CORES BARULHENTAS - CAP 28

C.G.Mex tinha noção de que aquela seria sua última missão. Após 7000 anos, segundo seu relógio interno, suas funções chegariam ao fim.
É claro, ele não tinha como se lembrar de cada detalhe. Ele era um robô, e não um supercomputador. Quando iniciou a viagem, tratou de bolar um plano de contingência: manteria as memórias se sua real identidade antes de dar início à viagem e, depois, manteria disponível apenas memórias da última década.
Todos os dias ele baixava no computador da nave as memórias do 3650º dia anterior e o apagava, deixando espaço para armazenar o próximo dia. Se viesse a precisar se lembrar, bastaria acessar o computador da nave que ali permaneceria a informação.
Porém, após chegar ao sistema estelar onde estavam, esta rotina foi interrompida e as memórias continuaram permanentes. Nada muito sério, uma vez que ainda tinha capacidade para armazenar ainda mais dez anos.
Agora, naquele duto de ar, o robô elencava em sua memória rápida o que era mais importante: como desativar os protocolos de segurança e encher a nave de fumaça.
Ele também se lembrava de outra coisa: era preciso fazer de tudo para não matar os soldados que estavam ali. Se isso acontecesse, uma grande antipatia poderia pôr fim à aceitação dos humanos naquele sistema e seria o fim da humanidade. Por isso, não poderia se defender, e por isso aquela missão era suicida.
Naquele momento, o robô gozava de uma "alívio lógico":  não ter emoções. Se assim fosse, talvez viesse a se perder em pensamentos e sentimentos tristes e poderia colocar em risco a missão. Não, tudo que precisava saber era que era necessário salvar a humanidade, mais importante que a auto-preservação. Muito simples e prático.
Por outro lado, seu mestre não gozava deste "alívio lógico". Como humano, Roger ainda tinha emoções, como medo de ser morto pelos soldados, e medo de perder seu melhor amigo. Por isso, não parava de olhar seu celular à espera do sinal de C.G.Mex, nem parava de olhar pela fresta da porta com medo dos soldados detectarem sua presença.
Na verdade, isso foi seu erro: ao olhar, um soldado solitário o percebeu. Roger trancou as portas rapidamente e desconectou as travas automáticas. Os barulhos na porta mostraram-se ainda mais assustadores!
C.G.Mex já havia chegado à sala de comando e estava procurando uma maneira de entrar. Qualquer ruído poderia chamar a atenção daqueles soldados de sentidos tão apurados. E haviam dois deles ali: um vigiando e outro tentando invadir o sistema da nave.
Neste momento, o rádio de um deles tocou e começaram a conversar numa língua estranha. Não era a mesma dos Kabraqs que o robô havia aprendido. Devia ser dos ilkages.
Após a troca de palavras, o vigia saiu correndo pela porta, sem perceber que o robô havia usado o barulho da conversa para se esgueirar para dentro daquela sala.
Roger podia ouvir conversas atrás daquela porta. Ele não sabia, mas os soldados só não haviam ainda atirado em virtude da segurança dentro de uma nave espacial. Porém, logo eles achariam um jeito de entrar.
Pegou seu isqueiro e correu na direção das plantas. A fumaça poderia salvá-lo daqueles guardas, mas se queimasse antes da hora, seus planos de salvar a humanidade iriam por água abaixo. Ficou em posição para iniciar o incêndio.
Felizmente C.G.Mex não precisava usar um terminal. Bastava conectar-se a um para começar a dar comandos e monitorar toda a nave. Tão logo conectou sua tomada USB, percebeu porque o soldado saíra correndo: haviam detectado seu mestre. Era mais urgente salvá-lo agora!
Os ilkages do lado de fora da sala das plantas já estavam achando um meio de abrir aquela porta quando uma delas, perto deles, dando num recinto sem iluminação, se abriu. Não conseguiram ver nada lá, mas perceberam um vulto chegando perto da porta e correndo de volta para dentro. É claro que os soldados não ficaram parados e correram atrás do vulto. Um vulto que não passava de um robô dedicado apenas à limpeza da nave.
Com este truque, C.G.Mex salvou Roger, mas condenou a si mesmo, pois o soldado que restava no recinto percebeu algo errado no computador e foi atrás descobrir o que acontecera.
O robô não perdeu tempo: inundou o computador com os comandos necessários para desativar os protocolos de segurança. A última coisa que C.G.Mex ouviu foi um grito e, logo depois, o impacto de uma arma. Em seus últimos segundos de vida, fez algo que seu mestre, há muito tempo, colocara em sua programação: levantou o dedo médio de sua mão biônica para o soldado e se desligou em seguida.
Foi neste momento que Roger recebeu o sinal em seu celular. Em menos de um minuto, colocou fogo na floresta de maconha e se protegeu, colocando fim àquela erva e à invasão não autorizada dos ilkages.
A humanidade estava salva!

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