Dejavú

CAPÍTULO 1

-Sejam bem-vindos à escola do amanhã!
Um homem gordo, relativamente calvo e de aparência bem cuidada falava diante de uma equipe de filmagem.
-Aqui estão reunidas as grandes mentes deste país! Nossa universidade faz questão de apoiar pesquisas e contratamos pesquisadores que são tão mal reconhecidos no Brasil! Agora vamos conhecer algumas das pesquisas feitas aqui!
-Pode parar a filmagem! – ordenou o diretor de vídeo.
A pequena equipe de três pessoas recolheu as máquinas, enquanto o gordo apresentador, o Reitor Ourives, arrumava a roupa.
-Fiquei bem, Olavo?
-Claro, Reitor. Vamos agora mostrar algumas das pesquisas que o senhor achar melhor. – respondeu o diretor.
A dupla de dirigentes seguiu na frente por um corredor, enquanto o operador de cabo recolhia o mesmo resmungando.
-Que droga! Sou um pesquisador assistente! Não assistente de produção cinematográfica!
O cinegrafista sorriu:
-Que mau humor, Jorge! Eu também sou, mas estou achando legal fazer uma coisa diferente de vez em quando.
-Você está é puxando o saco do Reitor, Renato! Assim ele descola mais aulas pra você.
Renato ficou em silêncio. Jorge desculpou-se.
-Perdão, Renato. Você não precisa puxar o saco de ninguém. Na verdade, você é um dos melhores professores substitutos daqui. Gosta do que faz.
-Gosto mesmo. Amo o que faço.
-Não é perda de tempo, Renato? Ganha pouco e nem mesmo titular você é.
-Está parecendo minha namorada, Jorge. Não estou interessado em dinheiro. E aqui ganho o suficiente para viver...
-...solteiro. É por isso que sua namorada quer que você ganhe mais: para poder ser sua esposa.

CAPÍTULO 2

O grupo chegou num saguão que levava a vários laboratórios. Com o equipamento pronto, o reitor prosseguiu:
-Estas portas levam às pesquisas de ponta feitas aqui.
O reitor aponta para uma porta de vidro por onde sai um pesquisador de barbas ruivas e seu ajudante de feições orientais.
-Que coincidência, dr. Rui. Eu ia falar agora de sua pesquisa! – chamou o reitor.
-Mas é Claro! Luís, pode levar estes papéis para ler em casa, se quiser. Depois conversamos mais. – despachou o pesquisador seu assistente. O rapaz abaixou a cabeça e foi embora.
-Doutor, sua pesquisa é polêmica, mas acreditamos no senhor. Fale dela.
-Confia mesmo é nos doutorados dele... – cochichou Jorge para Renato.
O pesquisador ajeitou o óculos e começou a falar num tom pomposo, comum para todos que o conheciam:
-Acredito que todos já tiveram a sensação de dejavú: uma sensação de que o fato no presente parece estar se repetindo. A maioria credita esta sensação à atenção prejudicada devido ao cansaço.
-Ou seja, alguém cansado está meio “desligado” e, quando se toca, parece já ter vivido aquela situação, mas não percebe que já estava vivendo mesmo. – traduziu o reitor.
-É isso mesmo que eu disse. Mas eu não acredito nisso. Percebemos que uma área do cérebro é mais ativada durante estas sensações.
-Por favor, explique sua hipótese.
-Como todos sabem, o cérebro trabalha com sinais elétricos. Há trânsito de partículas pelos neurônios. Sabemos também, pelas leis da mecânica quântica, partículas podem ter pares separados pelo espaço-tempo, pares estes, onde quer que estejam, mantém as mesmas propriedades de suas gêmeas. Acreditamos que as partículas nesta área do cérebro num determinado ponto do espaço-tempo possam interagir com as partículas em outro ponto do espaço-tempo.
A equipe se entreolhou. Ninguém entendeu nada. O reitor tentou ser político:
-Dr. Rui, este vídeo será visto por alunos saindo do ensino médio. Acho que devia explicar de uma maneira mais simples para nossos expectadores.
O pesquisador suspirou com aquele ar de inteligente mal compreendido. Prosseguiu:
-Estamos pesquisando se a sensação de dejavú não é uma transmissão mental de uma imagem do futuro para o passado.
-Brilhante, Doutor! Espero que consiga alcançar seu objetivo! – despediu-se o Reitor.
O pesquisador se foi. Jorge segurava uma risada. Renato o cutucou antes que seu amigo explodisse ali em risos.
-Reitor, fale de outra pesquisa daqui. – pediu o diretor.
-Oh, sim. Aquela outra porta leva a uma pesquisa muito promissora com raios gama.
-Raios gama? Isso não é perigoso? – comentou baixinho Jorge.
-O senhor está inteirado sobre o que é a pesquisa, reitor? – perguntou o diretor.
-Estou sim. Embora os raios gama sejam muito perigosos – disse o reitor olhando para Jorge, demonstrando estar atento às palavras do caboman – em quantidades pequenas e pulsantes pode-se levar à estimulação de crescimento controlado de determinadas células do corpo.
-Isto é ótimo, reitor! Com um raio destes poder-se-ia reproduzir células para fechar um ferimento! – concluiu o diretor.
-Ou, até mesmo, recriar um órgão dentro do corpo de uma pessoa. – completou o reitor.

