CORES BARULHENTAS - CAP 18

Nespler não viva seus melhores dias. Havia muita tensão em seu cotidiano.
Tudo teria tido início com sua promoção para almirante. Após anos servindo no corpo militar da Confederação como capitão de uma modesta nave, o Kabraq de pele amarela, quase dourada, havia se destacado após salvar uma colônia do ataque de piratas Zortars.
Foi assim que ele conquistou o direito de organizar uma frota com sede no planeta Banol, mundo colonizado por Kabraqs, localizado no sistema mais afastado do centro da galáxia dentro do território protegido pela Confederação.
O problema era lidar com Lukat, almirante-chefe Ilkage, que estava dando apoio nesta organização. Embora fosse tarefa de Nespler criar a frota, o almirante chefe de pele cinzenta teimava em se meter em tudo. Embora uma característa desta raça fosse arrogância, Nespler acreditava que Lukat era arrogante demais até em relação a seus compatriotas.
Uma ou duas vezes o jovem almirante pensara em denunciar, ou simplesmente espancar seu superior. Várias vezes fora contido por Zantev, seu amigo esverdeado da raça Pazenv, oficial de comunicações de sua nave.
Zantev sabia que Lukat era bem relacionado no corpo da Frota e, se ele não achasse o novo almirante adequado, não só este seria rebaixado como Banol poderia dar adeus a uma frota da Corporação fazendo a segurança e aquecendo a economia da pobre colônia. Havia muito em jogo ali.
Naquele dia, Nespler fôra acordado com um estranho e perigoso alerta: Naves enormes haviam adentrado o sistema Banol e não estavam se identificado ainda. Quando chegou à ponte de comando, lá estava o rival na direção do show.
- Acordou cedo, senhor. - saudou Nespler ainda atordoado de sono.
- Ilkages dormem pouco, almirante. - respondeu com certa superioridade.
Sem dar atenção, voltou-se para Zantev:
- Alguma comunicação? Temos mais informações?
- Nenhuma senhor. Eles apenas seguem em direção a Banol. No atual curso, chegarão em cinco dias. As naves são muito lentas.
- Quanto tempo para interceptá-las?
- Estávamos bem próximos delas. Como já ordenei isso mais cedo, devemos chegar em poucos minutos. - antecipou-se o ilkage.
Nespler apertou as unhas contra a palma das mãos, um sinal Kabraq de raiva contida. Zantev percebeu. Tocou uma das mãos do jovem almirante e, com um movimento da cabeça, fez o Kabraq entender que uma briga ali não valeria a pena. Nespler engoliu e disse com toda a paciência que ainda lhe restava:
- Obrigado, senhor. Não é sua atribuição comandar também esta pequena frota, mas fico feliz que esteja aqui... - agradeceu com uma ironia quase invisível.
- Eu sei. É preciso que haja alguém para cuidar de tudo enquanto o almirante dorme. - respondeu com calma irritante.
- Temos imagens das naves? - Nespler perguntou alto para seu amigo Pazenv, tentando mudar de assunto.
- Vou pôr na tela, senhor.
A imagem tridimensional da nave surgiu. Aquilo intrigava o almirante: nunca vira uma nave com aquelas configurações.
- Já viu algo assim, almirante-chefe?
- Definitivamente não. Em todos estes anos que servi o corpo da Confederação, nunca vi nave alguma como estas.
- Podem ser zortars?
- Duvido. Suas naves são pequenas e rápidas, para ações de pirataria. Estas estão mais para uma invasão.
- Invasão? Por que acha isso?
- Naves tão grandes só podem se justificar pelo transporte de tropas. Talvez alguma raça nas imediações do nosso território esteja querendo tomar o planeta Banol.
- Uma guerra iminente? É tudo do que preciso... - resmungou.
- Já estamos ao alcance de nossas armas, senhor. - cortou Zantev.
- Armas? Ainda nem entramos em contato com eles! - indignou-se Nespler.
- Entramos sim. Há uma hora atrás tentamos nos comunicar e eles não responderam. Isso é claramente uma demonstração de hostilidade. - chamou a atenção o ilkage.
