CHEGADA NO PARAÍSO - CAP 3

Catarina acordou assustada com uma voz que ela odiava escutar:
- Bom dia, minha querida esposa.
Lá estava ele, um homem relativamente pequeno, com musculatura bem definida, usando apenas as calças de seu pijama de cetim: Leonard, seu marido.
- Bom dia, querido. - respondeu com a dissimulação habitual.
- Hoje será um dia fantástico! Finalmente chegaremos ao planeta Paradizo!
Catarina ainda se lembrava bem da primeira vez que ouvira o nome.
Foi durante uma conferência secreta convocada por Donis Mirdoff, um riquíssimo magnata com investimentos em todas as áreas do comércio interestelar. Ele mesmo havia buscado um grupo pequeno de 20 profissionais de sua confiança. Catarina era uma destas pessoas.
- Há cerca de 20 dias, enviei uma equipe com fins de fechar algum acordo comercial com um dos membros da raça dos Briees. Como todos vocês sabem, eles não são nativos desta galáxia, mas seu estilo de vida é estudar a cultura dos povos das galáxias por onde eles passam.
  Recentemente soubemos que eles já haviam passado pela galáxia de Andrômeda, que é a mais próxima de nós. Entretanto, faz parte da política deles não dividir esta informação, mesmo os humanos sendo seus aliados desde a guerra contra os Norgors.
   Porém, nós humanos somos uma raça de exploradores, assim, enviei uma equipe com o objetivo de fechar acordos comerciais na área da divulgação da história e cultura humana e de outros povos os quais nós entrássemos em contato. Tudo uma armação. A equipe foi, secretamente, extrair informações sobre Andrômeda.
   Tivemos de ser muito rápidos, por isso não pudemos obter muitas informações. Mas as que tivemos já valeram por todo esforço. - e parou para beber um copo d'água.
Os convidados tinham sua atenção mais voltada para o palestrante. A curiosidade era intensa. Catarina, por outro lado, mantinha-se calma.
- Os agentes procuraram por planetas compatíveis com a raça humana por onde poderíamos começar a colonização dessa galáxia. O primeiro planeta a surgir, os próprios Briees chamam, na língua deles, de Paraíso. Por isso, batizei o planeta como Paradizo, que tem o mesmo significado em nossa língua, o Esperanto II.
- Por que os Briees chamam o planeta de Paraíso? - perguntou um dos convidados.
- Isso não tivemos tempo de apurar. Sabemos apenas que é o planeta mais próximo das condições da Terra nessa galáxia.
- O planeta já não tem seus próprios moradores? - perguntou Catarina, cética.
- Curiosamente, não. Os registros dos Briees apontam que a raça que viveu lá deixou o planeta por conta de uma guerra interestelar e foi completamente dizimada. Essa é a única informação que temos.
A palestra terminou com a distribuição de fichas eletrônicas a serem preenchidas por quem tivesse interesse em participar da expedição que iria colonizar o planeta. Enquanto Catarina pensava no que fazer, passou por um bioquímico que insistia em não participar da expedição. Tal ato chamou a atenção da psicóloga por um instante.
- Que coisa, não? Eu faria de tudo para participar.
A voz, que Catarina escutou, pertencia a um homem de baixa estatura, mas de respeitável porte físico. Seus olhos eram de um verde intenso e muito abertos.
- O senhor é convidado? - surpreendeu-se com o homem.
- Mas é claro! Se não, não poderia participar da palestra, não é?
- Então porque não recebeu convite?
- O que importa é o convite que eu faço: gostaria de jantar comigo?
Catarina surpreendeu-se com a ousadia do homenzinho. Porém, ele exalava certa sensualidade. E o fraco da psicóloga era por homens.
- Talvez. Por que não saímos daqui para conversar?
O casal já havia se arrumado. Leonard já estava deixando o quarto quando perguntou:
- E o nosso filho?
- Está bem.
- Então vou para a sala de treinamento. Vejo você quando pousarmos.
Uma das coisas que Catarina mais evitava era ter filhos. Gostava de sua liberdade. Mas todas as mulheres que entrassem na expedição tinham que reverter a esterelidade (o que é padrão em todos os seres humanos) e formarem famílias, um pré-requisito para uma colonização bem-sucedida.
Mas algo fez ela mudar de idéia. Certo dia, quando caminhava pelo campus da universidade onde trabalhava, uma lata de lixo explodiu perto dela. Assustada, ela correu até sua sala. Na mesa, uma transmissão aguardava a sua chegada. Ela ativou e viu um rosto conhecido na imagem holográfica projetada acima da mesa:
- Catarina, agora sei onde você trabalha. Vamos ficar juntos!
Era o embaixador Halantos, dos Herpantis, uma raça um pouco parecida com a humana, com a diferença da pele escamosa cinzenta, olhos com fundo amarelado, orelhas pequenas, sem pêlos e nariz arredondado.
A luxúria da moça achou que seria uma boa idéia experimentar algo exótico e, por isso, ela teve um caso com o embaixador. O que ela não imaginava era como esta raça tinha fixação em fêmeas. Por isso ela havia desaparecido. O problema agora era que o alienígena o achara, e com sua imunidade legal, talvez fosse difícil se livrar dele sem um problema diplomático.