CAPÍTULO 3

À tarde, a equipe terminou as filmagens e começou a edição. O reitor não ficou pois tinha muito trabalho em sua mesa.
A baixa seguinte foi do diretor, deixando apenas Jorge e Renato.
A edição adentrava a noite quando chegou a um resultado.
-Está pronto, Renato. Vamos embora!
-Espere! Podemos dar uma última melhorada na abertura.
-Nosso trabalho não é esse, Renato! Vamos embora!
-Pode ir, então. Quero dar um último retoque.
-Ser bom moço ainda vai acabar com você. Boa sorte. – e debandou Jorge.
Uma hora depois o trabalho estava pronto. Renato se espreguiçou e fechou a sala de vídeo da universidade.
Caminhou lentamente pelos corredores. Para sair, passaria necessariamente pelo saguão onde estavam as portas que levavam aos laboratórios citados na filmagem.
Porém, um alarme soou. Renato correu, para sair. Podia ser um incêndio.
No saguão percebeu que a luz do laboratório de raios gama estava acesa. Preocupado se havia alguém, entrou.
Saía fumaça de uma máquina. Curiosamente, o assistente do dr. Rui estava ali, caído no chão.
-Você está bem? – gritou.
Nada. Renato correu para acudir o colega.
Porém, ao passar por uma tela, Renato sentiu uma forte dor de cabeça e caiu desmaiado.
Finalmente, Renato acordou. Estava num hospital. Como não estava entendendo nada, apertou o botão chamando a enfermeira.
-Que bom! Está acordado!
-O – o que aconteceu?
-Isso é o que queremos que o senhor nos diga. – disse um policial entrando com o reitor.
-Mas o que vocês querem saber? – perguntou Renato, ainda confuso.
-Por que o senhor invadiu e destruiu o laboratório de raios gama? – perguntou o reitor visivelmente nervoso.
-Eu não invadi. Eu vi a porta aberta e achei o assistente do dr. Rui no chão. Fui ajudá-lo, mas caí desmaiado.
-Não fale bobagem! O bombeiro que o tirou de lá não encontrou mais ninguém! Nem o porteiro registrou a entrada de mais alguém!
-Mas é verdade! Tinha alguém lá!
-Podem nos dar licença? – pediu o reitor ao policial e à enfermeira.
Saíram. O reitor ficou próximo do paciente.
-Renato, não pretendo dar queixa, pois até hoje você se mostrou um bom funcionário. Nem espero que pague pela máquina que estragou pois levaria várias vidas com o salário que você ganha... – falou em voz baixa.
-Tem que acreditar em mim, reitor!
-Não tenho, não. Assim que o senhor tiver alta, vá retirar suas coisas da escola, pois o senhor está despedido.
Enquanto o reitor ia embora, Renato só pensava nas palavras de Jorge.
-O dia que eu me daria mal chegou...

