Não se Morre Mais Como Antigamente

CAPITULO 1

Ah! Os bons tempos! Quem nunca teve vontade de viver numa época onde a vida era mais simples? As pessoas se respeitavam mais? Não existia correria e os empregos eram mais estáveis? Sim, nesta época podíamos encontrar mais facilmente pais de família felizes e satisfeitos.
Esta é a vida de João da Silveira. Ele é um feliz trabalhador da Mata Pragas S.A., uma empresa desenvolvedora de pesticidas para o setor agrícola, um forte setor na região. A cidade é Nossa Senhora das Nuvens Brancas, uma pequena cidade de 50.000 habitantes, mas relativamente grande em relação às suas vizinhas.
Como todo trabalhador desta época, ele chega no horário de trabalhar. Às vezes atrasa, mas sua empresa não tem relógio de ponto e o gerente de seu setor não se aborrece, pois João é um excelente trabalhador. Sempre chega com um sorriso no rosto e faz amizades facilmente.
João é assistente de gerente. Mexe com papéis o dia todo. Quando cansa, pendura o paletó na cadeira, como muitos trabalhadores de sua época, e sai para tomar um cafezinho e dar uma volta pela empresa.
Neste dia em especial, todos estão alegres, pois um de seus companheiros de empresa vai se aposentar e todos no escritório decidem fazer uma pequena confraternização no horário de trabalho. Embora reuniões sejam motivo de atenção para os militares deste período, não há esta preocupação nesta pequena comunidade.
O gerente, Adailton Oliveira, faz um pequeno discurso e, ao final, todos abraçam o ex-colega. Comem um bolo de fubá, providenciado pela esposa de um dos colegas de serviço, e vão embora para suas casas.
Enquanto alguns funcionários saem com seus veículos (que vão de fuscas a opalas), José da Silveira prefere fazer uma boa caminhada.
É verão. O final do dia está bem iluminado. O caminho tem muito verde e podem-se ver crianças brincado e jogando futebol. Nisto, uma bola rola para perto de João. Dois garotos correm para perto dele. Com um sorriso, devolve a bola.
No caminho, João se lembra que precisa comprar pão. Assim, como todo bom pai de antigamente, João passa numa padaria. Pede quatro pães franceses, ou “pães de sal” como pedem todos os clientes desta época.
Por fim, João, um feliz trabalhador e bom cidadão dos velhos tempos, como todo dia, chega ao final de uma trilha afastada e pula dentro de um buraco de verme no tecido espaço-tempo...

CAPITULO 2

Medíocre. Assim poderia ser definida a vida de João da Silveira. Desde que nasceu João nunca se destacou. Quando seu pai foi vê-lo no berçário, confundiu os bebês, só conhecendo-o de fato quando a enfermeira o entregou à sua mãe na saída do hospital.
No início, João não queria ser apenas mais um. Quando entrou na escola, ele queria fazer algo diferente. Quando sua tia lhe presenteou com uma velha tesoura de picotar, ele tentou ganhar dinheiro fazendo selos com desenhos de personagens que ele mesmo copiava dos gibis. Foi uma total perda de tempo, pois ninguém se interessou pelo produto.
Durante anos, João candidatava-se para ser representante de sala, um sonho nunca alcançado. Em geral, tudo no que ele se dedicava, ou não ia pra frente (como quando ele escreveu um gibi que ninguém quis ler ou comprar) ou dava errado (quando se candidatou ao grêmio estudantil ou quando ele participou de uma gincana: em ambos os casos, sua chapa ou equipe perderam).
Um dia, o aluno responsável pela comissão de formatura no primário saiu da escola. Foi quando ele percebeu que tinha oportunidade de brilhar: deixou um recado na lousa da sala de aula chamando a todos da turma para uma reunião para discutir como reorganizar a comissão. Não só ninguém apareceu como, quem passava por perto, cochichava e ria dele.
Esse foi o ponto final das ambições de João. Nunca mais participou de grêmios estudantis e, na gincana seguinte, só participou porque a diretora da escola insistiu para que todos participassem, mas essa participação limitou-se apenas à assinatura de seu nome ma ficha de inscrição.
O tempo passou. João não nutria mais nenhum interesse em tentar ir mais longe. Terminou o curso técnico de informática sem grandes realizações e graduou-se em engenharia elétrica sem ao menos gostar de eletricidade.
Isso tudo teve seu preço: Em pleno século XXI, João não conseguia arranjar emprego. Não passava em nenhum processo seletivo.
Começou a fazer bicos. Dava aulas quando podia. Sua auto-estima era cada vez menor. A única coisa que fazia ele se manter vivo era sua esposa Sara e a filha pequena, de nome Michele.
Porém, tudo mudou quando ele começou a fazer bico numa empreiteira...

