CHEGADA NO PARAÍSO - CAP 5

As equipes de sobrevivência começaram a sair da nave. À frente estava Roger, o membro da tripulação melhor treinado para a tarefa.
O local do planeta onde haviam pousado começava, agora, a receber os primeiros raios de sol. O cenário era bastante curioso: Não havia uma planta parecida com grama. Aqui e ali havia algumas poucas moitas de cor verde-musgo de plantas alienígenas desconhecidas. Porém, A quase totalidade do cenário era povoado por plantas brancas, de folhas esféricas. Eram moitas e árvores assim até onde a vista alcançava.
- Senhor, acho que devemos buscar por plantas que podemos consumir. - disse Leonard, aproximando-se de Roger.
- Na verdade, temos muito alimento na nave. Temos coisas mais urgentes agora.
- Como o quê?
- Há mais de vinte mil pessoas mortas na nave. Precisamos dar fim aos corpos ou todos poderemos contrair doenças. E não temos nem idéia de como tratar as doenças deste planeta...
- Cavar uma cova coletiva pra tanta gente??? - surpreendeu-se o subalterno.
Nisso, o soldado Adam surgiu:
- Talvez não seja preciso: atrás da nave há um penhasco entre nós e uma cordilheira alta de montanhas. Eu vi quando caíamos.
- Excelente idéia, Adam. Você e Leonard organizem uma equipe para jogar os cadáveres.
Leonard concordou emburrado. Adam levantou uma questão:
- Senhor, eu sei que a maioria de nós é ateu, mas ainda há aqueles que seguem alguma religião. Isso não pode ser ofensivo?
- Deixe aqueles com familiares vivos por último. Vamos organizar um culto ecumênico com eles enquanto uma equipe começa a jogar os outros corpos no penhasco.
- Posso organizar o culto, senhor? - pediu Leonard mais interessado.
- Pode. Adam, organize uma equipe de cinquenta voluntários e façam uma fila para transportar os corpos até onde jogaremos os mortos. Chame o capitão para ajudar na triagem dos corpos.
- E o senhor? - perguntou Adam.
- Vou... organizar uma equipe para salvar o que pudermos da nave. - disse entrando.
Há mais de 200 anos, na Terra, uma mãe terminava de descrever os sintomas.
- ... e desde que voltamos do planeta Móbilos, no setor vizinho à Nébula da Alma, meu filho está recolhido e irritadiço.
O médico, um profissional respeitado de cabelos loiros, com fios esbranquiçados (que ele deixava assim por uma certa vaidade por carregar cabelos brancos), deu seu veredicto:
- A Nébula da Alma, por muito tempo, foi o lar dos Malgajas, uma raça sombria, inimiga da humanidade. Acredito que seu planeta tenha sido um dos que foram contaminados pela peste Ombro, que leva as pessoas a um comportamento crônico de paranóia.
- Mas existe cura, não é doutor?
O médico respirou fundo antes de responder.
- Por incrível que pareça, esta peste não foi completamente desvendada ainda. Mas há tratamento. - e começou a manipular seu computador holográfico.
- Tratamento?
Mal terminou de perguntar, um vidro de remédio saiu de dentro da mesa do médico, juntamente com um cartão.
- Ele só precisa tomar um comprimido destes por dia. Quando o remédio acabar, basta inserir este cartão-receita em seu sintetizador de alimentos para produzir outro vidro de remédios.
- Obrigada, doutor. Mas existe alguma previsão para a cura completa?
- Ainda não. Como a doença é rara, os esforços atuais da medicina estão voltados para doenças que temos encontrado nas novas colônias. Mas este remédio não tem contra-indicações e ele terá uma vida normal enquanto o tomar.
A mãe ficou um pouco desanimada. Olhou para o filho, encolhido na cadeira ao lado. Pegou a criança pela mão e despediu-se do médico.
- Obrigada, mais uma vez. Vamos, Roger.
Roger fazia uma busca frenética pela cabine onde viajara com sua mulher e sogro. Ele já sabia que seus remédios haviam se esgotado e que ele deixara para os repor assim que chegasse ao planeta, mas ele tinha esperança de que ainda houvesse algum comprimido perdido entre seus pertences.
Ele não podia deixar que a doença o dominasse. Não vivendo tão perto do sogro.
Ele ainda se lembrava do dia em que conheceu seu algoz. Layana pediu para que ele fosse à sua mansão num dia em que seria programada uma bela tarde ensolarada com um vento refrescante.
Infelizmente, neste dia, o Sistema de Controle do Clima havia dado defeito e entrado em manutenção e, justo naquele dia, caiu uma chuva pesada.
Quando chegou na mansão, estava ensopado. Layana viu e ofereceu uma toalha.
- Quem está aí, Layana?
- É o meu namorado, pai!