CAPÍTULO 4

A alta se deu no mesmo dia. Renato pegou um táxi direto para a escola.
Quando chegou, percebeu que não era o único a ser despedido. Furioso, de posse de uma caixa cheia de seus pertences, saía o dr. Rui.
-Vocês são muito pequenos para todo o meu potencial!!!
Ao entrar, Renato encontra seu amigo Jorge.
-O que aconteceu ao Rui?
-Diferenças irreconciliáveis com a direção, é o que se diz oficialmente. A verdade é que nem o reitor aturava mais as teorias malucas do Rui.
-É uma pena. Ele era um ótimo nome para o corpo docente daqui...
-Você também era, mas o que aconteceu? Por que invadiu aquele laboratório?
-Eu não invadi! Foi o assistente do Rui!
-O Luís? Ele é uma mosca morta! É tão tímido que era o único que aturava as loucuras do Rui.
-E onde ele está?
-O reitor o está escalando para ser assistente de outro pesquisador.
-Vou desmascará-lo na sala do reitor mesmo!
-Espere! Não vá arrumar mais confusão!
Renato não deu ouvidos. Passou direto pela secretária e entrou na sala do reitor.
-Professor Renato? O que quer aqui. – perguntou o reitor perplexo.
-A verdade! Luís! O que estava fazendo no laboratório de raios gama?
O jovem abaixou timidamente a cabeça e disse:
-Eu nunca entrei lá, professor.
-Bobagem! Eu até tentei salvar você!
-O senhor deve estar imaginando coisas. Eu estava em casa lendo a pesquisa do dr. Rui.
-Alguém pode confirmar isso?
O reitor levantou-se:
-Renato, já tive muita paciência com você! Saia imediatamente desta escola ou vou chamar a segurança!
Renato encolheu. Enquanto saía, o reitor disse:
-Mandarei suas coisas pelo entregador. Passar bem!
Renato estava acabado. Voltou para seu táxi pensando se realmente não tinha imaginado coisas.
O trânsito estava lento. Já passava das 18h. O semáforo adiante já estava amarelo quando o táxi chegou na faixa.
-Pare. Com o trânsito assim o carro vai parar no meio do cruzamento quando o sinal ficar vermelho. – pensou Renato. Mas não fez questão de dizer. Estava tão aborrecido que não tinha ânimo para falar nada.
O táxi prosseguiu e, conforme a previsão do ex-professor, o carro parou no meio do cruzamento.
Neste momento, Renato acordou para a vida: um caminhão vinha em alta velocidade e não ia conseguir parar a tempo. Renato fechou forte os olhos esperando pelo pior.
Os segundos se passaram, mas nada aconteceu. Abriu os olhos. Ele estava há alguns metros, no mesmo lugar que ele constatou que o táxi ficaria preso no cruzamento!
-Motorista! Pare!!! – gritou Renato.
Assustado, o motorista pisou no freio, parando o carro antes do semáforo, conforme ele deveria ter feito antes.
-Está maluco, homem? Não se grita assim quando se está dirigindo! – brigou o taxista.
Neste momento, um caminhão passou correndo pelo cruzamento.
-Meu Deus! Poderíamos ter morrido! – disse boquiaberto o motorista.
Mais assustado estava Renato, que se limitou a dizer:
-Dejavú...

CAPÍTULO 5

Renato chegou em seu condomínio atordoado, mais pelo ocorrido no trânsito do que pela demissão. Ele tinha certeza que vivenciara aquele acidente.
-Cuidado!!!
Um garotinho chutara sua bola, que ia de encontro com o rosto do ex-professor.
Instintivamente, Renato fechou seus olhos, mas nada aconteceu. Abriu os olhos. O garotinho estava prestes a chutar a bola. Saiu da frente e a bola passou.
Novamente acontecera! O tempo havia retrocedido! Mas como?
Renato entrou em seu apartamento. Um belo cãozinho da raça shi-tzu veio recebê-lo. Renato morava sozinho. Como não tinha muito dinheiro, alugava.
-Está com fome, não é, garoto? Papai já vai preparar sua raçãozinha. – falou com seu cachorro.
Renato costumava misturar um pouco de ração pastosa com a ração sólida para dar gosto na comida. Muita gente acharia um luxo desnecessário com um cachorro. Muita gente: menos quem ama seu animal.
Porém, ao pular na perna de Renato, Alfie (esse era o nome do cachorro) fez seu dono ter um leve desequilíbrio, deixando cair parte da ração pastosa no chão.
Renato respirou fundo e estendeu sua mão para pegar um pano. Foi aí que ele parou. Olhou para a sujeira o chão e teve uma idéia: fechou forte os olhos. Quando abriu, estava novamente com a lata de ração na mão. Desviou a perna e não deixou cair a sujeira de novo.
Renato então aproveitou para fazer vários testes em sua casa. Fazia e desfazia coisas. Passou o dia assim, divertindo-se.
Ao final da noite (que pareceu durar muito mais que o normal, claro), Renato deitou-se cansado.
Entretanto, foi ao se deitar que ele teve uma nova surpresa desagradável: o sinal de recado de sua secretária eletrônica piscava. Acionou para ouvir o recado.
-Renato, aqui é a Valéria, sua namorada. Estou esperando você hoje. Ligue para mim assim que chegar. Estou preocupada. – ouviu a gravação.
Renato mordeu o lábio.
-Droga! Ela vai me matar por não ter ligado de volta!
Lembrou então de seu novo poder. Ele só tinha testado voltar alguns poucos segundos, não devia ser diferente voltar algumas horas, para o momento que chegou em casa.
Apertou bem os olhos. E eis que uma fortíssima dor de cabeça veio. Renato abriu os olhos assustado. Sentia tontura e seu nariz começou a sangrar. O tempo não parecia ter regredido mais do que alguns minutos.
Renato ainda estava de pé. Caiu no chão.
-Preciso de ajuda!
E ele sabia bem quem poderia ajudá-lo.