CAPÍTULO 3

O emprego foi arranjado por um amigo da família. João fazia levantamento de casas que iam a leilão para verificar se era interessante comprá-la, reformá-la e revende-la.
Numa destas ocasiões, João foi conhecer a casa de um homem há muito desaparecido. O comprador havia deixado muito dinheiro em sua conta bancária, de onde o banco retirava as parcelas. Infelizmente, o contrato ainda era da época em que um financiamento imobiliário deixava resíduo, e o dinheiro já havia se esgotado, levando a financeira a retomar a casa para leilão.
A residência ficava muito afastada. Ela já valia pouco, pois já havia sido depenada por vândalos e ladrões. Este processo já havia sido detido, pois o local começara a crescer com a construção de casas de um bairro recém fundado, que contava com uma delegacia bem em frente à casa abandonada.
João teve alguma dificuldade para abrir a porta, pois o trinco estava enferrujado. Após entrar, começou a anotar os dados da casa. Ali cheirava mal. Provavelmente algum animal havia morrido ali dentro.
João começou a lamentar. Ele nunca conseguia ir muito longe na vida. Talvez se ele vivesse numa época menos atribulada, ninguém exigiria tanto dele. Provavelmente seria aceito em qualquer emprego e poderia se aposentar no mesmo lugar sem pular de emprego e emprego.
De repente, João pisou num local que fazia um barulho diferente. Era o interior de um pequeno closed. Não gostou. Ele já queria sair logo dali. Agora ele teria que verificar se havia algum problema ali.
Tateando no escuro, João encontrou uma abertura onde podia colocar dois dedos. Ao puxar, levantou o piso, revelando uma escadaria. Havia luz. Desceu pelas escadas.
Ao chegar embaixo, viu vários equipamentos desconhecidos. Olhando em volta, viu um corredor, de onde vinha a luz. Seguiu por ele. Ao final, havia uma taboa obstruindo a saída. Empurrou. Ao fazê-lo, teve a primeira das grandes surpresas daquele dia.

CAPÍTULO 4

João empurrou a taboa de madeira que obstruía a saída. Estava emperrada. Com a pressa que estava de terminar aquele trabalho, resolveu dar um forte chute no obstáculo.
Para sua surpresa, terra e pedras voaram em sua direção. Após se recuperar e ver que a saída estava desobstruída, caminhou em sua direção. Não conseguiu: caiu para trás como se tivesse caído num buraco.
Sem entender nada, João esgueirou-se pelo chão até conseguir colocar a cabeça para fora do corredor. Neste ponto, sentiu-se confuso e tonto – literalmente – pois sentiu o chão abaixo de sua cabeça enquanto sentia o peso do corpo nas mãos e pernas. Colocou as mãos para fora do corredor e puxou-se. Curiosamente, o corredor de onde saíra, era um buraco no chão.
Muito confuso, João seguiu por uma trilha até encontrar uma calçada e um banco para sentar.
Olhava em volta. Onde estava a casa que ele estava fazendo vistoria? Na verdade, a verdadeira pergunta era: onde estava a cidade em que ele vivia? Tudo ali lembrava uma cidade do interior onde as pessoas pareciam viver na década de 70.
João se vestia bem, uma vez que estava em horário de trabalho. Talvez seu estilo fosse um pouco diferente, mas não chegava a chamar a atenção. Andando procurando pistas, passou por uma banca de jornais. O que viu, ele não acreditou: a data do jornal era, realmente, do ano de 1970.
-Este jornal é velho? – perguntou confuso.
-De forma alguma, senhor. Chegou hoje cedo. Se está procurando jornais velhos, tenho esta edição de ontem que li e esqueci de devolver ao distribuidor. – apresentou simpático o dono da banca, com um pequeno rádio ao ouvido.
João agradeceu e começou a ler. De fato, eram notícias da época em questão. Observou que o jornaleiro prestava muita atenção ao rádio.
-O que você está ouvindo?
-O senhor se esqueceu? Hoje é a final da copa do mundo! Será Brasil e Itália!
-E seremos tri-campeões. Ganharemos por 4 a 1.
O homem riu.
-O senhor parece que já sabe o resultado. Imagine! A Itália está bem servida. Se ganharmos será 2 a 1, ou 3 a 2. Ganhar de 4 a 1 é muito otimismo.
João sorriu.
-Quer fazer uma aposta?
-Vai apostar que o Brasil vai ganhar por esse placar?
-E ainda aposto que o Brasil vai abrir o placar aos 18 do primeiro tempo, com Pelé cabeceando um cruzamento de Rivelino.
O jornaleiro deu uma gargalhada.
-Se o senhor acertar, eu lhe dou o dinheiro que ganhei hoje vendendo jornais e revistas.
-Está apostado. Mas... o jogo já não começou? Já são 2 e meia da tarde. – observou João olhando o relógio.
-Seu relógio está adiantado, amigo. Agora são 1:53. O jogo começa em sete minutos.
-Bom, vou me sentar naquele banco da praça. Daqui a pouco venho buscar o dinheiro.
João agora iria descobrir se realmente estava no passado, mais precisamente no dia 21 de junho, 37 minutos atrasado em relação a seu relógio. Não pensou no que poderia ter acontecido, mas nas possibilidades que se abriam à sua frente. Ele havia pensado que poderia ser mais feliz vivendo numa época mais tranqüila. Seu sonho poderia ter se realizado.
Estava ansioso. Se tudo aquilo fosse real, quando seu relógio marcasse 2:55 ouviria gritos de comemoração por todos os lados.
Confirmado. No horário esperado, ouviu os gritos, enquanto observava o jornaleiro deixar cair seu rádio.

