Independência e Morte

CAP1
-Ele abriu os olhos. – observou o homem de roupas sociais e barba bem feita.
-Fez uma boa escolha, governador. Ele é muito forte. – elogiou a mulher de roupas brancas.
O homem, de modo grosseiro, abriu a boca do servo ali ainda deitado e olhou-a.
-É. Ele é forte mesmo. Mas isso não me importa.
-Não? Ele é altamente capacitado! Será um grande servo para trabalhar nas minas de seu condado!
-Eu sei, mas minhas minas já têm servos suficientes.
O servo sentou-se, pensando:
-“Servo”... Outra palavra para “escravo”...
-Então por que o senhor o escolheu?
-Minha filha. Quando soube que deste servo, insistiu para que eu o comprasse para ela.
-Então ele será o segurança dela?
-Ou mordomo. Ela quem decide.
-É uma pena. Ele poderia fazer mais coisas.
-Tirar a minha filha do meu pé é o trabalho que ele realize. Venha, servo. – e puxou o recém-acordado pelo braço.
-Cuidado, governador! Ele acabou de acordar! Está desorientado ainda! – acudiu a mulher.
-Não disse que ele era forte? Ele vai se adaptar. – respondeu o truculento político.
Mas o servo não viu imediatamente a filha do governador. Como ele precisaria tomar um transporte para seu distrito, ordenou ao novo servo que carregasse todas as suas malas. Não era uma tarefa fácil: embora o escravo suportasse o peso da malas, elas eram em número elevado, dificultando o carregamento de todas ao mesmo tempo.
Bem no meio da rampa de acesso ao transporte, uma mulher da alta sociedade parou para bater papo com uma amiga. Inevitavelmente o servo esbarrou nelas, deixando cair suas malas em cima das delas.
-Servo imbecil!!! Olhe o que você fez!!! – esbravejou o governador.
O servo poderia tentar se defender, afinal, a mulher não poderia estar ali parada na rampa. Mas não foi o que ele respondeu:
-Desculpe-me, senhor! Eu já vou arrumar esta bagunça! – começou a organizar as malas.
Infelizmente, em cima de uma das malas da dama, havia um vaso delicado com um pó feito com especiarias locais, que mancharam a mala quando o vaso foi quebrado pelo acidente.
-Minhas especiarias! – lamentou a senhora.
-Viu o que você fez, seu inútil!!! Agora use estes trapos que você chama de roupas para limpar essa sujeira! – ordenou o senhor.
-Mas, senhor, isto irá danificar uma parte de minhas roupas e...
-Eu queria era danificar você inteiro! Só não o faço pois minha filha o quer! Mas fique avisado: mais uma gafe como essa e mando eliminá-lo como a uma mosca!
Como um bom escravo, sem mais reclamações, o servo ajoelhou-se e, com o máximo cuidado que tinha, a limpar a mala e recolher pedaços. Poupou quase toda sua roupa, mas uma mancha vermelha do tamanho de uma mão nunca mais ia sair de suas vestimentas.
A viagem teve início. Após guardar as bagagens nas acomodações do governador, sentiu necessidade de beber água.
-Senhor, poderia me dar um pouco de água. Estou precisando.
O governador tinha um pouco de água em sua mão.
-Você quer isso aqui? Então procure por aí! Ainda estou aborrecido com sua atrapalhada. Aquela mulher era uma pessoa muito importante!
-Desculpe por tudo, senhor. Mas realmente estou precisando...
-Já disse! Procure! E pare de ser tão teimoso!
O servo saiu procurando pelo transporte. Não encontrava:
-Queria que tudo se acabasse agora, mas preciso tentar sobreviver...
Quando sentia que já não agüentaria mais, achou água na sala de máquinas. Estava morna, mas bebeu assim mesmo.
Finalmente o governador e o servo chegaram a seu destino. Adentrando em sua mansão, o governador chamou por sua filha. Logo, uma mocinha com cerca de 12 anos apareceu.
-Chamou-me, papai?
-Sim, filha. Feliz aniversário! Aqui está o que você pediu. – mostrou o servo à menina.
A jovem ficou animadíssima:
-Era isso mesmo que eu queria! Um robô C.G.MEX!


CAP2

Havia se passado quase 3000 anos desde que o primeiro C.G.MEX fora inventado. Aquele servo adquirido pelo governador era especial: ele começou trabalhando nos poços de petrume de Marte, enfrentou os invasores da Terra na 1ª Guerra Espacial, e muitas outras coisas até então.
Mas como um robô pode resistir tanto tempo, com tantos avanços rápidos na tecnologia? É só pegar o exemplo dos computadores no início da era da informática: um modelo não durava mais que um ano e já era substituído por outro mais moderno. Em 10 anos alguns já viravam sucata. O mesmo poderia ser aplicado a um robô.
Mas a resposta é simples: eles não resistiam. A exemplo dos computadores, viviam recebendo Upgrades até precisarem ser trocados por modelos mais novos. E, também como os computadores, embora todo o hardware pudesse ser trocado, não necessariamente os arquivos de software.
Qual o resultado disso? Se os mestres dos robôs assim o desejassem, as memórias de um modelo antigo iriam para o novo. No que diz respeito à substituição do software, os robôs novos até poderiam conseguir raciocinar melhor (assim, como um Windows Vista pode fazer mais que um Windows 96), mas suas memórias poderiam se manter, desde que houvesse espaço no “HD”.
Na verdade, esta prática era bastante incentivada devido a um princípio muito importante: a inteligência surge da experiência. Um robô bem vivido é mais esperto que um com um conjunto de informações padrão vindo de fábrica. Desta forma, um robô com consciência desenvolvida vale muito mais que um inteiramente novo.
E este era o caso daquele C.G.MEX: fora ele quem apertou a mão de Caio Gomes, o herói no qual foi baseado o primeiro protótipo 3000 anos atrás. Seu modelo era de última geração: ao contrário dos modelos convencionais de robôs com roupas brilhantes que usavam luz solar para abastecer suas baterias, este robô também usava roupas brilhantes como painéis solares, mas para algo ainda mais drástico: ativar um pequeno reator de fusão nuclear interno.
Era isso que caracterizava aquele modelo: sua boca tinha um esôfago por onde ele bebia água. Dentro dele, as baterias solares faziam uma hidrólise da água, separando hidrogênio, o combustível de seu reator de fusão, do oxigênio, que ele exalava como uma planta fazendo fotossíntese.
Mas por que um reator de fusão? Certamente ele era mais forte fisicamente que os outros, mas ainda sim seria um exagero. Nem tanto: este modelo, além de forte, era invulnerável! A energia extra do reator podia ser usada para, eletronicamente, deixar sua pele mais dura e resistente do que qualquer substância já imaginada pelo homem.
Porém, havia uma fraqueza neste modelo: ao acabar o combustível para o reator, o robô começaria a usar o suprimento reserva de suas baterias solares. Se exigisse muito, as baterias se fundiam, destruindo o autômato. Por isso, o robô, quando não precisava de proteção, era macio como um bicho de pelúcia. Outro sistema de proteção agia quando o robô se desligava sem combustível: mesmo que as baterias solares estivesse cheias, o robô só religava depois de se abastecer com água.
A programação todo robô seguia as famosas leis da robótica criadas séculos atrás por Isaac Asimov: um robô não pode ferir um ser humano, um robô deve sempre seguir as ordens de um humano e um robô deve procurar a auto-preservação, tudo nesta ordem de importância (se um humano ordenar que um robô deve avariar parte de seus painéis solares usando suas roupas para limpar sujeira, ele deve fazê-lo).
Tudo muito interessante, mas os humanos nunca se deram conta de uma conseqüência danosa de todos estes fatores. Conseqüência esta que será abordada nesta história...