CAPÍTULO 6

-O que você quer aqui? – reclamou o homem de barba ruiva.
-Estou precisando da sua ajuda, dr. Rui.
À porta de uma casa velha, o pesquisador não parecia ter a intenção de ajudar ninguém.
-Eu sou a piada de todo mundo. Não preciso dar mais material para vocês rirem!
-Não é! O senhor estava certo sobre a teoria do Dejavú!
-Eu quase sempre estou certo. O problema é que ninguém acredita em mim.
-Mas eu posso provar!
-Se nem eu consegui provar, você vai conseguir? Que bobagem! – e já ia fechar a porta.
-Só pense num número! Qualquer número!
O cientista suspirou.
-Pronto. E agora? – falou Rui cruzando os braços.
-Agora o diga em voz alta.
O cientista levantou os olhos e foi fechar a porta. Renato segurou.
-Diga qual é o número e vou embora!
-É o valor de PI, está bem? – fechou a porta.
Renato apertou os olhos.
-Pronto. E agora? – Falou Rui cruzando os braços.
-3,1415... o valor de PI.
Rui estranhou.
-Como adivinhar o número que eu pensava prova alguma coisa.
-Deixe-me entrar e explico.
Uma vez dentro da casa, Renato contou o ocorrido no dia anterior.
-Eu só não sei como comecei a ter esse “poder” de uma hora para outra. – comentou o ex-professor.
Rui coçou sua barba. Ele parecia entender.
-Entrou na sala dos raios gama, não é?
-Sim, mas para ajudar...
-Então! A máquina deve ter estimulado, acidentalmente, a mesma região do cérebro que eu pesquisava.
-Mas como isso faz com que eu faça voltar o tempo?
-Você não faz. A região do seu cérebro deve ter desenvolvido a ponto de transmitir mais do que só imagens para você mesmo no passado. Os padrões de memória imediatos são transmitidos para sua mente que vive mais do que um simples dejavú. A combinação faz parecer que sua consciência viaja no tempo.
-Mas por que não consigo voltar mais do que alguns segundos? Por que a dor de cabeça quando tentei voltar demais?
-Entenda: o cérebro muitas vezes é como um músculo. Não dá para forçar demais. Talvez, com o tempo, você melhores sua habilidade e volte mais para trás, mas se forçar demais, você pode acabar tendo um Acidente Vascular Cerebral e morrer.
Renato suspirou.
-Bom, pelo menos eu já sei o que me aconteceu. Eu só não sei o que fazer agora.
-Vou retomar a pesquisa. Você é a chave para recuperarmos respeito.
Renato levantou a sobrancelha.
-Doutor, com todo respeito, não acredito que adivinhar números como fiz com o senhor vai fazer com que o reitor acredite em nós.
-Não pretendo recuperar o respeito contando a verdade.
-E como, então?
Rui olhou para o computador em sua sala.
-Renato, já ouviu falar no termo “janela de oportunidade” no mercado de ações?

CAPÍTULO 7

-Quem é o próximo, srta. Isabel?
-Seu nome é Renato. Ele é um ex-professor de Biologia, senhor Oliveira.
O patrão estranhou.
-Qual é a especialidade deste candidato?
-Janelas de oportunidade.
O homem balançou a cabeça.
-Ele deve ser apenas um amador sortudo, então.
-Senhor?
-Veja bem, srta. Isabel: ninguém é “especialista” em janela de oportunidades. No mercado de ações existem papéis altamente voláteis. Os preços oscilam muito rapidamente. A janela de oportunidade ocorre quando o preço está muito baixo para a compra e muito alto para a venda. É preciso ter sorte para escolher a hora certa e não habilidade.
-Mando-o embora?
-Não. Ele deve ser um investidor amador. Deixe-o entrar para que eu possa explicar para ele por que não posso empregá-lo.
Renato entrou. Parecia um pouco tenso.
-Prazer em conhecê-lo, Renato. Meu nome é Ronaldo Oliveira.
-O prazer é meu.
-Senhor Renato, infelizmente esta empresa está em busca de profissionais com experiência em mercado de ações. Nós não temos interesse em pessoas que fazem apostas no mercado volátil. Precisamos de solidez e experiência para planejamentos.
Ainda um pouco assustado, Renato insistiu:
-Senhor Oliveira, eu gostaria de me desse uma chance. Eu... conheço muitíssimo bem esse mercado volátil. Se me der uma hora, consigo uma pontuação perfeita.
Oliveira suspirou. Então ele deu uma missão impossível:
-Darei ao senhor R$10,00 e uma hora. Quando voltar, quero R$1.000,00.
Renato balançou a cabeça e foi conduzido para um terminal numa sala. Era a hora do almoço do empregador. A srta. Isabel ficou supervisionando.
Ele foi ao restaurante parte. Pediu um bom prato de massas e salada de camarão. Praticamente esqueceu-se do ex-professor. Quando terminou a refeição, ficou lembrou-se do rapaz.
Seguiu para a empresa para despachar Renato. Se tivesse muita sorte teria chegado perto do valor pedido, mas o mandaria embora assim mesmo.
-Quanto o senhor o conseguiu? – inquiriu.
-Este valor.
Na tela, para a grande surpresa de seu empregador, os números eram chocantes:
-R$ 3.564,88???
-Estou empregado?
Oliveira começou a levantar a movimentação feita. Renato fazia o jogo do tudo-ou-nada: comprava usando todo o dinheiro e vendia o total de ações. O mais curioso é que ele sempre conseguia o melhor preço tanto para venda como para compra.
-Como você conseguiu?
-Digamos que, quando eu erro, eu volto no tempo e faço a operação certa. – sorriu Renato.