CAPÍTULO 5

João tornou-se o feliz proprietário do casarão abandonado. Como ele conseguiu dinheiro?
Ao receber o suado dinheiro daquele jornaleiro, a primeira coisa que pensou foi como gastá-lo no presente.
Em qualquer outro país, João colocaria o dinheiro numa poupança e retiraria o dinheiro no presente. Qualquer outro. Infelizmente ele era brasileiro e, como brasileiro, lembrava o que um certo presidente da república, chamado Collor de Melo, fizera com as poupanças numa tentativa inútil na época para deter a inflação.
Assim, ele precisaria achar um modo mais eficaz. Dólares? O próprio dólar desvalorizou em quase meio século.
Porém, pode parecer brincadeira, mas foi justo numa loja de brinquedos que João achou a solução.
Em sua cidade, em um de seus bicos, João conheceu um rico colecionador. Comprou uma boneca.
Voltou por aonde veio e lá estava ele de novo no presente. Correu até a casa do colecionador e mostrou o brinquedo. Foi bem recompensado e pegou uma lista do que o colecionador precisava.
Foi até o centro de sua cidade, onde comprou várias jóias e, no dia seguinte, voltou ao casarão e, novamente, para o passado. Nada havia mudado. O dia continuava correndo na mesma diferença de tempo com o presente.
Vendeu as jóias, que valiam até um pouco mais, numa loja de penhores. Comprou o restante da lista do colecionador, ganhando ainda mais dinheiro no presente.
Vendeu o carro e, com o dinheiro obtido nas vendas, comprou o casarão no leilão.
A esposa achou absurdo, mas nunca vira o marido tão feliz. Ele parecia ter finalmente encontrado o que queria na vida.

CAPÍTULO 6

João da Silveira logo encontrou o emprego de seus sonhos: trabalhador medíocre de uma companhia dos anos 70. Não teve muitos problemas com documentação, uma vez que, além de ter um nome muito comum, tinha um falecido tio com o mesmo nome e os documentos guardados.
Mas o que fazer para receber o salário no século 21?
Na verdade, João procurava fazer todas as compras que podia na década de 70. Quando necessitava de dinheiro no presente, procurava vender objetos para colecionadores ou comprar jóias.
Mas João nunca se esqueceu da aposta que fez com o jornaleiro. Se ele sabia o futuro, ele podia ganhar muito dinheiro com isso.
Ele não fez mais apostas bobas, mas procurou por colecionadores a fim de achar um jornal com o resultado de algum concurso da Loto. Se ganhasse o prêmio, era dinheiro suficiente para investir numa poupança no exterior e ficar rico em sua própria época.
Finalmente um dia recebeu o telefonema que tanto esperava de um colecionador que, por coincidência, morava em Nossa Senhora das Nuvens Brancas no presente.
-Deve ser o senhor João da Silveira. Meu nome é Jorge Pereira. Seja bem vindo. – apresentou-se o colecionador.
-Vejo que a cidade não mudou muito nas últimas décadas... – observou João.
-Conhecia esta cidade?
-Ah, sim. Eu já vim aqui quando eu era criança. – disfarçou.
-Aqui está o jornal que o senhor procurava. Eu achei quando estava fazendo uma limpeza no sótão e ele estava forrando o fundo de um baú. É só a primeira página, mas tem o resultado da Loto que você estava procurando. – pegou uma folha dobrada em cima de uma mesa próxima à porta.
João olhou a data. O sorteio seria dali a alguns meses da data que estava vivendo no passado.
-É perfeito! Vou pagar você com este relógio da década de 70, conforme combinamos.
-Obrigado, mas repito: este relógio vale bem mais que este papel velho que estou entregando. Não é muito justo com o senhor.
-Jorge, este jornal vale uma fortuna para mim. Acredite. Obrigado por tudo. Tenho que ir agora.
-Não quer um cafezinho?
-Não. Obrigado.
-Sendo assim, tudo bem. – disse abrindo a porta de sua casa para João ir embora.
João já estava abrindo o carro quando o colecionador disse, da porta:
-Ah! Tem uma matéria interessante no jornal. É sobre homem que trabalhava nesta cidade na época, que tinha o mesmo nome que o senhor.
João estranhou. Onde trabalhava só existia ele com o nome dele. Olhou o jornal, e, o que viu, deixou-o aterrorizado:
“FUNCIONÁRIO DA MATA PRAGA S.A. MORRE EVITANDO TRAGÉDIA NA CIDADE.”