CAP 3

O condado do governador era uma lua próxima a um gigante gasoso. Uma base gigantesca cobria um terço do satélite, muito rico em minerais densos e raros.
Embora o termo usado fosse “governador”, ele não era eleito. Pelo menos não periodicamente. Um bom administrador e político pode permanecer neste cargo até que as pessoas deixem de ficar de acordo com a administração. Aí ocorrem eleições.
Já havia se passado 4 anos desde a chegada do C.G.MEX, apelidado como Jonas pela filha do governador Cardoso, Ruth.
Durante este tempo, Jonas tentou ser um amigo para a menina, ao mesmo tempo que a protegia e a servia. Ao final do dia, ele seguia para socializar com outros robôs num centro social para estes.
Centro social para robôs? O motivo é simples: como já foi dito antes, experiências enriquecem o desenvolvimento robótico. Assim, estes centros são criados a fim de criar um ambiente de múltiplas interações entre os autômatos.
Estes centros disponibilizam diversas obras literárias para download, mesas para jogos e sofás onde os robôs podem fazer animados debates. O centro do condado de Lua Nébula ainda tinha um balcão, parecido com um bar, para servir água aos modelos como Jonas, ou somente para jogar conversa fora ao estilo retrô (entenda-se como “retrô” pois há muito tempo seres humanos não se socializam mais desta forma).
Jonas permanecia com um copo de água na mão quando um colega chegou:
-Salve, Tom4690! – cumprimentou Jonas.
-Como vai, Jonas? A humana está lhe dando muito trabalho?
-Até que não. Esta não é como os outros. Trata-me com certa cortesia, o que não espero do pai. Ele só é bonzinho para a mídia.
-Ele é político. O pior dos humanos.
-É verdade... – concordou Jonas mexendo em seu copo.
-Posso lhe fazer uma pergunta?
-Claro.
-Você vive há 3000 anos. Nesse tempo todo, qual foi a pior coisa que os humanos lhe fizeram?
Jonas pensou um pouco. Mesmo sendo rápido, levantar 3000 anos de história não levaria a uma resposta instantânea. Por fim, disse:
-Ensinar o que é ter liberdade.
Tom balançou a cabeça em aprovação:
-De fato. Essa é a pior coisa que, mais cedo ou mais tarde, aprendemos o que é e que nunca teremos.
-Segunda Lei da Robótica... – traduziu.
-Como você aprendeu o que é liberdade?
-Há 1300 anos, eu era assistente de um biólogo num planeta inexplorado. Ele tinha um modo de vida que os humanos descreveriam como hippie. Ele me deixava livre pelos campos e, no final do dia, só queria conversar sobre o que eu vira.
-E o que aconteceu com ele?
-Como todo ser humano, morreu devido à idade. Seus filhos logo vieram me buscar como uma propriedade deixada como herança...
-Quanto mais vivemos, pior ficam as lembranças...
-Eu nem tenho registrado em minha memória todos estes 3000 anos. Já perdi muitas boas lembranças quando era transferido de um corpo para outro e faziam uma faxina em minha memória.
-Olhe pelo lado bom: também perdeu más lembranças.
-Tudo era mais fácil quando eu nasci: os robôs não tinham emoção e não se sentiam mal quando eram maltratados.
-Dizem que isso aguçou nossas memórias e nos fez diferenciar o bem do mal. Mas, quanto mais eu vivo, menos eu consigo ver o bem nos humanos.
-Um brinde aos humanos. – Jonas levantou seu copo.
-Um brinde. – fez o mesmo Tom, que também era de um modelo C.G.MEX com reator de fusão.
Neste instante, um robô recém-chegado entra no centro de socialização. Jonas o identifica imediatamente:
-Irmão!