CAPÍTULO 8

Um mês antes de procurar emprego na empresa de compra e venda de ações, Renato treinou seu poder com algum dinheiro que Rui tinha guardado.
O resultado foi um bom aporte de recursos, que ajudou a dupla a pagar suas dívidas e manter-se com conforto.
Agora, trabalhando nesta empresa, Renato ganhava gordas comissões e credibilidade.
Com o tempo, Renato já conseguia retroceder uma ou duas horas.
-Até quando vamos com isso, Rui?
-Quero que você ganhe muita credibilidade em seu trabalho. Com sua média perfeita, podemos atestar que minha teoria estava certa. Mas para isso, você vai precisar trabalhar um bom tempo nessa empresa.
-Mas por que não continuamos sozinhos como investidores independentes? Ganharíamos tanto dinheiro que todo mundo ia nos respeitar.
-O mundo da ciência é complicado. Os verdadeiros cientistas não se impressionam com dinheiro e sim com resultados. Numa empresa você tem testemunhas e registros confiáveis de que você acerta sempre. Vai chegar um tempo que será estatisticamente impossível conseguir ir tão bem.
-Minha noiva ficou brava de eu estar trabalhando para os outros... – confessou Renato.
-Noiva? Então deixou de ser sua namorada? – sorriu Rui.
-Pois é. Aproveitei o dinheiro extra e comprei para ela um anel bonito.
-Seu salário, ainda assim, é melhor que quando era professor. Todos estão felizes.
Foi assim até numa determinada manhã. Renato chegou animado para trabalhar. Depois de duas horas trabalhando, foi tomar um café.
Na cozinha, ouviu um colega conversando com outro:
-Você viu? As ações da Teclis caíram 5% faz uma hora.
-5%? Nós temos muitas ações dela. Perdemos um bom montante.
-Pior que foi algo totalmente imprevisto: um dos diretores foi pego numa falcatrua. Ninguém tinha como saber.
Chamou a atenção de Renato. Seria uma grande oportunidade.
Renato apertou bem os olhos e voltou duas horas. Tão logo ligou seu terminal, vendeu todas as ações que sua empresa tinha.
O dia seguiu. Ao final do expediente, voltou para casa. Chegando, ligou a TV.
-A Teclis entra em concordata!
A notícia chamou a atenção de Renato.
-O preço das ações caiu mais de 50%. Pouco antes de um dos diretores ser pego depois de falsificar a contabilidade uma grande empresa acionária vendeu todas as ações da empresa. Com mais o crime praticado, o conjunto levou o mercado vender as ações.
Renato sentou-se pesadamente. Seu ato levara à quebra de uma grande empresa. Muitas pessoas, que foram demitidas, começavam a dar entrevista.