CAPÍTULO 7

Um incêndio provocado por João da Silveira ontem à noite, na central de distribuição de energia da fábrica Mata Pragas S.A. impediu que produtos químicos fossem misturados no reservatório principal, o que provocaria uma grande explosão e envenenamento do ar e do rio, o que levaria à morte da população de Nossa Senhora das Nuvens Brancas. Infelizmente, o ato heróico do funcionário custou a sua vida. Mais detalhes na página 3.
Era isso que estava escrito na primeira página do jornal de João. Não havia uma página 3, mas aquela manchete era suficiente para causar pânico. Como ele se envolvera? Por que sacrificar a sua vida para salvar tanta gente? João nunca foi herói.
Naquela noite ele mal dormiu. Chegou com grandes olheiras em seu trabalho.
-Viu um fantasma, João? - brincou um de seus colegas.
-Desculpe. Eu tive um pesadelo e não consegui dormir direito.
-E o que foi? Pode contar? - perguntou prestativo o amigo.
João pensou bem. Geralmente ele pedia ajuda quando algo era muito difícil (ou trabalhoso) para ele.
-Eu sonhei que eu tinha visto a minha morte num acidente que ia acontecer no futuro. Você já sonhou com uma coisa dessas?
-Eu nunca, mas, amigão, sonhos são só sonhos. Você deve estar incomodado pois está achando que isso é um presságio.
-É... pode ser...
João sentou-se. Olhou para o colega:
-Mauro, se você soubesse que ia acontecer em determinada data esse acidente, o que você faria?
Mauro ficou pensativo. Respondeu:
-Nesse dia eu não saía de casa. Se o acidente não vai acontecer dentro do meu lar, pra que arriscar? Fico em casa e deixo que a vida continue seu curso. Deixe que outro sofra o acidente no seu lugar. No dia seguinte, sei que ainda estarei vivo.
João levantou suas sobrancelhas. O colega estava certo. Saber sobre o futuro era uma benção, e não uma maldição. Respirou aliviado.
-Tem toda razão, Mauro. Tudo isso é besteira...
O chefe chegou na seção. Estava acompanhado de um rapaz. Curiosamente, João parecia conhecer, aquele desconhecido.
Finalmente seu chefe chegou:
-João, quero apresentar-lhe o Jairo. Ele estará responsável pela central de força da empresa.
João perguntou:
-Parece que conheço você. Qual seu nome?
-Jairo de Oliveira Rosa.
João quase caiu da cadeira.
-Tudo bem, João? - perguntou o chefe.
-É só... uma fraqueza momentânea. Acho que não comi bem no café da manhã. Está tudo bem.
Mas não estava tudo bem. Jairo, na verdade, era o futuro sogro de João da Silveira...

CAPÍTULO 8

A história de Jairo era emocionante: ele fazia horas extras desde que a central de energia da empresa tinha pegado fogo há 2 meses. Num determinado dia, indo mais cedo para o serviço, ele encontrara uma família em apuros na estrada. O carro havia pifado e nada que o pai da família fizesse fazia o carro funcionar. O senhor já ia buscar um mecânico ali por perto quando Jairo apareceu.
Prestativo, Jairo ajudou o pai a empurrar o carro até o mecânico. Lá, recebeu a notícia de que a peça chegaria no dia seguinte e a família, então, poderia seguir com a viagem de férias que havia programado.
Jairo ofereceu sua casa para que a família passasse a noite. No entanto, o bom ato do samaritano tinha suas motivações: no carro, havia uma bela moça que chamara sua atenção.
Naquela noite, sob as estrelas, num romântico bate-papo, Jairo apaixonou-se pela moça.
A família foi embora no dia seguinte, no entanto, Jairo não conseguiu ficar nem um dia longe da moça. Ele pediu as contas e foi procurá-la na cidade para onde a família tinha ido passar as férias. Encontrou-a. E foi assim que Jairo pediu a mão da moça em casamento.
A história infelizmente terminou de maneira trágica: quando a neta nasceu, Jairo e sua esposa morreram num acidente de carro na volta para casa.
Para alguns, este final também foi romântico, assim como toda a história mencionada. Porém, para João, aquela história era muito mais trágica do que parecia:
João nunca ouvia direito a história. Era cansativo pois Jairo sempre lembrava de seu romance cada vez que encontrava João, pois ele sempre comentava o quanto este se parecia com um ex-colega de serviço desta época. Agora tudo fazia sentido: João não só parecia como era o próprio colega de fábrica! E, para piorar, se a história não acontecesse conforme dizia o jornal do passado, Jairo nunca encontraria sua esposa (talvez nem mesmo estivesse vivo para encontrar) e a família de João nunca existiria.
Aquilo tudo tirou o sono do viajante temporal naquela noite. João olhou para a esposa dormindo. Ela era a única a lhe dar apoio todos estes anos. Levantou-se e foi tomar água.
Uma vez na cozinha, sua filha de 4 anos apareceu na porta carregando um ursinho.
-Tudo bem, querida? - perguntou o pai.
A menina tinha um olhar assustado.
-Teve um pesadelo? Quer um leitinho quente? - deduziu João.
A menina balançou a cabeça positivamente. O pai pegou uma garrafa de leite e colocou um pouco num copo de criança. Colocou alguns segundos no microondas e deu à menina. A pequena bebeu o leite e pareceu mais calma.
-Vamos para a caminha? - continuou João.
A menina concordou e o pai a pegou no colo. Colocou em sua cama.
-Sonhe com os anjos, querida. - disse apagando a luz.
-Papai, vem cá. - pediu a menina.
João aproximou-se da cama. Chegando perto, a menina o abraçou:
-Te amo, papai!
Naquele momento João finalmente tomou uma firme decisão: ele precisava enfrentar o seu destino!

