CHEGADA NO PARAÍSO - CAP 10

O clima era tenso. O dia começava a se levantar, acordando a todos após um período curto de sono, de cerca de 4 horas. Leonard levara a todos madruga adentro, mas parecia ser o mais seguro a ser feito naquele planeta que destilava o medo.
Porém, daquela vez, o próprio Donis Mirdoff foi ter com o líder aclamado por W.O.
- Em que posso ajudá-lo, senhor Mirdoff?
- Acho que chegamos a um local onde podemos parar, não é? - perguntou, não como se estivesse em dúvida, mas em tom afirmativo.
Leonard entendeu a mensagem. Olhou em volta e depois para Amaranto. Este começou um relatório.
- Estamos em posição relativamente alta em relação aos terrenos em volta. Há um rio parrando por aqui, uma montanha que pode nos oferecer minerais e pedras para construirmos casas, além de um pequeno bosque próximo.
- Sim, senhor Mirdoff. Nós chegamos.

Mirdoff virou-se para voltar à sua sala.
- Lembre-se: não pode sobrar nenhum inimigo!
- Sim, senhor Acalantus.
Donis deixou a sala de William Acalantus, homem de idade avançada, dono do planeta Rikker 4. Um raça alienígena, Há pouco descoberta, tentava impor seu domínio ao planeta, mas os sistemas de defesa davam conta de rechaçar o ataque inimigo e, encabeçando o sistema de defesa, estava Donis Mirdoff, um jovem engenheiro militar recém formado, mas muito eficiente.
Em seu painel, conseguia ter acesso à localização de veículos e naves no planeta e, com o mover de dedos, conseguia impor sua estratégia àquele jogo real.
- Estes aliens sem cérebro! Mal conseguem impor domínio sobre seu planeta e agora acham que podem conquistar este? Nem preciso de estratégias muito elaboradas para vencê-los... – gabava-se Donis.
Em pouco menos de uma hora, Donis havia destroçado o ataque inimigo. Podia descansar mais cedo. Só era preciso falar com seu chefe, algo que ele podia fazer via comunicador, mas ele já conhecia bem o velho e sabia que já podia começar a sair.
Foi à sala de Acalantus para pedir sua folga, mas teve uma surpresa: seu chefe estava caído sobre a mesa.
- O que está acontecendo?
- Eu não sei, senhor, Mirdoff. Só sei que Leonard quer falar com o senhor. – disse Adam.
Donis repousava embaixo de uma árvore, sob sua sombra. Levantou-se com certa dificuldade devido à idade, mas não teve maiores problemas.
Quando chegou, estavam juntos o tenente Amaranto e o capitão Kintê.
- Finalmente me chamam para uma de suas reuniões de liderança, senhores. – comentou o idealizador do projeto.
- Senhor, até agora tomamos providências de cunho imediato. Agora, gostaríamos de participasse pois vamos tomar decisões de longo prazo. – explicou Leonard.
- Tudo bem. Do que se trata?
Leonard apontou para a criatura capturada há alguns dias. A expressão daquele ser se mantinha raivosa, mas parecia muito cansado. Cássia olhava fixamente para ele, enquanto este desviava o olhar.
- Minha esposa extraiu informações importantes daquele ser.
- O “anão”? No que ele pode nos ajudar?
- Não muita coisa ainda. Somente sabemos que há vários deles de onde veio e que, talvez, encontremos mais deles em outras cavernas que encontrarmos. – começou o capitão.
- Mas minha esposa está trabalhando para extrair informações úteis para nós que estamos totalmente sem tecnologia. Informações como metalurgia e como e onde escavar para obter minérios. – explicou Leonard.
- Sua esposa? – estranhou Donis.
- Sim. Parece que a habilidade de psicóloga dela está fazendo com que o anão nos entregue o que precisemos.
Donis voltou a olhar para o anão e Cássia, que estavam mais afastados. Era difícil acreditar que a criatura estivesse confiando naquela mulher. Não. Havia algo errado ali.
- Talvez eu pudesse falar com ele. Já disse que conheço bem as pessoas.
- Senhor, “aquilo” não é uma pessoa.
- Leonard, quero falar com ele. – impôs sua voz.
- Senhor, com todo o respeito, não tem mais autoridade aqui. Seu dinheiro e seu status não valem coisa alguma aqui.
- O senhor Acalantus não pode receber visitas.
- Enfermeira, ele próprio me convocou. Ele é o dono deste hospital. – respondeu o jovem Donis Mirdoff.