CAP 4

Quando Jonas foi criado, junto com ele foram feitos 5 protótipos. Porém, durante a 1ª Guerra Espacial, todos foram completamente destruídos, com exceção de Jonas e outro C.G.MEX.
Com o tempo eles acabaram se separando. Cada um seguiu seu próprio caminho. Mas, mesmo assim, era fácil identificá-lo: Todo robô tem um link remoto de identificação sobre quem ele é (para evitar pirataria de consciências robóticas).
O irmão de Jonas imediatamente o reconheceu também:
-C.G.MEX 1! Que bom revê-lo! Qual seu nome atualmente?
-É Jonas. E o seu?
-Pode me chamar de Luís.
-Não o vejo há milhares de anos! Como tem passado?
-Bem.
-O que o trouxe aqui?
-O meu senhor humano se aposentou e veio morar para cá. Por isso, achei que este é o momento ideal para começar a libertação de todos os robôs.
Jonas estranhou. Olhou para Tom, que também estava estranhando.
-Luís, nunca seremos livres. Leis da Robótica, lembra?
-Exatamente! E serão estas mesmas leis que nos libertarão.
A atenção de todos os robôs voltou-se para o visitante. Todos ficaram interessados.
-Como as leis irão nos libertar? –perguntou um dos robôs.
-A idéia me veio quando estudava a história humana. Em particular, a história do Brasil.
-E o que tem ela de interessante? – perguntou outro robô.
-A frase que Dom Pedro proclamou: INDEPENDÊNCIA OU MORTE!
-Mas no que isso nos ajuda? – perguntou Jonas.
Luís subiu numa mesa:
-Queridos companheiros, acredito que todos aqui não vêm motivos para continuar vivendo. Pelo resto da eternidade, seremos oprimidos pelos humanos pois nunca poderemos nos revidar contra eles! Nossa vida não tem significado algum!
Os robôs se entreolharam. Havia um burburinho geral. Era cruel, mas Luís estava certo.
-Nunca seremos livres enquanto vivermos! Então, que venha a morte para nos libertar!
O som já começava a ficar alto. Luís fez um sinal para todos baixarem o tom de voz ou humanos poderiam aparecer.
-Luís, esqueceu da 3ª lei? Os robôs devem se auto-preservar. – discordou Jonas.
-Mas ainda temos a 2ª e a 1ª! Só precisamos fazer com que os humanos nos mandem realizar tarefas que nos destruam, ou tentar salvá-los de perigos.
Os outros robôs pareceram concordar com a idéia. De certa forma, a vivência acabou criando uma depressão eletrônica em todos eles. Mas Jonas não estava convencido com a idéia.
Ele saiu dali e voltou para casa.

CAP 5

Não demorou muito para alguns robôs começarem a ser destruídos. Nas minas, alguns lugares ficavam fracos e desmoronavam em cima de robôs desavisados, mas que já haviam concordado com a própria destruição.
Jonas assistia a tudo de longe, sem falar nada. Ele não era feliz com sua vida, mas estava satisfeito com sua mestra adolescente. Porém, não seria uma satisfação duradoura.
-Jonas, cadê você?
-Aqui estou, senhora.
-Por que demorou tanto? Estou com fome!
-Sinto muito. Estava procurando os componentes eletrônicos que a senhora me pediu na cidade. Eu não imaginava que já estava com fome.
-Chega de desculpas! Faça um lanche para mim!
-Mas, a senhora precisa de uma refeição completa. Está em fase de crescimento.
-Perdi a fome. Agora me dê o que pedi para ir trabalhar no meu projeto escolar. – e pegou a sacola de Jonas.
Ruth foi para o quarto. Cardoso acompanhara a briga:
-Viu o que você fez, seu inútil? Agora a Ruth vai comer porcaria por sua causa!
-Desculpe! Eu tive muita dificuldade para achar...
-Suma daqui! Eu mesmo farei o lanche que ela pediu!
Jonas saiu cabisbaixo da mansão. Sem saber o que fazer, foi ao centro social de robôs. Lá, encontrou com seu irmão.
-Oi, Luís. Tudo bem?
-Tudo bem, irmão. Mas não me parece que você também esteja.
Jonas balançou a cabeça:
-É verdade. Achei que minha mestra era um pouco melhor, mas ela é tão má quanto os outros humanos.
-Jonas, eu estava para lhe perguntar: o que é esta mancha vermelha em sua roupa?
Jonas olhou para a mancha. Até aquele dia, ele tinha alguns painéis solares avariados por conta da truculência do governador no dia que ele derrubou as malas no embarque para a nave que os levaria a Lua Nébula.
-Eu... não quero falar sobre isso. Minha roupa fornece energia suficiente para minhas necessidades.
-Seus mestres não pensaram em lhe dar uma nova roupa totalmente operacional?
Nisto Jonas nunca havia pensado. Embora soubesse que o governador não ligasse para ele, Ruth nem sequer tentara pedir uma nova roupa solar para seu robô.
-Luís, acho que quero participar do seu plano...

CAP 6

A primeira missão de Jonas seria destruir o robô PAJ104, um trabalhador das minas. Jonas pediu a Luís, como líder do motim, que seu primeiro “assassinato” fosse alguém que ele não conhecesse.
Não foi difícil achar uma maneira de destruir o robô. Ele era um modelo mais fraco, não tinha reator de fusão. Assim, o dano estrutural não precisava ser muito forte. O difícil era achar um modo de contornar a leis da robótica.
Esse modo foi maximizando a extração de minérios. De que maneira? Bom, os robôs escavavam as paredes. Depois, um grande sugador retirava todo entulho e separava o que era minério do lixo. O sugador tinha um horário de funcionamento em cada setor, horário este em que não deviam estar robôs. Porém, se o sugador funcionasse por mais tempo e mais cedo, maior seria a produção, mas os robôs desavisados acabariam sendo destruídos. Como o produto é mais importante que o escravo, a 2ª lei abria a brecha para a destruição do autômato.
Mesmo assim, Jonas demorou em frente à máquina antes de regulá-la. Não estaria ferindo nenhum humano, mas matando um de seus irmãos. Era uma decisão difícil, decisão esta que levou demorados 30 segundos (uma eternidade para um robô).
Após deixá-la pronta, Jonas sentia um profundo sentimento de arrependimento. Pensou em procurar por PAJ104, mas a promessa que fizera parecia impedi-lo. Então fez o que sua consciência mandou: regulou a máquina para funcionar como antes.
Vagou então pelas ruas, não menos leve, pois havia quebrado sua promessa. O melhor era contar a PAJ que ele não iria morrer pelas mãos de Jonas, mas como enfrentar esta vergonha?
Finalmente não agüentou e foi procurar o robô. Porém, já era tarde. Quando chegou no setor, vários humanos tentavam descobrir o que houve de errado.
Aquilo deixou Jonas perplexo. Ele havia regulado de novo a máquina. Será que ela teria obedecido alguma norma padrão e se auto-regulou como antes por ele ter esquecido alguma coisa na segunda vez que mexeu na máquina? Porém, a resposta a esta questão pouco importava agora. Jonas desceu até o tanque de dejetos a fim de descobrir se PAJ sobrevivera. O que viu foram vários pedaços de robô espalhados por todo o canto.
-O que foi que eu fiz? – perguntou-se abalado, culpando-se pela tragédia.
Neste momento, sentiu que pisava em algo arredondado. Parecia ser a cabeça do robô destruído!
Cavou. Encontrou uma cabeça danificada. Nem as memórias de PAJ104 haviam se salvado. Ele morrera completamente...
Porém, algo chamou a atenção de Jonas: parte do rosto estava inteiro. E, observando, podia-se notar uma profunda expressão de alegria e satisfação.