CAPÍTULO 9

Um conceito da física, muito popularizado graças a certo seriado de TV sobre passageiros de um avião que caem numa ilha misteriosa, é que a história é imutável. Passado, presente e futuro no universo já estão determinados assim como a altura, a largura e a profundidade de um objeto.
Porém, João estava determinado a enfrentar o universo! Era uma decisão tão firme quanto a de homens do passado que, por isso, fizeram história.
O desastre só ocorreria dali a meses, assim, João entrou num curso de reciclagem profissional a fim de re-aprender engenharia elétrica de potência e de controle.
Enquanto isso, João pedira a seus superiores para trabalhar na central de distribuição de energia e controle da fábrica. Seu interesse recebeu elogios de seus superiores.
-Este não é aquele empregado do escritório? Quem diria que ele desejaria subir na vida!
João foi levado à central, onde encontrou Jairo.
-Como vai, amigão? – cumprimentou a seu futuro sogro.
-Bem, obrigado, senhor. – respondeu um pouco aturdido o jovem.
-João, este é Armando, chefe da central. – apresentou o chefe.
Armando era um homem de meia-idade, de poucas palavras, quase todas ásperas.
-O que ele faz aqui? – perguntou Armando.
-Este é seu novo colega, Armando. Ele veio dar apoio às operações da central.
Armando respirou fundo e resmungou. Voltou a seu trabalho. João olhou para seu chefe.
-Ele é um excelente profissional, João. Vai aprender muito com ele.

CAPÍTULO 10

Nos meses que se seguiram, João aplicou todo o conhecimento aprendido nos controles da fábrica. Para a década de 70, a fábrica contava com apetrechos de primeiro mundo, tudo obtido por Armando. Talvez fosse isso que levava os superiores do mal-humorado funcionário a relevarem sua conduta pouco amistosa.
Entretanto, João começou a trazer dispositivos do século 21, o que modernizou ainda mais os controles das máquinas.
Entretanto, algo que poderia ameaçar Armando pareceu deixá-lo mais amistoso do que o contrário.
-O que o senhor está instalando aqui na central de energia, senhor Silveira?
-Jairo, eu já lhe disse: pode chamar-me de João.
-Desculpe. Eu esqueço que o senhor gosta de uma conversa mais informal.
-Eu estou instalando um dispositivo de segurança. Ele garante que, caso algum relê de segurança das bombas de produtos químicos desative o bombeamento, ele só poderá ser reativado daqui com o meu cartão magnético de identificação.
-Mas o que isso tudo significa?
-O reservatório principal recebe muitos produtos químicos, mas se ele receber uma determinada seqüência de produtos poderia explodir e envenenar o ar e o rio matando todos na cidade.
-Sim. Por isso nós instalamos aqueles apetrechos nas bombas que o senhor chamou de “controladores”. Mas estamos na central elétrica da fábrica.
-Isso mesmo. Este painel é uma garantia extra. Uma vez que as bombas estejam desativadas, elas só podem ser religadas a esta central daqui. Isso permite que analisemos o erro mais uma vez antes de ligar tudo de novo.
-Mais uma vez?
-Sim. O controle das bombas, em si, ainda é feito pela central de controle onde trabalhamos.
-É muito inteligente da sua parte. O Armando nunca pensaria nisso.
João deu um sorriso.
-Jairo, ele não é tão ruim assim...
-Ele se acha o dono da verdade, João. Ele parece só dar ouvidos a você.
-Acho que Armando não tem nada na vida. Só a fábrica. Por isso ele deve ser tão meticuloso.
-Ele tem que arranjar uma mulher!
Os trabalhadores caminhavam de volta à fábrica principal. O expediente já havia terminado. Um forte laço de amizade havia se desenvolvido entre eles.