- Mande-o vir aqui na sala de estar. Quero conhecer este homem.
Layana ficou sem saber o que fazer. Trazia a toalha ou conduzia Roger até seu pai. A decisão foi tomada pelo próprio namorado.
- Vamos, Layana. Seu pai não parece ser um homem que gosta de esperar.
Roger foi pingando da entrada até a sala, molhando o tapete de Promed, uma rara e cara decoração, uma vez que este animal gigantesco já estava extinto.
Donis olhou tudo. Inclusive a mão molhada de seu futuro genro, que a estendeu num gesto amigável de cumprimento.
- Layana, traga uma toalha para colocar na poltrona, para seu namorado se sentar. - pediu o pai, sem retribuir o cumprimento.
Os sessenta segundos seguintes foram de puro silêncio, enquanto o milionário observava, de cima a baixo, o seu visitante.
Finalmente Layana trouxe a toalha. Roger se enxugou rapidamente, ficando completamente seco graças à tecnologia de ultra absorção.
- Parece-me que você não é um homem muito prevenido...
- Haviam marcado tempo bom hoje, mas não fiquei sabendo que o sistema seria desligado para manutenção hoje.
- Mal informado, então. - concluiu o homem.
- Na verdade, eu estava fazendo um curso de sobrevivência, que é o meu trabalho. Cheguei no planeta hoje cedo e não tive tempo de me informar sobre essa manutenção. - Roger tentou se defender.
- Então você quer levar a minha filha para morar em algum local inóspito.
- Papai! - protestou Layana.
- Meu jovem, eu tenho um olhar muito bom para negócios, mas ele é ainda melhor para pessoas. E eu não vejo um grande futuro para você e minha Layana.
Roger já encontrara seu cartão-receita e agora passava desesperadamente pelo sintetizador de alimentos na cabine. Era inútil. Nenhum aparelho na nave funcionava mais.
Num ato de fúria e desespero, ele socou a máquina e algo insperado ocorreu: ela explodiu em chamas!
Roger foi jogado para trás, para perto da cama. Não se machucou. Mas, de repente, a cama também pegou fogo!
Roger saiu gritando da cabine. Por onde passava, objetos combustíveis se incendiavam.
- Pare, Roger!!!
Aquela voz chamou o homem de volta à realidade.
- Layana?
Roger ainda se lembrava da primeira vez em que ela lhe fizera voltar a si. Ele estava deprimido com o encontro com Donis, Roger parou de tomar seus remédios. Com isso, ele se trancou em casa por vários dias. A paranoia havia tomado conta: Ele não comia ou bebia nada há dois dias, com medo de ingerir algo envenenado, quando surgiu uma visita em sua porta.
- Roger! Deixe-me entrar!
Naquele estado, ele nunca deixaria ninguém entrar. Porém, a certeza se transformou em dúvida naquele momento.
- Roger! Por favor! Deixe-me entrar! Eu te amo!!!
A voz para dar permissão não saía. A mão que podia acionar os portões estava trêmula e não conseguia avançar.
- Lembra de quando eu descobri, sem querer, os seus remédios? Lembra do que eu disse?
A recordação era vívida:
- "Se um dia você ficar sem seu remédio..."
- ...eu serei o seu remédio!
E a porta da frente se abriu.
- Roger!
Layana segurava Roger, sem perceber os focos de incêndio deixados atrás dele. Ele, aos poucos, voltava a si.
- Layana! Meus remédios...
- Eu sei. Eu sei. Mas vamos superar isso. Você sempre se superou. Lembra do dia da convocação?
Roger respirou fundo se acalmando e abrindo um sorriso.
- Seu pai teve que engolir o meu nome pois eu era o melhor profissional em sobrevivência.
- Isso mesmo. - e deu um forte abraço.
Leonard já coordenava os eclesiásticos para o culto ecumênico quando Layana e Roger chegaram.
- Está tudo dentro do planejado, senhor! - cumprimentou o subalterno.
- Leonard, a partir de agora você estará à frente da equipe de sobrevivência. Eu estou me retirando.
Foi impossível disfarçar o sorriso de Leonard, mas este tentou com todas as forças.
- Senhor, o senhor está bem?
- Estou, mas vi que não estou apto para este serviço. Preciso me concentrar em minha família, pois é isso o mais importante agora.
- Pode deixar, senhor! Eu cuidarei de tudo!!!
Ao se afastarem, Layana perguntou:
- Tem certeza disso, querido?
- Agora que estou sem meu remédio, preciso me distanciar de todos, ficar apenas com quem confio e pode cuidar de mim.
- Mas e meu pai?
- Ele sempre vai me achar inútil de uma forma ou de outra.
- Entendo...
- E depois, isso é o que Leonard sempre sonhou.
De fato. Leonard sorria como uma criança no natal, embora seu sorriso parecesse maligno.

CONTINUA

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