CAPÍTULO 9

-De fato, ao vender ações, você retira capital de uma empresa. Se outra empresa não recompra, você sai prejudicando uma empresa e, conseqüentemente, seus empregados. – explicava Rui.
-Rui, eu não posso fazer mais isso. Eu procurei ser professor pois isso ajudava as pessoas. Não roubava o emprego de ninguém. – dizia Renato.
-Bom, tudo bem. Você já trabalhou tempo suficiente para termos provas de que a teoria de Dejavú estava certa. Eu monitorei seu progresso e registrei o necessário.
-Hoje vou pedir demissão. Amanhã podemos ir atrás do reitor e pedimos nossos empregos de volta.
Rui abanou a cabeça. Quando Renato estava saindo, perguntou:
-Essa vida que você leva é bastante confortável. Quer mesmo voltar a ser professor?
Renato sorriu:
-Sempre foi tudo o que eu queria. E, depois, juntei um dinheiro razoável. Não devo passar aperto.
Renato entrou em seu carro novo. Era um modelo caro e zero quilometro. Talvez precisasse trocar por um modelo mais popular. Não seria barato manter o carro atual.
Ao chegar, foi direto ao RH, falar com Oliveira.
-Que bom que veio, Renato. Eu já ia chamá-lo.
Renato estranhou. Perguntou:
-Precisa de mim?
-Sim. Gostaria de apresentá-lo a um novo gestor que, assim como você, também é especialista em janelas de oportunidade. Ele foi o único outro investidor que descobriu que a Teclis iria cair.
-Isso é bom pois eu vim aqui para...
Antes que Renato pudesse terminar, a campainha na mesa tocou:
-Sr. Oliveira, o novo funcionário está aqui.
-Obrigado, Srta. Isabel. Mande-o entrar.
-Sr. Oliveira, de qualquer maneira, eu gostaria... – voltou a falar Renato.
Porém, o ex-professor interrompeu o que ia dizer assim que o novo funcionário entrou.
-Luís?! – reconheceu Renato.
Sim, era Luís, o ex-assistente de Rui.
-Ah! Vocês se conhecem? – perguntou Oliveira.
-Trabalhamos na mesma escola. – respondeu Renato.
-Isso é bom. Por favor, ele vai trabalhar na seção 9. Apresente o local para ele.
Renato escoltou Luís até a mesa em silêncio. Havia um “clima” ruim entre os dois.
Assim que Luís chegou à sua mesa, Renato saiu, mas ficou de longe observando. Em vários momentos, Luís piscava por um tempo mais prolongado. Conforme ele piscava, ele executava operações de compra e venda.
Renato voltou para sua mesa e começou a monitorar as operações que Luís fazia. Ele conseguia os melhores preços sempre e, agora ciente das conseqüências, Renato percebia que as empresas quebravam e fechavam conforme Luís trabalhava.
Uma coisa ficou clara para Renato: Luís também tinha o poder de Dejavú!

CAPÍTULO 10

-Estúpido! Estúpido! Como eu pude ser tão ingênuo! – Rui socava a parede.
-Eu falei que eu tinha visto Luís naquela sala. Ele também deve ter sofrido o mesmo acidente que me deu a capacidade de voltar no tempo. – comentava Renato.
-É maior do que isso, Renato!
-Hein? Como assim?
-Não houve acidente algum. Foi tudo planejado por Luís.
-Planejado?
-Foi assim:
Luís estava muito interessado no desenvolvedor de células de radiação Gama. Várias vezes eu o vi conversando com a equipe.
No dia do “acidente”, Luís levou vários papéis da pesquisa para saber quais células do cérebro deveriam ser estimuladas. À noite, ele voltou e pagou um por fora para que o vigia não dissesse que ele teria entrado.
Ele programou a máquina e testou em si mesmo a máquina de raios gama. Porém, ele não esperava desmaiar e deixar a máquina ligada.
Foi aí que você entrou e também teve seu cérebro estimulado. Entretanto, como a estimulação dele foi menor, pois foi estimulado quando a máquina acabara de ligar, ele acordou e fugiu ao ver que ele destruira a máquina.
Depois disso, ele deixou que a culpa caísse sobre suas costas.
-Mas por que ele só apareceu agora? Por que está trabalhando para uma empresa de ações ao invés de sozinho com as janelas de oportunidade?
-Ele recebeu menos exposição, logo, o poder pode ter demorado mais para desenvolver-se. E, depois, trabalhar numa empresa de ações lhe dará mais acesso a mais ações e pode, particularmente, realizar um volume maior de transações.
-E quebrar mais empresas, desempregar mais pessoas e monopolizar o mercado de ações. Isso é péssimo!
-De fato, ele é um homem perigoso...
-Se houvesse um jeito de voltar no tempo até o dia do acidente...
Rui coçou sua barba. Respirou fundo.
-Há um meio, mas é muito arriscado.
-Como, Rui???
-É perigoso. Você só tem uma chance. Se der errado, você morre. Se der certo, você não vai se lembrar de quase nada.
-Eu aceito! Como?
-Tem certeza? Você tem uma vida confortável. Vai perder tudo. – insistiu Rui.
-Ter tudo não vai me dar mais boas noites de sono, Rui. Prefiro arriscar a vida do que levar o fardo de nunca ter tentado.