CAPÍTULO 11

Finalmente havia chegado a véspera da anunciada tragédia. João fez questão de testar todos os aparatos de segurança na indústria. Armando não deu atenção quando o seu funcionário pediu para fazer alguns testes. Como sempre, estava distante em seus pensamentos.
No dia anterior, João já havia feito sua “fezinha” na loteria e guardava consigo o bilhete que o deixaria milionário.
Como sempre, Jairo estava próximo a seu futuro genro e auxiliou em tudo. João já estava tenso com a presença daquele funcionário que se tornara um amigo tão próximo. Queria contar tudo que sabia e prevenir o rapaz de sua futura morte, mas João sabia que, qualquer tentativa poderia levar à inexistência de sua família.
Ao final daquele dia, foram passar o cartão juntos.
-João, parece que temos a fábrica mais segura do país.
-Assim espero, Jairo. Assim espero.
-Espere: eu tenho algo para o senhor...
Jairo tirou um pequeno convite, muito simples, de seu bolso.
-A minha irmã vai batizar meu sobrinho este domingo. Eu gostaria que o senhor fosse.
João pegou o convite. Ficou em silêncio olhando para o papel.
-Se o senhor estiver ocupado, tudo bem... – pareceu decepcionar-se o rapaz.
-Não. Eu vou. Pode deixar.
-Fico feliz! Até logo.
João não agüentou:
-Jairo, espere! Preciso lhe pedir uma coisa.
-Claro. Pode pedir.
-É um pedido meio estranho, mas eu peço que o leve a sério.
Jairo estranhou um pouco. Abanou a cabeça.
-Daqui a alguns anos, quando você vier a conhecer sua neta recém-nascida no hospital, por favor, prometa-me que, quando voltar para casa, preste muita atenção, mas muita atenção mesmo, na saída da cidade onde você estiver antes de entrar na auto-estrada.
Jairo estranhou mais ainda.
-Isso é uma brincadeira?
-Não. É sério. Jure que você vai fazer isso. Sei que você é um homem de palavra.
-Tudo bem. Eu juro. Espero me lembrar até lá.
-Eu estarei lá. Talvez eu mesmo não me lembre, mas sei que você vai se lembrar.


CAPÍTULO 12

Naquela noite, João não voltou para casa. Disse à esposa que precisaria fazer plantão onde trabalhava, mas estaria de volta no dia seguinte.
João hospedou-se num hotel num morro próximo à fábrica. Fez questão de pedir um quarto virado para lá, o que não foi difícil de conseguir: quem deseja quarto com vista para uma indústria de inseticidas?
Por que um quarto de vista para a Mata Pragas S.A.? Nos anos 70 não havia links de satélite. Se algo errado ocorresse na fábrica, o único recurso disponível era a telefonia, muito ruim, inclusive, naquela época. A saída que João encontrou para ser alertado de um acidente foi colocar um sinaleiro no alto da torre mais alta. Assim, daquele quarto de hotel, ele podia ver caso ocorresse alguma intercorrência na fábrica.
O quarto era muito simples: Uma cama de solteiro com um criado mudo de madeira com um vaso de flores e uma garrafa d’água. Havia ainda um rádio velho AM em cima da cômoda, ligado, tocando músicas da época. Porém, toda atenção de João ficava voltada para a janela.
O tempo passava devagar. O bilhete premiado jazia em cima do criado mudo, próximo a uma mala com uma muda de roupas. João sabia que havia aumentado muito a segurança e, talvez, aquela tragédia nem teria início. Não havia como as bombas dos tanques deixarem vazar os conteúdos letais e ninguém ficava na fábrica à noite que viesse a fazer um bombeamento acidental, mas se fosse preciso, ele passaria a noite acordado para ter certeza que tudo deu certo.
Porém, por volta da meia-noite, o fantasma que assombrava o dedicado funcionário surgiu: o farol acendeu!
João saiu correndo do quarto, deixando tudo para trás. Ele estava confuso.
-O que ocorreu? Não havia falhas!
Chegou à fábrica. Pelo silêncio, as bombas dos tanques estavam inativas. Ficou mais tranqüilo.
- Ufa! Deve ter sido um mau-funcionamento. O sistema de segurança deve ter bloqueado as bombas a tempo e acendeu o farol avisando...
Indo em direção à central de controle para verificar o problema, percebeu as luzes acesas. Entrou. Lá estava Armando mexendo no painel de comando.
-Armando? Como chegou aqui tão rápido? Viu o farol também?
Entretanto, a reação de seu superior foi inesperada: Armando apontou uma arma para João e disse:
- Fique onde está, viajante do tempo!