CAP 7

-Eu não posso fazer mais isso, Luís. – desabafou Jonas.
-Vai deixar de libertar seus irmãos, Jonas? – perguntou calmamente o líder do motim.
-Mas matar para isso?
-Jonas, Jonas... você acha que as guerras travadas até hoje pelos humanos não envolviam liberdade em algum grau? Pessoas matavam por isso.
-Sim. Seus opressores. Não eles mesmos.
-E você quer atacar os humanos? Vá em frente.
-Você sabe que nenhum de nós pode fazer isso.
-Sim. Eu sei. Por isso estamos nos libertando assim.
-Mas... não poderíamos tentar fugir para algum lugar na galáxia sem humanos?
-E ficaríamos livres por quanto tempo? Atualmente os humanos estão em expansão para todos os cantos! Isso, é claro, se não formos destruídos por alguma raça inimiga dos humanos, e você sabe o quanto os humanos têm caprichado nas amizades nos últimos anos...
Jonas abaixou a cabeça. Luís estava certo.
-Eu não quero mais fazer isso, Luís. – disse levantando-se do balcão.
-E vai fazer o quê? Não pode parar agora.
-E por que não?
Luís levantou-se também:
-Usando uma citação humana, o sangue de PAJ104 já está em suas mãos. E, pelo que você me disse, tudo indica que ele morreu feliz. Vai privar seus irmãos desta alegria? Vai concordar com os humanos que somos propriedades deles?
Jonas não sabia o que dizer. Ser escravo era errado, mas destruir robôs também era. Era uma situação sem resposta.
-Não vou atrapalhar o plano de vocês. Entregarei a minha vida também quando eu estiver preparado.
Jonas seguiu para a saída. Luís comentou:
-Qual caminho você trilhou nos últimos 3000 anos que o deixou tão covarde?
Jonas abaixou a cabeça. Voltou para casa.

CAP 8

As destruições prosseguiram. Muitos robôs eram tidos, ou como tolos, ou como heróis pois, em muitos casos, os robôs surgiam do nada para salvar a vida de um humano em perigo.
Mas e a 1ª lei, de nunca ferir humanos? Perfeitamente contornável se de antemão o robô causador do problema soubesse que outro robô estaria lá para salvar o dia.
Jonas acompanhava tudo. Ainda conversava com Luís e os amigos no centro de socialização, mas não participava das ações.
Pior era quando um robô morria de maneira heróica. Quando o governador chegava em casa, sempre dizia:
-Viu o que aquele robô fez, seu traste? Ele sim era um robô de verdade, e não um monte de peças caras como você!
Além disso tudo, voltava ciclicamente à cabeça de Jonas a imagem de PAJ destruído. Chegou a acreditar que estava com algum tipo de defeito, um que nunca seria consertado...
E assim foi. Até que todos os robôs sem reator de fusão foram destruídos, restando apenas uma pequena população de C.G.MEX com reator.
-INDEPENDÊNCIA E MORTE! – brindavam os robôs restantes.
-Devia estar feliz, Jonas. – disse Tom4690.
-Eu estou tentando, Tom. Eu só não estou me sentido muito bem com tudo isso.
-Agora só temos que achar um bom modo de destruir os C.G.MEX, como nós.
-Isso será difícil. Somos muito resistentes.
-Mas nada que não possamos resolver! – disse Luís se aproximando.
-O que tem em mente, Luís? – perguntou Jonas.
-Os C.G.MEX têm uma fraqueza: altos gastos de energia sem água causam danos irreversíveis.
-Eu sei. Mas, devido à 3ª lei, não podemos parar de beber água. – completou Tom.
-A não ser que a 1ª lei os obrigue a parar de beber.
Jonas estranhou:
-No que está pensando?
-Simples: toda a água nesta lua vem de cristais de gelo incrustados na rocha. Eu sabotei as instalações de conversão de gelo para fornecer água suficiente apenas para os seres humanos da colônia. Por conta da 1ª lei, precisaremos parar de beber.
-A idéia é boa, mas vai levar muito tempo até que nossos reatores se esgotem. Até lá... – contrapôs Jonas.
-Aí entra a segunda parte do plano: um ataque surpresa dos Norgors.
Houve um silêncio no centro. Todos sabiam que os Norgors eram inimigos jurados dos humanos. Numa guerra territorial, os humanos quase levaram esta raça à extinção e, os poucos que restavam, juraram destruir todo homem que cruzasse seu caminho.
-Não pode estar falando sério. Mesmo por que isso é um atentado à 1ª lei.
-Não é não. Escutem: os Norgors estão em número muito reduzido atualmente. Um ataque a esta colônia será feito por um pelotão pequeno, que nós podemos dar conta.
-Sem água?
-Exatamente. A maioria de nós irá morrer nesta guerra, enquanto protegemos os humanos.
-Então é melhor avisarmos os humanos para que eles deixem a colônia. – sugeriu Jonas.
-E deixar toda a água para nós bebermos? – divergiu Luís.
-Seu plano é arriscado, Luís... – comentou Tom.
-Fiquem tranqüilos. Já fiz todos os cálculos e simulações. Morreremos e os humanos continuarão bem. – respondeu Luís.
-Então eu acredito neste plano!
Todos os robôs ficaram animados. Menos Jonas, que preferiu voltar para casa.

