CORES BARULHENTAS - CAP 21

O sotaque era forte, mas as palavras eram completamente intelegíveis. Qnubo, surpreso com aquele cumprimento na língua Kabraq, perguntou:
- Você fala nossa língua???
- Confesso ter tido um pouco de dificuldade para entender alguns termos que surgiam no meio de todas as frases faladas por vocês...
- Oh, sim. Nós chamamos de Estruturas de Polidez. São um traço cultural forte dos Kabraqs, que são muito educados.
- Kabraq é a raça de seres amarelos que vivem aqui, certo?
- Sim. Mas se sabia tanto, porque não conversou conosco quando as naves de vocês entraram no sistema? Poderiam ter sido destruídos.
O robô olhou em volta. Viu vários militares apontando objetos para ele. Deduziu que fossem armas.
- Parece que ainda corremos esse risco...
- Tenente, por favor, peça a todos para baixarem as armas. - perdiu o estudioso.
- Tão logo ele explique o porque do seu silêncio e o que fazem aqui. - insistiu o encarregado, segurando seu fuzil.
- Na verdade, senhores, durante os dias que passamos aqui temos recebido transmissões de áudio e imagem de seu planeta. Passei todo este tempo analisando tudo a fim de aprender a língua de vocês. Ainda não consegui aprender muito bem, mas já consigo conversar com vocês. - explicou o autômato.
- E por que estão aqui? - continuou tenso o militar.
- Talvez seja melhor sentarem. Eu explicarei tudo. - disse sentando-se, sem cerimônias, no piso da nave.
- Prefiro ficar de pé.
- Como o senhor quiser. Como posso chamá-lo?
- Tenente Soke.
- Tenente Soke, pode me chamar de C.G.Mex, é o meu modelo de fabricação, em homenagem a Caio Gomes, herói das colônias marcianas.
- Colônias marcianas? Explique!
- Tenente, são quase 200 anos de história. O senhor não acha melhor que eu explique apenas porque estamos aqui?
- Concordo. Pode explicar, C.G.Mex. - respondeu QnuBo antes que Soke pudesse responder.
O robõ, então, começou a contar sobre como a Terra soube que seria invadida e, num ato desesperado, como o Brasil e mais um pequeno consórcio de países decidiu fugir para um planeta que parecia desabitado, que poderia suportar sua forma de vida.
- Parece-me que vocês não tiveram culpa ao vir para cá. As informações que vocês recolheram na Terra vinham com atraso de 5000 anos devido à distância, somando a 10.000 anos de viagem, vocês estão defasados em 15.000 anos. - comentou QnuBo.
- Seu planeta deve ter sido colonizado nesse meio tempo. - deduziu o robô.
- Na verdade, se viessem 72 anos mais cedo, poderiam ter reclamado este planeta para si. Esta colônia existe aqui desde então.
Porém, o tenente continuava com a arma apontada. O estudioso censurou:
- Tenente. Ele já nos explicou o incidente. Pode baixar a arma. Confio nele.
- Mas eu ainda não. - continuou o militar.
QnuBo foi até ele e, com a mão, forçou a arma, abaixando-a.
- Tenente, Nespler me concedeu poderes para liderar esta equipe se assim o achasse necessário. Por favor, abaixe sua arma.
Em silêncio, o militar guardou-a.
- Eu vou ficar para conhecer este povo. O senhor pode voltar com a nave auxiliar.
- Senhor, isso é inaceitável!
- Tudo bem. Deixe dois seguranças. E apenas isso. é uma ordem.
Soke concordou. Designou os dois melhores da equipe para a escolta. Alguns minutos depois, ele partia para entregar seu relatório a Nespler.
- Seu tenente parece agressivo. - comentou o C.G.Mex.
- Você tem sorte que ele seja um Kabraq. Se fosse um ilkage como eu seria bem pior. - sorriu QnuBo.
- Eu tenho algumas botas magnéticas no depósito. Posso arranjar para vocês, embora eu ache difícil achar o número adequado para seus dois seguranças com dois metros e meio de altura.
- Não se preocupe. Nós também usamos botas magnéticas em nossas naves.
- Bom, em que poderei ajudar?
- Eu quero aprender sua língua, para me comunicar melhor. Mas, por enquanto, eu gostaria de conhecer o seu outro amigo, que estava com você durante o primeiro contato.