CAPÍTULO 13

-Viajante do tempo? Você bebeu, Armando? – disfarçou João.
Armando levantou-se e foi na direção de seu subalterno.
-Acha que não reparei nos apetrechos que você instalou na fábrica, João. Eu sei, perfeitamente, que foi tudo trazido do início do século 21. O que eu não sei é como converteu tanto dinheiro dado pela fábrica para você fazer estas compras. Talvez comprou dólares ou jóias. Foi isso??? – apontava nervoso.
-Armando, isso não faz sentido. Como eu viajei pelo tempo? Acha que tenho uma máquina do tempo?
-Não, mas deve ter usado meu portal do tempo no porão de meu casarão no seu tempo.
-O-o-o q-quê??? Você é o dono do casarão abandonado? – surpreendeu-se João.
-Sim. Precisei fazer uma escala na sua linha temporal há 15 anos antes de vir para cá. Nos últimos 15 anos procurava um jeito de alcançar meu objetivo, mas você acabou dando a idéia e os meios de que precisava.
-Armando, o que está acontecendo afinal? O que você quer?
-Matar Frederico S. T. Pereira.
-E quem é esse sujeito? O que ele fez?
-Eu explico. Mas, antes, coloque esta algema e prenda-se naquele cano na parede. Lembrança da época em que trabalhei na polícia.
Sem alternativa, João fez o que Armando pediu.
-Bom, onde eu estava? Ah, sim. A morte de Frederico.
-Armando, quem é você quem é esse sujeito?
-Vim do futuro, João. Mas um futuro bem desagradável. Um futuro onde nós, humanos, somos oprimidos por uma raça alienígena.
-Como assim? Fomos invadidos?
-Pior. Fugimos.
-O quê?
-No futuro, após sobrevivermos ao aquecimento global, descobriremos que seremos invadidos por uma raça hostil e alguns países proporão fugir para uma região da galáxia chamada Braço de Sagitário. O problema é que a nave onde estava minha família se perderá no espaço e seremos hostilizados por outras raças.
-Mas o que isso tem a ver com esse Frederico?
-Ele será diretamente responsável pela tecnologia de hibernação por congelamento das naves que irão fazer o transporte. Sem esta tecnologia, nunca sairemos da Terra.
-Espere aí. Se ninguém fugir, todos os humanos vão morrer.
-Aí é que está. Os humanos ganham e se tornam a raça mais poderosa da galáxia.
-Peraí! Como você sabe disso?
-A tecnologia que permite a localização de onde irão surgir e estabilização dos buracos de minhoca, que permitem a viagem temporal, eu consegui roubar de uma raça alienígena que me informou que os humanos venceram e se desenvolveram.
-E esse Frederico vive aqui em Nossa Senhora das Nuvens Brancas? Por que não o matou ainda?
-Acha que posso voltar para onde e quando quiser? Isso é muito complicado. Fiz uma escala no seu tempo pois sei que consigo voltar ao meu de lá. Um transmissor de energia na órbita do Sol emite a força necessária para manter estável o portal e uma minúscula parcela de energia é gerado pela central de força da indústria. Essa parcela estabiliza este lado do portal. Sem esta energia, o portal se fecharia em poucos minutos e...
-Tá, mas você não respondeu minha pergunta!
-Eu sei que hoje irá nascer o Frederico nesta cidade. Como não consegui descobrir qual mãe irá dar à luz a ele, nem se ele vai nascer de fato no hospital da cidade, vou matar a cidade toda.
-Isso é genocídio!
-Sim, mas é a única maneira que achei de matar Frederico. Agora, com licença, mas preciso fazer as bombas da indústria funcionarem.
Armando voltou-se para o painel enquanto João tentava pensar num jeito de salvar sua família e toda cidade.