Logo a enfermeira recebeu um chamado em seu visor. Ela mudou a postura.
- Recebi uma ordem da direção. O senhor pode entrar, mas não fique mais do que dez minutos.
O quarto de Acalantus não era muito diferente de uma suíte num hotel luxuoso. A diferença eram as máquinas que o mantinham vivo.
- Seja bem-vindo, Donis. – cumprimentou o velho.
- Parece que não será desta vez que o senhor irá nos deixar. – respondeu Donis com empatia.
- Soube que foi você quem chamou os paramédicos.
- Por sorte eu passava por ali. Por que os sensores da sala não informaram sua condição?
Acalantus sorriu.
- Ora, Donis, eu sei que você conhece bem as pessoas. De certo sabe que eu não tenho muita saúde e não deixaria de ser monitorado por causa disso.
- Bem... é verdade. Alguém está querendo sua morte?
- Nada tão dramático. É só o vírus Lopitch.
- Lopitch? Aquele que se adere ao código genético? Que não tem cura???
- Esse mesmo. Ele causa desgaste rápido nos órgãos do corpo. E ainda mais rápido se a pessoa permanecer em ambiente com grande radiação de sensores.
- Hum... agora entendo.
- Na verdade, não devo estar sobrevivendo a esta noite, assim, decidi chamá-lo agora. Desejo informar-lhe sobre o meu testamento.
- Quer me contar quem será meu próximo chefe?
- Sim. Será você mesmo.
- Eu??? – respondeu Mirdoff surpreso.
- Sim. O planeta e tudo o que nele há é seu.
- Mas... por que me escolheu?
- Não tenho filhos, Donis. E, você, é o único que conheço que tem capacidade para manter vivo o meu legado, pois é um ótimo estrategista e conhece bem as pessoas. Multiplicará o que está ganhando por toda a galáxia. Seu poder sobre a humanidade será respeitável.
Mirdoff voltara a repousar sob a árvore onde estava. Continuava pensativo.
Enquanto isso, havia uma mobilização geral. Alaústre e outras pessoas carregavam pedras retiradas da montanha, enquanto Xandro ajudava alguns a buscar alimentos. Amarantus ajudava na segurança.
Ao final da tarde, Adam foi até Donis.
- O senhor está bem? Sua filha está preocupada.
- O que vocês estão fazendo?
- O senhor Leonard está improvisando uma fornalha para derretermos metal e criar instrumentos que venham a nos ajudar. Outros estão derrubando árvores usando machados improvisados de pedra lascada.
- Parece que voltamos à pré-história. E vai demorar para conseguir alguma “panela” que nos ajude a derreter os metais.
- Nem tanto. O senhor Alaútre encontrou uma grande pedra no formato próximo ao do que precisamos. Coitado: parecia exausto quando encontrou.
- Mas como Leonard obteve informações de como construir estas coisas? A tecnologia humana está tão desenvolvida que este conhecimento todo se perdeu.
- Parece que foi com o “anão”...
- O anão... É verdade... Sabe, Adam, eu sempre achei você um sujeito muito digno. Mais digno que meu genro...
- O que quer dizer, senhor?
- Eu observo as pessoas, sabe? E eu vi como olha para minha filha. No fundo, sei que tem um carinho especial por ela...
Adam ficou rubro. Não sabia o que dizer. Então Donis prosseguiu.
- Não se preocupe. Este será o nosso segredo. Mas eu gostaria que retribuísse este favor...
- Como, senhor?
- Desejo falar alguns minutos com aquele anão. Pode me ajudar?
Adam ficou pensativo.
- Eu vou pensar em alguma coisa. Pode me dar algum tempo?
- O tempo da humanidade está acabando, senhor Mirdoff.
- Me parece certo disso, Presidente Kevin.
- A humanidade, desde a Primeira Grande Guerra Espacial, ficou xenófoba. E nossos vizinhos da galáxia percebem isso. Se todos eles se unissem, poderiam acabar com o Império Humano, por mais bem preparado que este esteja.
- Fala como um xenófobo, presidente.
- Acha que não gosto de alienígenas? Está certo. Não confio muito neles.
- Nenhum humano confia muito. Mas damos mostras de amizade para um bom relacionamento.
- Então o senhor entende o que quero dizer.
- Entendo. Mas o que não entendo é porque, exatamente, estou aqui.