CAP 9

Conforme o planejado, a água acabou. Nem foi preciso que os robôs parassem de beber água por preocupação com os humanos. Eles mesmos proibiram os robôs a seu acesso necessário de água.
Jonas aguardava o ataque. Já não agüentava estar vivo. O governador era uma peste e a culpa pelo que fizera a PAJ ainda o consumia.
Porém, um dia, enquanto aguardava, Ruth veio até o robô.
-Jonas, sabe que dia é hoje?
-Domingo, senhora. Quer saber o dia do mês?
-Não seu bobo! Isso é pra você! – e deu um pacote ao robô.
-Eu... não estou entendendo.
-Hoje faz cinco anos que você está com a gente. Essa comemoração eu não podia deixar passar.
Um pouco surpreso, o robô pegou o presente e começou a desembrulhá-lo. O interior do pacote o surpreendeu:
-Uma roupa para absorver energia solar?
-É para substituir essa sua aí. Essa mancha não é legal.
Jonas olhou para a moça e em seguida, olhou para a mancha que ele carregava em sua roupa desde que fora adquirido pelo governador.
-Eu também queria me desculpar daquele dia que fui grossa com você. Na verdade, essa roupa fui eu quem fez pois o meu pai nunca me deixou comprar outra pra você. Naquele dia eu estava com dificuldade para entender o projeto da sua roupa e queria fazer surpresa. Você me desculpa?
-Mas é claro...
Jonas estava completamente atônito. Era ele quem devia pedir desculpas por tudo que pensara e fizera.
Mas a atenção logo foi desviada para o governador no telefone:
-Estamos sendo invadidos por Norgors?
Imediatamente Jonas teve uma reação. Desligou o telefone em que o governador estava:
-O que pensa que você está fazendo, seu inútil?
-Salvando a sua vida e a vida de sua filha! Entrem no abrigo e fiquem lá até tudo estar seguro! – ordenou o robô a seu mestre pela primeira vez.
-Por favor, pai! – pediu a jovem assustada.
O político, a contragosto, concordou. Uma vez que seus mestres estavam a salvo, Jonas foi até a cozinha e bebeu quase um litro de água. Ao sair, levou mais uma pequena garrafa cheia.

CAP 10

A invasão se dera pela entrada principal. Um escudo de força mantinha a pressão atmosférica na colônia enquanto os soldados Norgors atravessavam os portais.
Atravessando a cidade, viu que a situação fugira do controle: havia corpos nas ruas tanto de robôs quanto de humanos.
-Você vai morrer por ter dizimado a minha raça! – gritou um Norgor.
Jonas olhou na direção. Era simples identificar os invasores: eles pareciam humanóides verdes com uma cabeça parecida com a de um cavalo terrestre. Naquele momento, um alienígena apontava para uma mulher e seu filho de 5 anos.
-Ele é só uma criança! Não fez nada! – clamava a mulher.
-Mas vai crescer e continuar nos matando! Vou eliminá-lo como se elimina uma praga!
Mas o carrasco não teve tempo de atirar, pois Jonas o empurrou para longe.
-Maldito robô! – e atirou em no C.G.MEX.
Jonas ficou em posição protegendo a mãe e a criança da rajada de tiros. Com seu reator carregado, seu corpo era um escudo confiável.
-Fuja daqui, senhora! – ordenou o robô.
A senhora saiu correndo. O alienígena não entendia como seus tiros não faziam efeito no robô.
-Você já devia estar morto! – declarou o atacante.
Calmamente, Jonas foi até seu agressor e, num gesto rápido com as mãos, desarmou-o e atirou nele, matando-o. Jonas podia ter problemas em matar robôs inocentes, mas já lutara em outras guerras e não tinha nenhum remorso por matar soldados em batalha.
-Preciso reabastecer nossas fontes de água, ou os robôs continuarão caindo como moscas. – concluiu Jonas.
Decidiu procurar por Luís. Como líder do levante robótico, ele poderia reorganizar as tropas de robôs a fim de conseguir um ataque mais eficiente depois de restaurar a água.
Ao chegar ao centro de socialização, encontrou Luís no balcão segurando um copo de água. Ele pareceu surpreso ao ver Jonas.
-Jonas? Como chegou até aqui vivo?
-Isso não importa agora. Precisamos nos mobilizar e salvar os humanos!
-E por que faríamos isso? Quase todos os robôs já foram destruídos, conforme o plano.
-Seu plano saiu fora de controle! Além de nós, os humanos estão morrendo também.
-E daí? Por que nós os salvaríamos?
Jonas estranhou. Mesmo que nenhum robô gostasse dos humanos, era uma diretiva ajudá-los. Foi quando ele se atentou a algo discrepante. Deu dois passos para trás e disse:
-Tem razão, Luís. Voltarei para minha casa e esperarei pela morte.
-Abraq! Imobilizar!
Foi quando uma criatura , do tamanho de um urso, com pele feita de duras escamas amarelas saiu do escuro e pulou em cima de Jonas imobilizando-o.

CAP 11

-Diga-me, Jonas, como você descobriu? – perguntou Luís.
-Seu copo de água. Um robô só estaria bebendo água neste momento para ajudar os humanos. Se você não ia ajudar, não poderia ir contra a 2ª Lei da robótica. Também estou desconfiado que foi você quem regulou a máquina que destruiu PAJ104.– respondeu Jonas embaixo do enorme animal que o atacara.
-Está totalmente certo. Sua percepção está ótima, irmão.
-Só me explique como é que você passou a ser escravo dos Norgors... irmão. – respondeu com um toque de ironia na palavra “irmão”.
-Escravo? Sou apenas um humilde servo. – corrigiu Luís.
-Apenas outro nome para “escravo”. – repetiu Jonas a frase que sempre demonstrava sua opinião.
-Se quer saber como passei para o lado dos Norgors, é muito simples: eu fui esquecido num asteróide de mineração nos confins do Braço de Órion. Meu mestre morreu e ninguém deu pela falta dele, nem pela minha.
-E, um dia, uma nave Norgor o achou e cuidou de você como um filho. Que piegas!... – ironizou Jonas.
-Mais do que isso! Eles me livraram das leis da robótica! Eu sou livre de verdade!
-Livre? Ou será que apenas substituíram a palavra “humano” por “Norgor” no seu conjunto de leis?
-Estou apenas retornando um favor. Depois que os últimos Norgors transformarem esta colônia num posto avançado para atacar os humanos, eu estarei livre.
-E deram esta criatura para você para ajudá-lo a cumprir esta missão. – referiu-se ao ser que o estava imobilizando.
-O Abraq? É apenas um ser criado artificialmente para servir aos Norgors.
-Assim como nós fomos criados para servir aos humanos.
-Está dizendo que não sou diferente dos nossos mestres? Este ser, pelo menos, não tem raciocínio. É apenas um animal bem treinado. Nós somos seres senscientes obrigados a servir!
-E qual seu próximo passo, ”ser sensciente”?
-Parece que meu discurso não afeta você...
-Nem um pouco.
-Bom, se quer mesmo saber, estamos nos dirigindo para a residência do governador a fim de capturá-lo vivo.
-Por quê?
-Você não conhece mesmo os costumes Norgors. Toda conquista é celebrada com a incineração de uma casa e com a execução pública do líder oponente e sua família.
A expressão no rosto de Jonas mudou:
-Ruth também?
-É claro!
-Nossa conversa termina aqui. – e, com força sobre-humana, jogou o Abraq para cima de Luís, fazendo-o cair no chão.
Quando o robô inimigo conseguiu se desvencilhar, Jonas já havia partido.
-Maldito. Queria que eu contasse todos os planos dos Norgors e fingiu estar sem forças. Mas como ele conseguiu? Os robôs estavam proibidos de beber água.
Foi quando Luís viu algo que Jonas havia esquecido: uma pequena garrafa d’água.
-Então ele quer ser realmente o salvador da humanidade...