- Não estou disposto a abater uma nave sem antes tentar todos os recursos, senhor Lukat.
- Ah, sim. O senso de justiça Kabraq. Não o censuro por tomar tal decisão. Qualquer um de sua espécie faria isso. É claro que não é o que um ilkage como eu faria...
Nespler teria arrancado a pequena tromba do rosto de de Lukat se Zantev não tivesse gritado:
- SENHOR! VEJA ESTAS LEITURAS!!!
A atenção do jovem almirante voltou-se para a tela do Pazenv. Não via nada, mas conseguiu ouvir seu amigo cochichar:
- É uma briga o que ele quer...
Nespler, mais controlado, voltou-se para o oficial de armas.
- Saraiva de tiros próximos à nave mais à frente. Isso deve chamar a atenção deles.
Os tiros foram lançados. As explosões ocorreram conforme o esperado, sem danificar a nave.
- E agora? - perguntou Lukat.
- Vamos esperar alguns minutos para ver se eles querem conversar conosco agora. - posicionou-se Nespler com firmeza.
Passou-se um minuto. Dois. Três. Lukat, em silêncio, olhava o almirante com tal firmeza que começava a desestruturar o Kabraq. Ao final do quarto minuto, Nespler começava a articular as palavras de ataque quando Zantev, novamente, salvou o dia do almirante:
- Senhor, eles estão abrindo um canal de comunicação!
Imediatamente enviou a mensagem:
- Nave! Pare! Continuar é um ato de guerra! Este é o último aviso!
A imagem na tela dos ocupantes da outra nave se formou. Nespler ficou boquiaberto com o que viu: um alienígena de uma raça que ele nunca vira em sua vida, e um robô parecido com ele, mas parecendo uma sucata. Zantev quase caiu de susto, mas Lukat observava aos visitantes com uma atenção assustadora.
O alienígena começou a gritar, numa língua desconhecida. Podia ser qualquer coisa, desde um rugido de fúria a um grito de desespero. Não havia como saber. Nespler voltou-se para Lukat, que parecia hipnotizado pelo que via no monitor.
- Eles não são de uma raça conhecida. Não conhecem a nossa língua.
Lukat, ainda em êxtase, respondeu um pouco depois:
- Vieram em muitas naves. É nosso dever destruir essa frota.
Essa, sem dúvida, era a pior decisão que Nespler precisava tomar em sua vida até ali. Matar milhares (ou milhões) de alienígenas desconhecidos, talvez inocentes, para garantir a segurança do planeta e de seu lugar naquela frota, ou tentar salvar inúmeras vidas arriscando tudo? Realmente não queria ter saído da cama naquele dia.
Foi quando ele teve uma idéia: estavam próximos de um planeta gigante gasoso. Talvez por gestos conseguisse fazer aquelas criaturas entenderem a entrar em órbita do corpo celeste e ganhar tempo até entende-las completamente.
Apontou para os seres que via. Depois apontou para fora. Desenhou no ar uma grande circunferência simbolizando o planeta e depois fez giros no lugar onde desenhara o astro para simbolizar órbita.
Refez os sinais mais três vezes, ficando mais angustiado a cada repetição. Se aquilo não desse certo, seria o fim daquela raça.
Foi quando um milagre, operado pelos Deuses Gentis na visão Kabraq, aconteceu: as naves alteraram o curso e seguiram em direção ao gigante gasoso. Uma grande sensação de alívio percorreu o corpo de Nespler.
- Por favor, aguardem. Logo enviaremos um intérprete.
Fez sinal para encerrar a ligação. Após Zantev desligar o monitor, o kabraq pôde perceber que era observado com certa hostilidade pelo ilkage.
- Almirante Nespler, o senhor deu mais tempo a eles. Isso pode vir a ser um grande erro.
- O erro seria maior se os destruíssemos sem ao menos tentar saber o que eles querem.
- Está proscrastinando. Não há como entende-los. São de uma raça desconhecida cuja língua é ainda mais obscura.
- Então seremos os primeiros a lançar luz sobre eles. - respondeu confiante e determinado.

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