- O senhor tem seu próprio império, senhor Mirdoff. Começou em Rikker 4, mas, ao longo dos anos, conseguiu comprar uma dúzia de planetas. Seu poder comercial lhe deu significativo poder na Balança de Comércio Galáctico. Assim, acredito que possa nos ajudar.
- Como?
- Acho que a humanidade começou com o pé esquerdo na Via Láctea, mas talvez possamos começar bem se formos para outra galáxia, o que também pode assegurar a continuação da espécie humana caso ocorra algo por aqui.
- É uma viagem muito longa até a galáxia mais próxima, que é Andrômeda. Se não soubermos para onde ir lá, podemos criar outra antipatia com os seres nativos ou, pior, podemos não achar um planeta para colonizar e morrer procurando. Mas se o senhor me chamou aqui, é porque já sabe para onde devemos ir, estou certo?
- Quase. Sei quem pode lhe dar a informação: os Briees: a única raça em nossa galáxia que já viajou por outras.
- Os Briees??? Eles são muito restritos sobre o compartilhamento de seus conhecimentos.
- E é por isso que precisamos do senhor. O governo Humano não pode se envolver, diretamente, numa missão para roubar informações deles.
- E é por isso que o senhor quer que um humano ambicioso como eu roube o que precisamos, certo?
- Isso mesmo.
- Eu aceito o seu desafio.
- Senhor Mirdoff, já tenho um plano.
- Pode falar, Adam.
- O anão está sendo mantido longe das vistas de todos, mas Amaranto está montando a guarda para cuidar do anão. Posso pegar o turno da madrugada e o senhor poderá ir vê-lo.
- Perfeito. Aguardarei acordado.
- Pode deixar, senhor. Hoje ainda os dados que recolhermos do computador da nave do Briee estarão em suas mãos.
Era um plano arriscado: Donis Mirdoff  iria doar um artefato de uma civilização já extinta a um Briee e, em troca, desejava conversar sobre o próprio alienígena e, no que fosse possível, sobre sua cultura. Mirdoff seria escoltado por um grupo de seguranças que, na verdade iriam roubar as informações do computador da nave. Um grampo eletrônico implantado em um terminal possibilitaria o acesso por um curto período de tempo antes de ser bloqueado.
O encontro se deu em órbita de um dos planetas da propriedade de Mirdoff. Assim que as naves se acoplaram, um grande alienígena de olhos grandes e pele cinzenta os encontrou.
- Meu nome é Panov. Sou o responsável por mapear a cultura e a história deste setor da galáxia.
- Eu sou Donis Mirdoff e estes são os seguranças que me escoltam.
- O senhor não precisa se preocupar aqui. Estou sozinho e não tenho intenções hostis.
- Mero protocolo, Panov. Faz parte de minha cultura.
- Interessante. Acho que sabe que se eu quisesse um confronto, estes seguranças não o ajudariam. Embora sua tecnologia esteja chegando perto da nossa, nossos sistemas poderiam dar conta de qualquer ato hostil.
- Como eu disse: mero protocolo.
- Então, onde está seu artefato?
- Nesta valise. O encontramos quando comecei a colonizar este planeta.
- Vai nos ajudar muito. Quando a equipe a qual faço parte chegou a esta galáxia, os Golinos, que viviam neste planeta, já estavam à beira da extinção. Não pudemos estudá-los mais profundamente.
- Bom, pode nos apresentar sua nave?
- Ah, sim. Faz parte da cortesia de um anfitrião humano mostrar o lugar onde vive. Podem me seguir.
Enquanto o Briee apresentava os salões de sua nave, disfarçadamente, um dos agentes implantou o grampo eletrônico. Quando a visita terminou, Donis pediu:
- Por favor, gostaria de fazermos nossa troca na sala de conferência. Em negócios, costumamos usar salas que chamamos de “escritório”. Sua sala de conferência é a mais próxima disso pelo que vi.
- Perfeitamente. Venha.
Ao chegarem à sala, Donis disse:
- Deixarei meus seguranças aqui. Gostaria de manter sigilo sobre nossa conversa e não quero que mais ninguém nos ouça.
O Briee concordou, embora não soubesse bem que vantagem Donis Mirdoff poderia ter com a conversa que teriam.
A sala de conferência era um tanto pequena. Uma mesa oval com painéis holográficos davam a impressão de outras pessoas presentes, mas não muitas. Mirdoff sentou-se e o Briee também. Abriu sua valise e mostrou o artefato ao alienígena.
- Maravilhoso... – observou o Briee encantado por uma estatueta dourada com inscrições desconhecidas.