CAPÍTULO 14

O trabalho de João havia sido bem feito: Armando não conseguia reativar as bombas da fábrica. Enquanto isso, João tentava pensar num modo de fugir.
Num certo ponto, Armando levantou-se furioso e encostou sua arma na cabeça de João.
-Diga! Como eu posso fazer as bombas funcionarem!
-Calma! Se você atirar, você vai ter dois problemas: um, você não vai conseguir fazer as bombas funcionarem se eu estiver morto, dois, o vigia vai ouvir o tiro e virá imediatamente.
-Não brinque comigo, moleque!
-Moleque? Se você é do futuro, eu devo ser muito mais velho que você.
João ouviu Armando engatilhar a arma.
-Tá bom! Tá bom! Dê-me a caixa de ferramentas.
Armando trouxe a caixa. Ela era bem pesada. De posse da caixa, João jogou todo seu conteúdo no chão. Da bagunça, ele tirou seu cartão de identificação, o mesmo relacionado ao painel na central de força onde ele e Jairo haviam instalado há alguns dias.
-Isto reativa as bombas. Mas você precisa ser rápido: se as bombas não forem reativas nos próximos 5 minutos, vai precisar trocar todos os dispositivos, o que pode levar meses.
Armando saiu correndo. A história do tempo foi um blefe: queria que Armando saísse correndo pois poderia pegar, na bagunça feita pela caixa de ferramentas um alicate, forte o suficiente para quebrar as algemas.
Com a correria, Armando deixara a jaqueta coma chave das algemas lá. Uma vez que se soltou das algemas, pôde tirar a pulseira.
Mas o problema principal não havia se resolvido: logo Armando conseguiria reativar as bombas no painel da central de força. O único jeito era destruir a central.
Por via das dúvidas, João deixara galões de gasolina na central de energia ciente que, na pior das hipóteses, sacrificaria sua vida, conforme anunciado no jornal.
João olhou com tristeza para a central de força. Estava prestes a morrer. Realmente o passado não podia ser alterado.
Porém, num último instante passou os olhos por um transformador e uma idéia surgiu:
-Os transformadores têm óleo lubrificante para resfriar os componentes!
Voltou-se para o painel de controle. Dali ele podia controlar a energia gerada pela central de força. Se ele aumentasse muito a corrente elétrica passando pelos transformadores, eles se superaqueceriam e explodiriam, cortando toda a força da central, destruindo os planos de Armando.
João regulou o painel e correu. Correu para o portal para o futuro. Segundo Armando, sem a central de força, o portal se fecharia.
Ele ouviu uma grande explosão, mas não olhou para trás. Correu mais rápido. Mergulhou no buraco no chão que o levaria de volta. Ralou-se todo no chão quando chegou ao outro lado, a tempo de ver o portal atrás de si desaparecer para sempre.

CAPÍTULO 15

Se João tivesse conseguido o restante do jornal onde estava a notícia de sua morte, ele saberia que a suspeita de que ele havia botado fogo na central de força se baseava no fogo causado pelos galões de gasolina deixados na central e, seu corpo, só seria reconhecido devido a um cartão de identificação que o corpo queimado trazia consigo.
Nos jornais seguintes, os bombeiros reconheceram que o que causou o fogo foi a explosão de um transformador acima dos galões de gasolina. Também apareceria uma pequena nota de rodapé falando que um empregado chamado Armando estava desaparecido desde a noite do incêndio.
Isto não seria noticiado, mas uma camareira, responsável por limpar o quarto em que João estava hospedado, entrou em trabalho de parto no horário de serviço, sendo conduzida ao hospital mais próximo.
Após sair da maternidade sozinha, pois era mãe solteira, encontrou o bilhete premiado de João em seu bolso, entre outros papéis que ela iria jogar fora.
Ela ficou rica. Largou o emprego e pôde se dedicar exclusivamente ao filho Frederico, que se formou como um ótimo administrador de empresas e conseguiu aumentar muito sua fortuna.
Porém, o dinheiro não compra tudo. A mãe de Frederico adoeceu e morreu mais cedo do que devia.
Tocado pelo acontecimento, Frederico, ao morrer, transformou sua fortuna na Fundação Infinito, dedicada ao estudo de maneiras de prolongar a vida. Foi através desta fundação que, dezenas de anos depois, foi criado um dispositivo de congelamento para colocar pessoas em animação suspensa por tempo indeterminado.
É curioso pensar nisso, mas foi a tentativa de Armando em impedir a criação do dispositivo que levou a uma cadeia de eventos que possibilitou sua invenção. Se Armando não voltasse no tempo, João não começaria a trabalhar no passado e nem jogaria na loteria e nem deixaria o bilhete para dar uma boa vida ao responsável pelo invento. Tudo indicava que o passado realmente não pode ser alterado.
Mas, de volta à vida de João, após aquela aventura, ele sabia que, agora, estava preparado profissionalmente para seguir uma carreia no século 21. Podia vender o casarão e, com o dinheiro, manter-se até conseguir o emprego que quisesse. Mas, ele tinha maiores preocupações: após sair do casarão, correu para casa para saber se sua família ainda existia.
Chegou ainda de madrugada. Foi direto para o quarto da filha. Lá estava ela dormindo.
Ficou aliviado. Alisou os cabelos da pequena e foi para seu quarto. Sua esposa dormia tranquilamente.
Feliz, colocou seu pijama, afinal, como não ia trabalhar no dia seguinte, ele só queria descansar. Ao deitar-se, sua esposa acordou:
-Querido? Já de volta?
-Saí do emprego, querida. Eu não quero mais ficar longe de você e nossa filha.
A esposa o abraçou preguiçosamente. Neste instante, percebeu que precisava fazer uma pergunta:
- Querida, posso fazer uma pergunta?
-Sim, querido. O que quer saber?
João respirou fundo e perguntou:
-Seu pai está vivo?
A resposta o surpreendeu.
FIM
 
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