá trabalhar nas naves em tempo integral como médica, se quiser. Quando tivermos outro caso de morte premeditada, você dará o diagnóstico de precisamos.
-Obrigada. Já me sinto mais segura.
Gabriela saiu do escritório sob escolta. Porém, não chegou a ir para o hotel como planejava. Na verdade, nem mesmo a sair do edifício direito: um agente de segurança de Marte a esperava lá fora.
-Gabriela Caetano?
-S-Sim? – respondeu nervosa.
-Está presa. Venha comigo.
-Ela está sob a custódia da Viguroh. – respondeu um dos seguranças.
-A Viguroh não pode ficar acima da lei, principalmente em se tratando de terroristas. Eu respeitei a propriedade da empresa não invadindo, esperando ela sair. Respeitem, portanto, o meu serviço. Ou será que a Viguroh está envolvida com os atos dela? – respondeu o agente colocando a moça em sua viatura.
Sem ter o que responder, os seguranças voltaram para Adler. Ele esperava que os seguranças matassem a moça a caminho do hotel e dessem um sumiço no corpo.
-Talvez tenha sido melhor assim. Presa, ela não tem como dar suporte a Caio.
-E se ela der com a língua nos dentes?
-Ela é inteligente. Sabe que a melhor alternativa que ela tem, agora, é confiar na Viguroh, e não ir contra ela, afinal, na cadeia, que provas ela terá à mão? Vamos nos concentrar no que é importante: deter Caio.

Cap 19

Embora a colônia não contasse com um número muito grande de moradores, um volume grande de pessoas veio à festa prometida pela Vigoroh. Muitos vieram de outras colônias em transportes que lembravam uma fusão de ônibus com veículos lunares.
Esse era o problema com a segurança da colônia naquele momento: não havia homens suficientes para cobrir toda esta movimentação, o que era o trunfo do plano de Caio.
Mas Adler era mais esperto. Durante muito tempo, ficou matutando como o ex-agente conseguiria mostrar as provas da doença dos poços sem levar um tiro ao entrar no palco onde ele faria seu discurso. Mas, inevitavelmente, ele conseguiu sua resposta.
-Ele está aqui! – anunciou um dos seguranças jogando, todo ensangüentado, Caio perto de Adler, em sua sala no evento.
-Finalmente, Caio Gomes, você parou de me atrapalhar. – respondeu o executivo.
Caio, com dificuldade, levantou sua cabeça. Um olho inchado e outro semi-aberto pareciam querer entender como o vice-presidente o encontrara.
-Bom, meu amigo, acho que você quer saber o que deu errado. Simples. Só havia um modo de você divulgar nosso segredo e ficar a salvo: da sala de mídia.
Lentamente, Caio sentou-se no chão.
-Esta sala cuida do áudio e vídeo do evento. Lá, eu poderia substituir sua voz no microfone e sua imagem no telão para poder desmascarar a Viguroh a todos aqui.
-Isso mesmo. Bastou eu deslocar meus agentes para pegá-lo em flagrante nesta sala.
-Senhor, isto estava com ele. - disse um dos homens entregando um pen drive.
-Aqui acaba seu motim, Caio. – e pisou no objeto destruindo-o.
-Tudo bem, Adler! Vá lá fora e faça o seu discurso! – gritou Caio.
-Acha que sou tolo, homem? Nada me garante que você não tenha conseguido fazer algo para comprometer aqueles equipamentos. Não. Fazer este discurso é exatamente o que você quer.
-E como vai fazer para falar com milhares de pessoas?
-É só usar o antigo equipamento de som local. Talvez os últimos não consigam ouvir, mas poderei fazer o esperado discurso em segurança.
Caio socou o chão.
-Mas não fique triste. Mesmo que todos em Marte não consigam acompanhar, o link de transmissão para a Terra, que está instalado longe da sala de mídia que você profanou, irá transmitir o meu discurso e como nós, da Viguroh, conseguimos deter um terrorista como você.
-Você é o criminoso aqui, Adler. Você e a Viguroh!
-Eu poderia até prender você com a Dra. Caetano, mas meus homens não deixarão que você chegue vivo até a prisão...

Cap 20

Adler deu início a seu discurso. Começou invocando o nome dos primeiros robôs que vieram a Marte. Depois, falou dos primeiros exploradores humanos, quando realmente teve início a exploração de Marte (a data oficial do início da contagem dos 75 anos terrestres da exploração do planeta vermelho).
Citou colônias famosas, descobertas, tecnologia. Por último, falou do petrume e o quanto ele é importante para manter viável a colonização do planeta. Foi neste ponto que Caio foi mostrado como uma atração de circo.
Mas Caio manteve-se calmo, assim como o fez em todo o discurso, demonstrando dignidade.
Finalmente acabou o discurso. Desta vez, preparado, Adler pedira a custódia, com antecedência, de Caio para levá-lo à delegacia.
-Acho que eu vou reagir dentro do veículo e um de seus seguranças irá me matar em legítima defesa, não é mesmo? – deduziu o ex-agente.
-Você realmente me impressiona, Caio.
-Impressionante é o que está passando nos canais de notícia da Terra neste momento. Por que não ligamos para ver?
Adler estranhou. Pediu a um de seus homens que ligasse a TV. Uma repórter dava uma notícia realmente inesperada:
-Várias pessoas estão em frente à sede da Viguroh aqui na Terra querendo saber das vítimas da doença do petrume marciano! A polícia começa a chegar! O presidente a Viguroh promete um discurso para mais tarde.
Adler olhou com fúria e perplexidade para Caio:
-Como você...
-Sabe Adler, quando eu era criança queria ser mágico. Eu aprendia todos os truques, mas um era o mais importante de todos: o melhor modo de realizar uma mágica é atrair a atenção da platéia para longe de onde o será feito o truque.
-A doutora fazia parte do plano! Você nos queria longe do link de transmissão! Mas como você fez para operá-lo à distância?
-Por que não me empresta um de seus comunicadores?
Adler mandou um de seus seguranças entregar o rádio a Caio. Este o sintonizou e ligou:
-E aí, Wood? Como vão as coisas aí?
-Não podiam estar melhores, Caio!
Um dos homens de Adler assustou-se:
-É a voz do policial que prendeu a doutora!
-Isso mesmo. É incrível como laços de amizade e confiança se formam depois que se salva a vida de alguém, não é?
Adler começou a bater palmas com certo desprezo:
-Parabéns, Caio. Embora você tenha destruído as esperança da Terra nas colônias marcianas, a Viguroh poderá alegar que não sabia de nada.
Caio acionou o rádio de novo:
-Wood, sabe aquele trecho da transmissão que eu pedi para você realçar?
-Sei.
-Toque para nós ouvirmos neste rádio.
Logo uma gravação começou a ser ouvida:
-Claro! Você poderá trabalhar nas naves em tempo integral como médica, se quiser. Quando tivermos outro caso de morte premeditada, você dará o diagnóstico de precisamos.
Adler olhou assombrado para Caio. Este comentou:
-Vocês esqueceram-se de olhar dentro da prótese da Dra. Caetano.