- Sabe o que diz aí?
- Vagamente... “deus Oden, senhor da natureza”...
- Bom, vamos ao que pedi. Fale-me de você.
- Bom, sou um Briee. Nasci há cerca de 4500 anos, pelo sua medida terrestre. Registro a cultura e história neste setor da galáxia.
- E como você nasceu?
- Bom, nós não seguimos o conceito de macho e fêmea com o qual está acostumado. Costumamos usar a Clonagem Diversificada.
- E como é isso?
- Com amostras de células de todo o meu povo, criamos um DNA Briee aleatoriamente e, depois o desenvolvemos como um óvulo.
- Mas nem sempre foi assim, certo? Um dia os Briees já se reproduziram sem máquinas para fazer isso.
- Está certo. Mas esta informação está há muito no passado. E não posso compartilhá-la com outro alienígena como você.
- E sua tecnologia? Ela continua avançando?
- Há milhares anos que não criamos nada. Já chegamos a um patamar aceitável.
- Você quer dizer seu povo nesta galáxia, ou nas outras também?
- Não posso dizer.
- Bom, como foi sua infância? Ou vocês já nascem adultos?
- De forma alguma. Nos primeiros 100 anos somos menores que os humanos.
- E o que vocês fazem quando são crianças?
- Diria imaturos. Nós viajamos pela galáxia para aprender conceitos básicos. Às vezes somos capturados pelas raças que observamos.
- Hum... se não me engano houve um caso em que documentaram em vídeo a dissecação de um alienígena parecido com você, mas menor. Era uma de suas crianças?
- Prefiro não responder.
Um dispositivo vibrou na cintura de Donis. Era uma maneira discreta de avisar que a missão estava cumprida.
- Está me fazendo perder tempo com tantos rodeios. Esperava mais de você. – disfarçou.
- Eu lhe avisei que não poderia dar muitas informações.
- Então terminamos nossa conversa agora. Tenha um bom dia.
- Boa noite, senhor Mirdoff.
- Podemos ir, Adam?
- Sim. Venha.
Donis Mirdoff estava animado. Talvez ele conseguisse, finalmente, desvendar os mistérios daquele planeta.
Ele lembrava bem de quando recebeu os informes de seus agentes.
- Aqui está, senhor Mirdoff. Infelizmente não é muito. – disse o chefe da equipe com um armazenador holográfico em sua mão.
- Excelente! Vamos ver o que você conseguiu.
O armazenador começou a mostrar um sistema planetário com uma estrela amarela em seu centro.
- Este é um sistema estelar nas coordenadas 123-6-4487. Como pode ver, é um sistema de uma estrela só, quase do tamanho do Sol. Neste sistema, a uma distância parecida com a da Terra, está o planeta que os Briees chamam de “Paraíso”.
- “Paraíso”? Parece promissor.
- E é. A composição da atmosfera é quase igual à atmosfera terrestre. Foi colonizado por um povo chamado de “Merecedores”.
-“Merecedores”? Tem idéia do porquê?
- Tinha a ver com a religião deles, mas foi aí que começamos a perder nosso grampo. Sabemos apenas quem vivia lá recebeu um chamado do seu povo e deixou o planeta. E nunca mais voltou. E já teriam se passado mais de mil anos quando foi feito este registro.
- E tem idéia por que o planeta se chama “Paraíso”?
- Tem a ver com a biosfera única do planeta. Infelizmente isso é tudo.
- Para mim é suficiente. Precisamos começar a organizar uma expedição, começando pelo melhor especialista em biosfera alienígena da humanidade.
- Por que o melhor especialista?
- Vamos para outra galáxia. Se vamos colonizar outro mundo, precisaremos conhecê-lo bem e, pelo que você me relatou, a biosfera é nosso principal trunfo. Precisamos descobrir os seus segredos.
Donis e Mirdoff seguiram por uma pequena trilha na montanha. Logo encontrariam o anão.
- Senhor, desculpe a curiosidade, mas o que pretende perguntar a ele?
- Eu não sei. Vou conhecê-lo primeiro e tirar dele toda a informação que eu puder.
O anão repousava amarrado sobre um arbusto. Ele parecia muito quieto. Quieto até demais.
- Oh, não! – disse Adam.
O sangue que escorria pelos olhos molhava a barba. Porém uma coisa era certa: o anão havia morrido.

FIM DA PRIMEIRA PARTE
A SEGUNDA PARTE DO CONTO CONTINUA EM 27/10

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