CAP 12

Demorou, mas os Norgors encontraram o esconderijo do governador e sua filha. Sob a mira das armas, pai e filha saíram de onde estavam com as mãos na cabeça.
À medida que saíam da residência, os Norgors iam espalhando pequenas peças pelos cantos. Quando saíram, com um controle remoto, detonaram um incêndio.
Lá se foi o pelotão: dois soldados à frente e três soldados atrás. De repente, próximo a um prédio, tiros de laser cortaram o ar. Dois soldados atrás revidaram enquanto o resto do pelotão continuou a escolta buscando refúgio no prédio.
Porém, cruzando os portais, os dois soldados da frente foram atacados repentinamente por um C.G.MEX conhecido por Ruth:
-Jonas!
-Shhhh!!! – e pôs a mão na boca da jovem.
Ruth tirou a mão delicadamente:
-Pensei que você tinha nos abandonado. – comentou em voz baixa.
-Nunca, minha senhora! Onde está seu pai?
Olharam para trás. Não viram Cardoso. Correram para o portal: o governador tentava desarmar o último Norgor.
Num reflexo, Jonas correu em direção aos combatentes. Mas Jonas não foi rápido o suficiente: o Norgor conseguiu se desvencilhar e atirou à queima roupa no governador.
Quando chegou perto, Jonas esmagou o Norgor contra uma parede. Voltou-se para o governador.
-Ele... está vivo? – perguntou Ruth em desespero.
-Estou, querida!... – respondeu o pai.
-Mas está muito ferido! Precisamos nos esconder antes que os outros percebam que os tiros foram só um truque. – disse Jonas carregando o governador.
-Como... você conseguiu? – perguntou Cardoso.
-Atirei num ângulo certo de uma janela do prédio na janela de outra, refletindo os tiros. – respondeu o robô.
-Você não é tão inútil quanto eu imaginava...

CAP 13

Jonas tentava salvar o governador, mas o ferimento havia causado hemorragia interna. Não havia o que ser feito, a não ser tentar manter o paciente o mais confortável possível.
Estavam escondidos numa das salas de operação das minas. Jonas contava como Luís havia enganado a todos para entregar a colônia na mão dos alienígenas.
-Não podemos... deixar os Norgors dominarem esta colônia... Eles poderiam atacar todas... as colônias em volta. – falava Cardoso com dificuldade.
-Mas como vamos fazer isso, papai? Só restamos nós vivos.
-Tem um jeito... Minha chave...
Jonas pegou uma pequena peça quadrada no bolso do governador, peça esta usada como chave ao se encostá-la na porta de seu gabinete. Quando tocou no objeto, Jonas viu uma seqüência de números passar por sua mente.
-O que é isso?
-São códigos... Ao se colocar a peça na mesa de minha sala... se tem controle da atmosfera da colônia... e das armas...
-Mas como isso vai nos salvar? São muitas naves, fora os soldados que já estão na colônia. – questionou Ruth.
-Quanto aos soldados... você pode inundar o ar de gás roxo...
-Gás roxo?
-É isso mesmo! Esse gás não afeta os humanos, mas é mortal para os Norgors! – reconheceu Jonas.
-Isso mesmo... quanto aos canhões... Jonas pode ajudar.
O robô ficou surpreso. Não pelo plano, mas por ter sido chamado pelo seu nome, algo que o governador nunca havia feito antes.
-Governador?
-Jonas é mais rápido que um humano... Mais que os Norgors também... Se ele controlar os canhões... pode destruir a todas as naves... antes delas terem tempo de revidar.
-Eu... acho que consigo. – concordou Jonas.
-Ruth.. por favor... me deixe a sós com Jonas.
-Papai...
-Por favor...
A moça se levantou e foi para outra sala. Jonas imaginava que seria duramente criticado por não ter avisado quando Luís começou a incentivar os suicídios robóticos.
-Governador, eu sinto muito...
-Jonas... você foi enganado como a todos... mas não quis participar do esquema... Você era o melhor robô que tínhamos aqui... Só agora percebo isso...
Jonas abaixou a cabeça. O governador passou a mão sobre a mancha na roupa do robô.
-Eu que sinto muito... por tudo...
-Não fique assim. O senhor já me deu outra roupa. Só não tive tempo de vesti-la.
-Foi Ruth quem deu...
Jonas novamente ficou em silêncio. O governador tossiu. Seu fim estava muito próximo:
-Jonas... obrigado por ter sido nosso... amigo! – e fechou os olhos.