CAPÍTULO 11

Rui respirou fundo:
-Bom, eu sou neurologista. Tenho alguns remédios que podem ampliar a capacidade cerebral. Mas o esforço para voltar no tempo vai queimar seu cérebro.
-Mas eu não vou morrer quando chegar no passado?
-Não porque antes do acidente, seu cérebro não estava desenvolvido. E é por conta disso que você não vai se lembrar de tudo. Vou tentar colocar você sob hipnose para poder enviar as informações necessárias para que você impeça Luís.
Minutos depois, Renato estava sentado enquanto Rui preparava uma seringa.
-Se isso não der certo, Renato, saiba que gostei de passar esse tempo com você. Acho que posso chamá-lo de amigo.
-Rui, sua pesquisa nunca será comprovada. – observou Renato.
-Posso viver com isso, Renato. Há outras pesquisas mais interessantes.
-Como o que?
-Eu pensava em pesquisar a capacidade do Weta, um grilo da Nova Zelândia, que pode ser congelado e volta à vida depois de descongelado. Seria ótimo congelar pessoas para viagens longas no espaço.
-Sou biólogo. Acho que eu poderia ajudá-lo na pesquisa. – respondeu Renato.
-Talvez em outra vida. Vamos começar.
Rui começou o processo de hipnose. Logo Renato estava pronto. Recebeu uma dose de remédio.
-Renato, pense profundamente no que deveria fazer para impedir Luís.
-Pensando...
-Pense em tudo que Luís vai fazer e como ele deve ser impedido.
-Sim... impedido...
-Agora use toda sua força para voltar antes do acidente.
Renato começou a tremer. O nariz começou a sangrar. Em seguida, ele caiu no chão e começou a tossir sangue. Logo parou.
-Renato! Acorde! Renato! Acorde!
Mas era impossível. Renato estava morto.

CAPÍTULO 12


-Está pronto, Renato. Vamos embora!
Aquele momento parecia extremamente familiar para Renato. Ele queria caprichar mais, mas sentia que precisava ir embora.
-Vamos. – e levantou-se.
Seu amigo Jorge ia comentando o quanto era ruim trabalhar como faz tudo para o Reitor, mas Renato ia calado. Sentia uma forte dor de cabeça.
Porém, ao passar perto do laboratório de raios gama, olhou direto para a porta. Estava aberta. Novamente aquilo parecia familiar e algo lhe dizia que alguma coisa estava muito errada.
-Jorge, chame a segurança! Tem alguém ali que não podia estar aqui! – pediu quase como num reflexo.
Jorge deu de ombros.
-Como você sabe? E por que se importa?
Mas aquilo era muito forte.
-Jorge, por favor! Isso é muitíssimo importante! Chame o guarda!
Jorge balançou a cabeça.
-Tá bom. Tá bom. Mas ser bom moço...
-...ainda vai acabar comigo. Sei, sei.
Jorge estranhou Renato adivinhar o que ele pensava, mas seguiu pelo corredor para chamar o guarda.
Renato dirigiu-se para a porta do laboratório.
-Quem está aí? – chamou.
Nenhuma resposta. Ele entrou. Viu que a máquina de raios gama estava ligando. O computador de controle tinha alguns papéis do lado.
Foi neste momento que Renato foi golpeado na cabeça, caindo desmaiado.
Enquanto isso, Jorge chegava na portaria. Ali, sozinho, estava um guarda.
-Boa noite, Adalmir. Preciso da sua ajuda. – apresentou-se Jorge.
O segurança sorriu:
-Pois não. Em que posso ajudá-lo?
-Tem alguém no laboratório de raios gama. Parece que é uma pessoa não autorizada.
Adalmir gelou. Todos que entravam na faculdade precisavam se identificar e ele recebera um dinheiro de Luís para não identificá-lo.
-D-deve ser um engano. Ninguém passou por mim.
-Mesmo assim, pode ser que alguém tenha entrado por algum lugar. Venha comigo.
Adalmir não era um homem de muito estudo, nem era um grande pensador. Por isso, sacou a arma do coldre e disse:
-Fique aí, mesmo!
Jorge arregalou os olhos. Renato estava certo: havia algo muito errado ali!