Foi neste momento que uma voz conhecida surgiu na porta.
- Catarina! Aqui é o Leonard!
Ela precisava ver um rosto amigo, mesmo que fosse o de um ex-amante. Por isso o deixou entrar.
- Está tudo bem com você? - perguntou o rapaz.
A moça então contou-lhe pelo que passara.
- Sabe, você deveria sumir da vista desse sujeito.
- Não dá certo. Se ele já me encontrou uma vez, vai encontrar de novo.
- Mas ele vai conseguir encontrar você em Andrômeda?
A moça lembrou-se então de seu convite.
- É verdade. Eu recebi o convite. Mas formar uma família? Quem seria meu marido? E, pior, passar por uma gravidez? Perder meu belo corpo?
- Bom, se for pra ser apenas um marido no papel, eu poderia ser. Tenho muito interesse em seguir nessa expedição. E quanto à gravidez, acho que tenho uma solução que lhe agradará.
- Parece distante, doutora.
Catarina voltou a si. À sua frente estava Barog Kintê, um homem de pele negra e careca.
- Desculpe, Capitão. Eu estava distraída. Em que posso ajudá-lo?
- Eu só vim convidá-la para estar na ponte no momento que aterrisarmos. Gostaria que todos os membros da equipe sênior estivesse lá quando isso acontecesse.
- Já estou indo.
O capitão saiu. Catarina revisou alguns pacientes. Levantou-se e começou a caminhar em direção ao quarto. Queria revisar sua maquiagem de forma a estar linda para a ocasião.
Ao entrar, deu de cara com o computador pessoal de mão de Leonard. Este o havia esquecido em cima da cômoda.
Ela pegou o aparelho e novas lembranças começaram a preencher sua mente.
O casamento já havia ocorrido a pouco mais de uma semana, e Catarina já se encontrava em Rikker 4. Certa manhã, ela percebera que Leonard havia esquecido tal aparelho em cima da cama. Como gesto de boa vontade, ela o pegou para levar a seu marido. Porém, foi neste momento que ela teve a maior das surpresas: um email do embaixador Halantos.
Sem saber o que pensar, ela correu com o aparelho para a sala de treinamento de sobrevivência. Ali se encontrava seu homem.
- Professor Roger, pode me deixar falar com seu assistente? - ela pediu educadamente.
- Claro. Leonard, você tem 15 minutos.
- Obrigado, professor. - respondeu o assistente.
Em outra sala, a psicóloga sacou o aparelho de sua bolsa e o jogou nas mãos de seu marido.
- O que significa isso?!
Leonard viu, mas não perdeu a calma. Respondeu:
- Pena você ter descoberto desta forma. Fui eu quem deu sua localização ao embaixador.
- O quê??? Por quê???
- Que outra maneira eu tinha para poder participar desta expedição?
- Você... me enganou para poder estar aqui?!?
- Claro. Eu era um mero empregado de um amigo de Donis Mirdoff. Quando eu soube desta expedição, eu achei a oportunidade perfeita para poder crescer profissionalmente.
- Pois seu plano acaba agora! Estou saindo desta expedição!!!
- Vai se entregar a Halantos? Ou vai passar o resto da vida fugindo dele? Você não tem mais como voltar, garota. Vai ter que ter um filho comigo, um destino melhor do que ser caçada ou ser um concubina do embaixador. - e voltou para sua sala, deixando a mulher em perplexo desespero.
Mas os pensamentos da psicóloga fora interrompidos. A nave inteira começou a sacudir. Ela caiu no chão. Passou correndo por ela o Tenente Amaranto.
- A senhora está bem? - perguntou ele?
- Estou! O que está acontecendo?
- A nave está perdendo todos os setores! Há explosões e desligamentos de aparelhos eletrônicos por todos os cantos!
A mulher levantou-se gritando:
- Meu bebê!!!
O tenente a acompanhou até uma sala central. Ali havia uma grande máquina cilíndrica. Um vidro temperado  mostrava um feto ligado a aparelhos, mergulhado num líquido aminiótico. O militar tomou a frente e começou a digitar várias combinações em um painel iluminado.
- O menino está bem? - perguntou a mulher apavorada.
- A máquina ainda funciona, mas não sei por quanto tempo. Ele vai ter que nascer agora!
- Mas ele só tem 36 semanas!
- Vamos ter que arriscar, ou ele morrer agora!
O tubo começou a brilhar. Vagarosamente o bebê começou a descer e o líquido a ser drenado. Infelizmente, a máquina, como todas as outras da nave, se desligou.
- MEU BEBÊ!!!
O tenente começou a mexer freneticamente na saída da máquina. Após angustiantes segundos, a porta se abriu, despejando uma parte do líquido da máquina e o filho de Catarina, que começou a chorar assim que saiu do aparelho.
- Ele está bem! - disse a mãe enrolando o filho em seu terninho.
O tenente, todo molhado, se aproximou:
- Os olhos dele...
- Não estão puxados. A microcirurgia plástica que fizemos nele deu certo. Todos vão achar que o Leonard é o pai.
A sala tremeu e as luzes se apagaram. Catarina pôde ouvir os gritos de todos os tripulantes da nave.

CONTINUA

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