CHEGADA NO PARAÍSO - CAP 11

O canto do galo e o sol na janela haviam informado a Adam que seu tempo na cama havia se esgotado. Então, preguiçosamente, esticou-se todo e colocou os pés no chão.
Lavou-se com a água deixada  numa bacia de metal mal-acabada de um lado do quarto. O espelho não era menos tosco, mas era suficiente para poder aparar sua barba com a lâmina relativamente afiada que adquirira no povoado.
Foi quando se lembrou: precisava comprar uma nova espada. Sua última quebrara ao ser usada como alavanca improvisada para tirar uma pedra do terreno onde cultivava suas hortaliças. E, naquele mundo, não era prudente sair de casa sem carregar uma arma.
Vestiu seu colete de couro envelhecido e suas calças de mesmo tecido e pôs-se a caminhar em direção ao centro do povoado.
Seu caminho o fazia passar pelas terras dos Mirdofs. A casa ficava próxima à beira da estrada e teve a agradável surpresa em encontrar uma bela mulher, usando um vestido de linho mal-costurado, estendendo as roupas da família.
- Bom dia, Layana!
A mulher, um pouco cansada devido à gravidez, sorriu e fez um esforço para devolver o cumprimento.
- Oi, Adam!
- Parece cansada, Layana. Falta muito para o bebê nascer?
- Ainda tenho 3 meses pela frente.
- E já tem nome?
- Eu e meu marido já decidimos: se for menino, se chamará Peter. Se for menina, Júlia.
- Ah, como era bom aquela época que tínhamos tecnologia para saber e até decidir o sexo da criança...
- Ao contrário, estamos presos neste inferno!
Quem disse isso foi um velho rabugento, usando roupas velhas, num tecido bonito, mas muito gasto.
- Bom dia, senhor Mirdof!
- Não temos dias bons neste planeta, meu jovem. Na verdade, um dia bom é quando sobrevivemos a ele!
- O senhor ainda usa as roupas da Via Láctea. Mas todos os tecidos que trouxemos se deterioraram muito rápido.
- Este aqui também. Nada que trouxemos durou muito neste planeta. Esta roupa ainda consigo usar pois eu a havia adquirido de um mercador alienígena de uma raça de pouca tecnologia. Nossos tecidos avançados com nano-robôs estragaram muito rápido.
- Nossa sorte foi Leonard saber como construir tudo o que temos hoje.
- É... sorte demais na minha opinião...
- O que quer dizer?
Layana explicou:
- Meu pai acha estranho ele saber como construir casas, armas, rocas de fiar, enfim, tudo que é necessário para se viver num ambiente de baixa tecnologia.
- Ele deve ser um bruxo! Só pode ser isso!!! - instigou Donis.
- Layana, como está o pequeno Ralf? - Adam mudou de assunto.
- Terrível! Sabe como são as crianças de dois anos!
- Bom, preciso ir. Até logo!
Adam preferia não dar muita corda para o que Donis tinha a dizer. Quase três anos atrás, ambos quase foram pegos numa situação constrangedora ao lado do anão morto. Poderiam ter sido acusados pela morte daquela criatura, mas ninguém os viu. Desde então, o poderoso senhor Mirdof foi perdendo sua credibilidade e acabou sendo afastado do grupo que tomava as decisões importantes. Deram à família Mirdof uma bela terra, mas longe o suficiente do povoado para isolá-la. Donis não gostou, mas Layana e seu marido aceitaram rapidamente a oferta.
O centro do povoado não era bem uma cidade. Um amontoado de casas próximas com ruas de terra, mas razoavelmente ordenadas. A construção se deu sob a tutela de Leonard e Barog Kintê. O capitão agora comandava a cidade como seu prefeito.
Adam chegou à rua dos comerciantes, onde ambulantes montavam suas bancadas numa grande feira livre. Ao chegar na banca do vendedor de espadas, deparou-se com uma bela mulher ao lado de duas crianças que estavam na bancada ao lado, comprando prataria.
- Senhorita Maruska! Não a vejo faz muito tempo!
- Oi, Adam! Estou comprando talheres para a casa do vice-prefeito Leonard.
- Você? Eu pensava que seu trabalho era apenas cantar na taverna à noite.
- Verdade. A música é uma das minhas paixões, mas paga pouco. E como uma técnica de informática como eu não tem serviço neste mundo, de dia eu trabalho como copeira e babá na casa do vice-prefeito.
- Estes são os filhos dele?
- Ah, não. O mais novo é Enod, o filho dele. O mocinho de quatro anos é o meu filho Zórus.
- Falta muito pra chegar em casa, mãe? - reclamou o mais velho.
- Logo chegaremos, Zórus. Espere só mais um pouquinho.
- Foi bom revê-la. Maruska. Mande um abraço para o Leonard por mim. Desde que eu deixei o pelotão, não o vi mais.
- Pode deixar.
Adam voltou-se para as espadas na barraca. Começou a examiná-las. Pegou uma e começou a observar. Curiosamente, Leonard soube ensinar melhor aos ferreiros como construir armas do que qualquer outra coisa. Os machados eram especialmente melhores que as outras coisas.
- O senhor vai querer fazer uma troca, ou irá usar dinheiro? - perguntou o vendedor.
- Vou usar moedas. Acho o escambo um pouco complicado.
- Mestre Leonard foi sábio em criar este meio de trocas.
- E esperto. Só a prefeitura pode cunhar essas moedas.
Neste momento, deu-se início a um tumulto na feira. Um homem vestido com trapos passou correndo. Logo atrás vinha o Capitão da Guarda Yusuke Amaranto.
- Segurem este bruxo! - gritava o capitão.
Mencionar a palavra bruxo sempre causava medo a todos, o que levava a todos se afastarem. O bruxo, tentando se afastar, lançou uma bola composta de uma energia púrpura com traços negros na população. Gritos de horror ensurdecedores tomaram o ambiente.
Adam pegou um arco na bancada e uma flecha. Por um momento, ele teve uma linha de tiro livre para atingir o feiticeiro. Não pensou duas vezes. Lançou a flecha, que foi cravada nas costas do perseguido, fazendo-o cair morto no chão.
O tumulto começou a cessar. Amaranto não parou para agradecer a ajuda, procurando ir direto ver se o homem que ele perseguia já estava morto.
Foi quando Adam identificou um dos gritos na multidão. Era Maruska! Da mesma forma, o capitão também percebeu e ambos correram na direção.
O que o ex-soldado viu perturbou profundamente o seu coração. Enod e Zórus foram as vítimas daquela bola de energia e agora, não eram mais crianças de 2 e 4 anos. Num piscar de olhos, haviam envelhecido 5 anos!



0 comentários:

Postar um comentário

ANTES DE COMENTAR:

- não escreva em CAIXA ALTA;
- não divulgue links;
- não escreva com miguxês, internetês e similares;
- respeite as opiniões apresentadas.

Obrigado.

 
T.E.C. © 2010 | Designed by Trucks, in collaboration with MW3, Broadway Tickets, and Distubed Tour | Customized by Sybylla