CAPÍTULO 13

O golpe na cabeça de Renato não fora muito forte. Logo ele acordou, amarrado numa cadeira de madeira com fios de energia usados em laboratório.
-O que você está fazendo, Luís? – perguntou Renato.
-Desculpe, Renato, mas preciso fazer essa experiência. – respondeu o assistente de Rui.
-Dejavú? O Rui sabe sobre isso?
Luís parou. Como Renato sabia do plano dele?
-Você sabe que vou estimular a área do cérebro responsável pelo dejavú?
Na verdade, Renato não sabia. Palavras surgiam em sua mente, mas ele mal conseguia entende-las. Mas uma coisa ele sabia: precisava parar Luís a qualquer custo.
-S-sim. Eu vi o futuro e sei que isso não vai ser bom. – disfarçou.
Luís desconfiava:
-Como você sabe?
-No futuro, a pesquisa vai levar à criação de células tronco para a área do cérebro responsável pelo dejavú. Poderemos mandar pensamentos para o passado. – improvisava.
-E por que quer me parar?
-A pesquisa está errada e você vai morrer se tentar fazer o que está pensando.
Luís estava imóvel. Não sabia o que fazer.
Renato não estava com as pernas amarradas. Poderia se jogar em cima de Luís, mas precisava escolher a hora certa.
Enquanto isso, Jorge tentava dialogar com Adalmir.
-Adalmir, você cometeu um erro. Não vá piorá-lo.
-Eu não quero matar ninguém! Mas eu não posso ser despedido!
O segurança não sabia o que fazer agora. Jorge estava preparado para fugir. Só precisava distrair o guarda.
-Eu não vou contar nada. Pegue aquele rádio e chame quem entrou.
Adalmir virou-se rapidamente para olhar o rádio. Foi o necessário para Jorge sair correndo. Adalmir foi atrás, atirando para cima para fazer Jorge parar. Foi um destes tiros que atingiu um transformador, apagando as luzes da escola.
Foi a deixa de Renato. Com as luzes apagadas, atirou-se em cima de Luís, que caiu de cabeça no chão, ficando desacordado.
O som de tiros chamou a polícia. Adalmir, ao perceber que perderia bem mais que o emprego, sumiu na noite. Porém, Luís não teve a mesma sorte. Saiu da escola algemado.
Agora, Renato era um herói.

CAPÍTULO 14

-Estava precisando falar comigo, Reitor? – perguntou Renato.
- Sim, Renato. Gostaria de agradecer-lhe novamente por ter detido Luís. Os pesquisadores informaram que, se a máquina tivesse sido operada, ela poderia pegar fogo e perderíamos anos de pesquisas, além dos prejuízos físicos nos laboratórios.
-Como já disse, eu sempre estou disposto a ajudar.
-Eu tenho percebido como você é leal a esta instituição e às pessoas à sua volta. Por isso, eu gostaria de premiá-lo por ser um bom funcionário. Você terá, à disposição, uma linha de financiamento para uma pesquisa à sua escolha. Você continua dando aulas, mas vai ganhar mais para trabalhar também com pesquisa.
Renato ficou surpreso. Parecia que o mundo não recompensava quem fazia o que era certo. Estava alegremente errado.
-Mas, todos os laboratórios não estão em uso?
-Pode usar o do dr. Rui. A pesquisa dele foi cancelada.
-Mas ele estava envolvido com Luís?
-Não... Luís confessou que era tudo idéia dele e conheço o Rui. Por baixo daquela arrogância toda, ele é uma boa pessoa.
-Reitor, eu não gosto de ver pessoas numa situação ruim. Eu gostaria de utilizá-lo em minha pesquisa.
O reitor estranhou. Ninguém nunca fez um ato de caridade para Rui.
-Tudo bem. Vá falar com ele. Ele está retirando as coisas do laboratório.
Renato seguiu para o laboratório de Rui. Ele já saía com uma caixa de pertences pessoais:
-Vocês são muito pequenos para todo o meu potencial!!!
-Espere, Dr. Rui! Preciso do senhor em minha pesquisa!
O cientista olhou para Renato:
-O quê?
-Eu sou o novo pesquisador desta sala, mas reconheço que o senhor tem um grande potencial para a escola. Gostaria de aproveitá-lo aqui.
Um pouco aborrecido, Rui responde:
-Teria de ser algo pelo qual eu me interesse.
Renato pensou:
-Veja bem: eu sou biólogo e eu gostaria de estudar a capacidade de congelamento do Weta, um grilo da Nova Zelândia que pode ser congelado e descongelado que não morre. Seria interessante tentar aplicar isso em humanos. Uma das possíveis aplicações seria congelar viajantes espaciais até que chegassem a seu destino fora do sistema solar.
Rui levantou a sombrancelha:
-Essa é uma pesquisa que realmente me interessa. Estou dentro.
Entrando de volta no laboratório, Rui perguntou:
-Como você teve essa idéia de pesquisar o Weta?
-Eu não sei. É uma sensação de dejavú...
FIM

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