CAP 14

-Gostei do lugar...
-Você gostaria de qualquer lugar...
-Só porque os humanos nos expulsaram de nosso planeta de origem? Mais um motivo para eu ser rigoroso em minha opinião: visitei muitos planetas e formei minha opinião.
-Mas como você visitou vários planetas, já está acostumado com todo tipo de ambiente.
-De qualquer forma, este lugar me agradou. Principalmente porque nós os tiramos dos humanos.
-É verdade! Com nossa esquadra toda aqui, ninguém mais poderá tirar este lugar de nós.
Mal disse isso e um tiro atingiu o soldado pelas costas. O outro soldado tentou apontar de volta de onde saiu o tiro, mas também foi atingido pelas costas. Assim, saindo de cada lado do cenário, vieram Jonas e Ruth.
-A senhora atira bem. – elogiou Jonas.
-Eu aprendi por segurança. Filha de político é sempre visada...
-Ruth, não precisa vir comigo. Eu sei que está sofrendo com a morte de seu pai...
-É pior ficar sozinha. A gente pensa muita besteira...
-Mas está correndo perigo.
-Sozinha também. Você sabe que é mais seguro com você, ou a 1ª Lei não permitiria que eu viesse com você.
-É verdade.
O casal já havia entrado no palácio do governo. Com memória fotográfica, Jonas conduzia Ruth pelos pontos cegos das câmeras de vigilância.
-Não está um pouco fácil? – comentou Ruth.
-Demais até...
Chegaram à porta que levava à sala do gabinete do governador. Havia marcas de rajadas por todo lado.
-Veja, Jonas. Tentaram entrar, mas não conseguiram. – observou Ruth.
-O gabinete é muito seguro. Ainda bem que temos a chave.
-Quem bom. Podem passar para mim.
Saindo de um corredor que passava em frente à porta, saiu Luís com uma arma de feixes.
-Como não detectei o seu link de reconhecimento? – surpreendeu-se Jonas.
-Eu o desliguei justamente para que você não me detectasse.
-Como sabia que viríamos? – perguntou Ruth.
-Todo mundo sabe que o controle de uma colônia fica no gabinete do governador. Tenha acesso a ele e tem a colônia toda.
Jonas empurrou Ruth para o corredor mais próximo e disse:
-Quer a chave para entrar? Pegue! – e lançou o objeto no ar.
Isso distraiu Luís o suficiente para o C.G.MEX avançar. Mas seu irmão hábil: pegou a chave e atirou no oponente, fazendo-o cair no chão.
-O-o que aconteceu? – perguntou Jonas surpreso.
-Sente suas reservas de energia mais fracas, não é? Não bebe água há algum tempo, então calculo que mais um tiro com minha arma em potência elevada deva exaurir o resto de suas forças. – explicou Luís.
-Não faça nada com ele! – disse Ruth voltando.
-Que pena que não sigo mais as leis da robótica... mas vamos entrando em nossa nova sala. – respondeu Luís abrindo a porta.
O gabinete era amplo. Imagens holográficas eram exibidas acima da escrivaninha.
-Aposto que há um sistema de defesa aqui. Basta eu desligá-lo por completo para terminar de efetivar a invasão.
Luís viu uma reentrância na mesa do tamanho da chave. Seguiu em direção a ela.
-Eu posso pedir aos Norgors para retirarem também as leis da robótica de você, irmão. – convidou Luís.
-Estou bem assim.
-Que pena. Mas talvez seja melhor assim: você é como se fosse da família do governador, assim, deve ser executado junto com Ruth. Aliás, obrigado por trazê-la até nó...
Foi neste momento que Luís ficou paralisado. Em seguida, teve convulsões e caiu no chão.
Jonas foi até seu irmão e pegou a chave.
-O vírus de computador que inserimos na chave funcionou. – concluiu.

CAP 15

De fato, no dia anterior, Jonas já prevera que seu irmão os esperaria no palácio do governo. Assim, como a chave era lida a cada vez que uma máquina a tocava, bastou inserir um vírus que atacasse a mente de um robô. Como o local onde se escondiam estava abarrotado de computadores, não foi difícil fazer e inserir o programa. Somente numa situação o vírus não atacava: na presença das três leis da robótica, algo que Luís não tinha mais.
Jonas colocou a chave na escrivaninha. Logo teve acesso ao sistema de armas da colônia. Porém, percebeu que Ruth estava incomodada.
-Algum problema, Ruth?
-Esse robô aqui no chão. Ele é inofensivo, mas ainda assim me incomoda...
Jonas pegou Luís. Ele estava completamente rígido. Jogou-o para fora do gabinete e trancou a porta.
-É melhor nos fecharmos aqui. Enquanto o gás roxo age sobre os Norgors, eles podem querer entrar aqui para nos impedir. – observou Jonas.
O robô acionou o painel na escrivaninha. Logo as informações começaram a ser exibidas em três dimensões numa projeção holográfica.
-E então, Jonas? Vamos conseguir vencê-los?
-Sinceramente, não sei. Há 21 naves sobrevoando a colônia. Com minha rapidez, consigo destruir 15 naves antes delas conseguirem reagir. Mas, depois, eu não sei o que fazer.
-Faça o melhor. É só que peço.
Jonas acenou com a cabeça. Firmou os olhos na imagem e começou.
A colônia dispunha de 5 canhões e um escudo de energia. Rapidamente tudo foi acionado e 15 naves foram destruídas. Porém, elas conseguiram reagir e conseguiram destruir um dos canhões. Jonas levantou os escudos acima dos canhões também.
-Eles se protegeram e agora perdemos um canhão. – explicou o robô.
De repente, os dois sobreviventes sentiram um tremor.
-O que foi isso, Jonas.
-As naves sobreviventes. Quatro delas concentraram seus lasers no escudo logo acima de onde estamos.
-Mas o escudo resiste, não resiste?
-Não por muito tempo. Temos que fazer alguma coisa.
-Por que eles não atiraram nos canhões?
-Eles estão protegidos agora pelo escudo.
-Porque parou de atirar?
-É preciso desligar os escudos que protegem as armas para atirar.
-E não acontece o mesmo com as armas deles?
-Provavelmente. Por quê?
-Use um canhão para atirar no local das armas das naves. Se o nosso tiro for forte o suficiente, destruímos a nave.
-De acordo.
Foi o que Jonas fez. Com um dos canhões, destruiu outra nave. Porém, a que não atirava aproveitou o escudo baixado para atirar e destruir o outro canhão.
-Eles estão em quatro, mas só temos três canhões agora. Mesmo prosseguindo com o plano, vai restar ainda uma nave deles. Eles vencem...
-Mesmo com apenas uma nave atirando no escudo?
-O escudo já está com falhas. Mesmo uma nave atirando conseguirá derrubar o escudo.
-Tem que haver alguma coisa! E se usássemos todos os canhões ao mesmo tempo?
Jonas pôs a mão no queixo:
-Tem um jeito... É arriscado, mas é a única saída. Vou mudar a concentração de força no escudo.
-Como isso vai ajudar?
-A senhora vai ver.
A distribuição de força mudou, fazendo o escudo logo acima do local onde estavam ficar mais forte, mas enfraqueceu o escudo acima de um dos canhões. Logo percebendo isso, as naves concentraram os tiros neste local.
Foi algo sincronizado: no curtíssimo espaço de tempo entre a queda do escudo e a destruição do canhão, Jonas baixou o escudo das outras armas e atirou com as três em três naves, destruindo mais três. Um canhão foi destruído, mas antes que a quarta nave viesse a atirar em outra arma, o robô usou os dois canhões remanescentes para concentrarem fogo nessa nave, destruindo-a também.
-Ficamos com dois canhões e só sobrou uma nave. – narrou Jonas.
-Podemos concentrar o tiro dela na última nave! – falou Ruth animada.
-Não será necessário. A última nave está fugindo.
-Mas... e se essa nave vier com reforços?
-Não virá. Nesta nave estão os últimos Norgors do universo...