Cap 21

Adler foi imediatamente afastado da Viguroh. O golpe de Caio realmente atingira a empresa, mas não a ponto de destruí-la. Na verdade, Adler pagou por todos os pecados. Surgiram contas em paraísos fiscais, provas incriminatórias, tudo ligando as operações imorais ao vice-presidente. É claro, o resto da Viguroh não sabia de nada...
-Isso é uma palhaçada! Adler até disse que o nome dado pelos acionistas a tudo isso era RISCO DE MARTE! – gritava Caio.
-Calma, homem. As coisas são assim mesmo. Não são os primeiros poderosos a se safar e, infelizmente, não serão os últimos. – Wood tentava acalmá-lo.
-Você tem que ver pelo lado positivo. Graças a você, quem já trabalhava nos poços começou a receber ainda mais privilégios: têm planos mais extensos de saúde, podem tirar férias visitando todos os dias seu local de trabalho, podem pedir para a Viguroh pagar passagens a toda a sua família para que elas venham visitá-los em Marte... – falava Gabriela tentando levantar o otimismo de Caio.
-Mas ainda estão presos aos poços... – respondia Caio.
-E o que pode ser feito? A doença não tem cura. Mas ninguém mais vai morrer por causa dela. – mostrava a doutora.
-Além do mais, ninguém mais será enviado a estes poços. – completava Wood.
Caio respirou fundo. Continuou:
-Eu sei... só não acho muito justo.
-Pelo menos você é um herói, tenente. – disse a doutora levantando a moral de Caio.
-Não sei quanto a vocês, mas estou louco para comer um bife acebolado aqui na Terra! – mudou Wood de assunto.
-Vamos assim que visitarmos aquela fábrica aqui no México. – respondeu o tenente Caio.
-Estamos aqui neste aeroporto há mais de 30 minutos. Estou com fome! – reclamava Wood.
Nisto, um homem de aparência latina, como todos naquele lugar, de terno chegou afobado:
-Caio Gomes? Desculpe o atraso. Tivemos um atraso na liberação de nosso veículo para transitar pelas ruas da região.
-Aqui na Terra tem sido feito um grande esforço para reduzir a emissão de poluentes. – comentou Caio.
-É verdade. Já devíamos ter trocado nossos carros por elétricos, mas sempre sobram aqueles movidos a etanol para estas ocasiões.
O grupo entrou num pequeno carro com direção automática.
-Dr. Evandro, o senhor disse que havia criado uma solução para o problema do trabalho nos poços de petrume. – disse Caio, puxando assunto.
-Sim, Sim! Ninguém nunca mais ficará doente!
-É um remédio? – perguntou Gabriela.
-Não! É o C.G.MEX!
-C.G.MEX? Se não é remédio, o que é? – perguntou Wood.
-Por favor, venham por aqui. – pediu Evandro saindo do carro.
O carro parara em frente a uma grande indústria.
-Eu pensava que as grandes indústrias haviam se divido em menores... – comentou Wood.
-A nossa é uma das últimas do planeta. Temos aqui um controle muito rígido da poluição. Só assim continuamos produzindo. – respondeu o doutor.
-Doutor, o senhor ainda não nos disse o que é um C.G.MEX. – cobrou Caio.
-Vejam bem, eu o considero um herói em Marte. Por isso batizei meu invento de C.G.MEX: Caio Gomes Mexicano.
-E o que é o Caio Gomes Mexicano? – indagou Wood.
-Vejam por si.
Evandro abriu uma porta onde havia uma réplica de um poço de petrume e, trabalhando nele, um robô!
-Aquilo é o C.G.MEX? – perguntou Wood.
O robô virou-se para o grupo. Foi até lá.
-Fui chamado? – perguntou o robô, que tinha uma aparência quase humana.
-Sim, C.G.MEX. Este é Caio Gomes, o homem que inspirou seu nome.
Timidamente, o robô olhou para Caio.
-É um prazer conhecê-lo, C.G.MEX. – Caio estendeu a mão.
O robô o cumprimentou. Naquele momento nascia uma nova era na história da humanidade. Uma era onde o robô seria muito importante. Era esta que chegaria ao fim, de forma dramática, 3000 anos depois...

FIM



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