- Deve estar falando do mestre Roger. Está no refeitório comendo. Ele sempre faz isso depois que... desculpe, é uma ação cuja palavra não consegui aprender em sua língua.
- Pode descrever?
- Ele queima uma amostra de planta e respira a fumaça.
QnuBo achou este ato muito estranho. Primeiro porque fogo em uma nave pode ser muitíssimo perigoso. Segundo, o hábito de fumar não existia na Confederação.
- Acho que a palavra é... fumar. É um ato que não se pratica há centenas anos.
- Leis para manterem as pessoas saudáveis?
- Não exatamente... a Confederação é composta de três raças: Kabraqs, que é a raça dos meus dois seguranças aqui, Ilkage, a minha raça, e Pazenvs.
- Aqueles verdes?
- Isso mesmo. Os Pazenvs são vegetarianos e têm uma constituição física delgada. Fogo os intoxica mais rápido do que a ação de substâncias químicas podem lhes dar prazer. Logo, esta raça não desenvolveu este hábito.
- Entendo. Mas estes kabraqs parecem ser bem ao contrário.
- Até demais. Kabraqs são imunes a veneno. Logo, só um grande incêndio poderia afetá-los. Fumar não traz prazer algum.
- Vocês, ilkages?
- Num passado muito distante, este hábito até já existiu.
- E por que deixou de existir?
- Devido à nossa filosofia. Acreditamos que, por termos sentidos muito apurados, entendemos tudo no universo. Uma mente sã teria a capacidade de analisar tudo e chegar a conclusões perfeitas. Quando erramos, acreditamos que foi desleixo: não analisamos corretamente todas as informações.
- Acho que entendi. E uma mente sã não pode se envenenar com substâncias que a afetem.
- Correto. Para se ter uma idéia, é tabu para nós beber qualquer bebida alcoólica.
- Que interessante!
- Mas, diga-me: por que sua nave tem tantos ruídos?
C.G.Mex estranhou. A nave era muito silenciosa. Olhou para os guardas, que também estranharam o comentário.
- Seriam os sentidos aguçados do senhor? - questionou o robô.
- Não sei... está muito baixo.
Virou-se para seus seguranças para perguntar se eles não estavam escutando. Nisso, QnuBo assustou-se.
- Viram? O som ficou um pouco mais agudo!
O guardas ficaram um pouco confusos.
- Senhor, para mim aqui está tão silencioso quanto um cemitério. - disse um deles.
- A única coisa que sinto é um cheiro um pouco estranho... - comentou o outro.
- Oh, sim. Meu mestre andou fumando por aqui. Venham. Ele está atrás depois daquela porta...
QnuBo voltou-se para o robô e o barulho agudo cessou. Decidiu não falar nada. Poderiam questionar sua sanidade.
Finalmente entraram no refeitório, o local mais alegre da nave. Projetado para reunir uma pequena tripulação que seria, em tese, responsável por conduzir as naves durante a chegada ao seu destino, o ambiente era bastante colorido e descontraído, com agradável som ambiente. Seria ali que os astronautas relaxariam após um dia duro de trabalho. Porém, para QnuBo, ali não havia nada que lhe agradasse. A sala parecia imersa numa enorme algazarra de sons e barulhos desconexos.
- Vocês gostam de se alimentar em locais com tanto barulho assim? - perguntou alto o ilkage.
Os guardas não conseguiam entender. O som conseguia relaxar até a eles. Preocupado, o robô perguntou:
- Deseja que eu desligue o som ambiente?
Nisso, Roger, ainda um pouco alterado por ter fumado, chegou. Disse algo que QnuBo ainda não conseguia traduzir. Agora o Ilkage sentia o gosto de carne com frutas em sua boca. Amigavelmente Roger chegou bem perto do catedrático e lhe estendeu a mão. Foi o suficiente para o tradutor cair desmaiado.

0 comentários:

Postar um comentário

ANTES DE COMENTAR:

- não escreva em CAIXA ALTA;
- não divulgue links;
- não escreva com miguxês, internetês e similares;
- respeite as opiniões apresentadas.

Obrigado.

 
T.E.C. © 2010 | Designed by Trucks, in collaboration with MW3, Broadway Tickets, and Distubed Tour | Customized by Sybylla