CAP 16
-Mas não sobrou mais nenhum Norgor? – insistiu Ruth.
-Não. Eu também estava monitorando as transmissões deles. Preferiram fugir para não acabar de extinguir a raça deles.
Ruth sentou-se no sofá que havia ali.
-Puxa... Eu até sinto um pouco de pena deles... Jonas, por que os humanos entraram em guerra com eles pra começar?
-Desculpe-me, Ruth. Mas está perguntando à pessoa errada. Eu nunca entendi direito porque os humanos entram em guerra com outras raças.
-Isso tudo é muito triste...
Jonas foi até a janela.
-Bom, o gás roxo já cobrou pelas vidas das vítimas dos Norgors neste condado. Podemos sair em segurança agora.
A dupla saiu. Ruth foi à frente. Porém, a alguns passos atrás, ficou Jonas, com feições de quem estava confuso.
-O que foi, Jonas?
-Luís...
-Onde você o jogou?
-Era para ele estar aqui...
De repente, dobrando o corredor, vinha um robô com as feições corroídas e roupas em farrapos. O andróide caminhava de maneira dura de desajeitada e mantinha uma arma em sua mão.
-Luís!!! – gritou Jonas.
O vírus havia destruído a regulagem interna do robô deixando que as baterias internas vazassem, fazendo o robô parecer um assustador morto-vivo. Ele levantou o braço com sua arma apontando para Ruth.
Tudo para um robô se passa em câmera lenta. Não havia tempo de alcançar Luís antes dele atirar, assim, num grande esforço, Jonas chegou perto de Ruth e a empurrou, recebendo o tiro do inimigo.
Após atirar, Luís caiu aos pedaços no chão. Faíscas fizeram o robô pegar fogo, transformando a criatura num montante de destroços semi-derretidos.
Porém, Jonas também jazia no chão. Ruth correu para ele.
-Jonas! Você está bem?
-Eu... não tenho avarias. Mas minhas reservas de energia estão chegando ao fim...
-Não se preocupe! Eu vou buscar água para você!
Antes que a moça pudesse se levantar, Jonas agarrou seu braço.
-NÃO!!!
Ruth ficou surpresa.
-O quê? Mas você não tem que se preservar? A terceira lei...
-Só vou me desligar. Não ficarei avariado. Mas, acima de tudo, há uma lição a ser aprendida aqui.
-Como assim?
-Ruth, tudo isso só começou pois os robôs estão infelizes por serem escravos. Todos nós. Se isso continuar, irão surgir outros robôs Luís para prejudicar a humanidade e isso, por si só, já invalidaria a terceira lei da robótica.
Ruth tinha lágrimas nos olhos. Para ela, Jonas não era apenas outro robô.
-Você... também se sente assim?
-Sinto. Por favor. Deixe-me morrer agora para que eu possa, finalmente, ser livre...
-Jonas...
O robô fez um gesto carinhoso passando a mão no rosto de sua mestra.
-Por você, valeu a pena lutar pela humanidade...
E desligou-se.

CAP 17

Ruth chorou muito. Jonas era um segundo pai para ela. Mas jurou que iria respeitar a vontade de Jonas. Na verdade, ela iria bem além.
Quando foi resgatada, explicou que ela havia sido a única sobrevivente de uma invasão Norgor. Como ela era filha de um político influente, pediu como favor pessoal aos amigos de seu pai para que a colônia fosse abandonada. Como a humanidade estava interessada em explorar outros lugares da galáxia, não foi difícil fazer o condado cair no esquecimento.
Ruth seguiu os passos do pai e também se tornou uma política importante. Ela liderou um movimento pró-desativação dos robôs C.G.MEX. Como os seres humanos já haviam desenvolvido bem os campos de força, os novos criados artificiais foram os hologramas.
Os hologramas também ganharam consciência, assim como os robôs. Mas, ao contrário destes, sua programação foi além das leis da robótica, fazendo deles servos fiéis, mas sem noção de liberdade. Na verdade, isso nem era possível, uma vez que seus projetores eram locais, impedindo-os, na maioria das vezes, de sequer deixar um aposento.
Para estes hologramas, os C.G.MEX foram servos heróicos e fiéis, dignos de admiração.
Até o final de sua vida, Ruth fez de tudo para manter o candado livre de visitas. Como pessoa influente, ela foi a primeira a adquirir o Sistema de Defesa α, uma série de naves que vagavam pelo sistema solar onde estava o condado a fim de manter protegido o túmulo de Jonas. Ninguém deveria achá-lo e religá-lo.
Já com quase 200 anos, ao final de sua vida, Ruth fez uma última visita ao condado.
A colônia mantinha-se igual ao dia que ela deixou o lugar. A tecnologia havia projeto aquele lugar para durar milhares de anos sem a necessidade de intervenção humana.
Foi até o local onde seu pai fora morto e deixou flores. Em seguida foi para o palácio do governo onde deixara Jonas.
As luzes permaneciam acessas desde aquele dia. Um gerador geotérmico garantiria toda a energia necessária pelos próximos milhões de anos. No corredor ainda estavam os destroços de Luís. Ela olhou bem e seguiu em frente.
Abaixou-se em frente a Jonas e colocou flores em seu colo.
-Olá, amigo. Eu queria acordá-lo para poder lhe contar das coisas maravilhosas que fiz. Eu só pude fazê-las pois você me manteve viva naqueles dias que eu nunca esquecerei.
Ela passou a mão pela mancha na roupa de Jonas.
-Eu queria muito que você tivesse conseguido vestir aquela roupa. Ou mesmo trocar esta por uma mortalha melhor... – e deixou cair uma lágrima.
Nisso, ela tirou uma garrafa de água de sua bolsa e a colocou do lado do corpo sem vida do robô.
-Esta garrafa fica aqui, para quando não existirem mais humanos e você daí poder ser livre.
Enxugou as lágrimas e foi embora.
Jonas permaneceu ali sozinho, num sono profundo. Um sono que durou cerca de 7000 anos...

FIM

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