CORES BARULHENTAS - CAP 23

Durante os dias que se seguiram, QnuBo estudou com afinco a língua portuguesa. Esta parecia mais simples do que todas as outras línguas utilizadas. Se os humanos fossem aceitos na Confederação, dariam uma excelente contribuição com sua língua.
Porém, o linguista achou algo pitoresco em seu trabalho: o único humano a bordo acordado parecia não se importar em conhecer a língua kabraq, utilizada naquele setor do espaço.  Ao contrário, parecia querer permanecer fechado em seus aposentos fazendo sabe-se lá o quê.
Finalmente, na véspera da audiência, QnuBo procurou o ser artificial C.G.Mex.
- Posso ajudá-lo, mestre QnuBo? - perguntou em Kabraq.
- Aquele humano, de nome Roger. Onde ele está? - falou em português.
- Está no observatório interno. Seguindo por aquele corredor.
À medida que o ilkage seguia o caminho, novamente escutava os ruídos que ouvira durante seu primeiro contato com a nave. Era curioso como quando passava por áreas mais escuras o ruído abaixava, e aumentava em áreas mais bem iluminadas. Por outro lado, era sempre um barulhão quando passava perto dos aposentos do humano. Na verdade, os locais mais visitados por Roger sempre eram ensurdecedores.
- Preciso ir ao médico assim que terminar esta missão. - pensava.
Finalmente encontrou o rapaz debruçado num parapeito. Olhava para a grande quantidade de  cilindros de êxtase onde estavam todos os humanos ainda em animação suspensa. QnuBo pôde perceber que o humano acabara de sair do banho pois seus cabelos estavam molhados. Tentou puxar assunto:
- Vejo que está usando uma roupa nova.
- Sim. Acabei de tirar de minha mala. - respondeu distante.
Um silêncio inquietante se fez. Após alguns segundos, QnuBo voltou a falar:
- Um real pelos seus pensamentos.
Roger ficou surpreso. Deu um leve sorriso:
- Você aprendeu esta expressão estudando nossa língua?
- Sim.
Roger suspirou. Apontou para uma direção:
- Vê aquelas cápsulas ali embaixo? São os melhores amigos que fiz quando trabalhei com afinco na construção desta nave. Porém, uma delas é ocupada por uma pessoa da qual nunca ouvi falar.
- Alguém que você não encontrou durante a obra?
- Não... ali devia estar o melhor amigo que já fiz em minha vida. Porém, um acidente o matou pouco antes do final de tudo. Com a vaga liberada, colocaram um desconhecido da lista de espera para ocupá-la.
- Hum... entendo. Em sua cultura é uma grande tristeza a morte de alguém próximo.
- Sim, É verdade. Como é na sua?
- Os ilkages também têm um período de luto, mas ele é curto. Cuidamos de planejar como será o futuro a partir deste evento.
- Bola pra frente. 
- O quê?
- Outra expressão humana. Traduz exatamente essa filosofia de vocês. Parar de se lamentar e seguir com a vida.
- E fez algo nesse sentido também?
- Bom... por conta de uma regra idiota, queriam deixar a noiva de meu amigo, grávida dele, para trás. Cuidei de enganar o sistema e consegui que a embarcassem. - disse com certo orgulho.
- Interessante! Como fez isso?
O sorriso de orgulho se desfez:
- Eu... deixei outro amigo amigo na Terra...
Um novo silêncio surgiu. Desta vez, foi Roger quem o rompeu:
- Enganei meus amigos e coloquei os sobreviventes da humanidade em risco. Acho que era eu quem devia ter ficado...
Após alguns segundos, QnuBo repetiu:
- "Bola pra frente!"
Talvez tenha sido o uso da frase recém aprendida naquele momento caótico, ou somente o sotaque engraçado do ilkage, mas aquilo tirou um sorriso da cara triste do rapaz.
- Tem razão. Milhões de vidas dependem de mim agora. Como estão os preparativos para a conferência?
- Conforme o esperado: já conheço sua língua e seu servo mecânico a língua kabraq. Porém, teria sido útil que você também tivesse aprendido...
- Eu tentei, mas eu me perdi assim que comecei. Sou péssimo com línguas. Apanhei bastante para aprender espanhol, e olha que era uma língua muito parecida com a minha!
- Então teremos que depender de mim e do seu robô. Nossas conversas ficarão bastante lentas fazendo a tradução para ambos os lados a cada fala.
De repente, uma idéia surgiu na mente de Roger.
- Ei! E se meu robô traduzisse tudo?
- Como eu disse, o tempo dele traduzindo para cada ouvinte...
- Não! E se ele fizesse isso durante as falas? Um tradutor simultâneo?
- Mas ele não pode falar enquanto os outros estão falando. Quem estiver à mesa ficaria confuso ouvindo duas vozes ao mesmo tempo em língua diferentes.
- Não se cada um escutasse tudo somente na língua que deseja ouvir.
- Como assim?
- Nós, humanos, temos pequenos dispositivos eletrônicos que podemos colocar nos ouvidos. Chamamos de ponto eletrônico. Se o C.G.Mex estiver presente, ele pode fazer a tradução simultânea e enviar para os aparelhos presentes na sala. Não importa língua que se fale, só se escutará a língua que se entende!
QnuBo ficou pensativo. Logo disse:
- Também temos dispositivos auditivos assim. Podemos programá-los para receber as transmissões enviadas pelo seu robô...
- Então o que estamos esperando? Mãos à obra!
- "Mãos à obra"? É um sinônimo de "bola pra frente"?

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