CORES BARULHENTAS - CAP 11

Durante o outono, o chão daquele cemitério argentino ficava cheio de folhas coloridas. As árvores do local teimavam em manter algumas destas folhas em seus galhos, o que trazia algum alento aos amigos e familiares que vinham dar sua última despedida. Aquele belo cenário dava algum conforto àqueles que choravam.
Mas desde o aquecimento glogal não era mais assim. Toda a vegetação havia sofrido e o local de descanso eterno, agora, era povoado de árvores mortas. A única beleza que existia agora eram os túmulos, repetidamente caiados para manter sua cor branca esterelizada. O local que antes trazia alegria a crianças inocentes que não entendiam a morte, agora trazia medo a elas.
Foi num dia chovoso de outono no qual ocorreu o enterro do amigo de Roger. Ele mantivera silêncio desde que havia saído de La Cooperación. Era um dia frio. Felizmente, Roger havia trazido seu casaco.
Era muito difícil acompanhar o caixão daquele que havia sido seu melhor amigo desde que deixara o Brasil. Seus pensamentos traziam flashs de quando, feliz, trabalhava junto ao amigo.
Reunidos à beira da cova onde seria descido o caixão, o padre começou a dar suas palavras finais. Foi neste momento que a atenção do rapaz voltou-se para uma bela morena, um ou dois anos mais velha que ele, nos primeiros meses de sua gestação. Era Rosa, a sofrida noiva de Josias.
Roger não havia tido coragem de conversar com a moça, mesmo sendo o responsável por pagar a passagem para ela, uma vez que ela, de família humilde, não podia pagar. Naquele momento, ele viu que a moça estava tremendo. Mesmo bem agasalhada, uma nordestina não estava acostumada aos rigores do outono argentino. Silenciosamente seguiu até ela e colocou seu casaco em cima de seus ombros. A moça olhou para trás e agradeceu em silêncio, com o olhar triste.
Roger não sentia frio. Tudo que sentia era um horrível sentimento de perda. Ali, perto daquela que seria esposa de seu amigo, este sentimento era mais suportável. Sabia que não estava sozinho.
Ao final do enterro, Roger pediu à moça para levá-la para comer alguma coisa. Era preciso repor as energias, ainda mais ela que era uma gestante.
Rosa aceitou e foram comer num estabelecimento ali perto. Rosa até entendia bem espanhol, pois há anos namorava um argentino.
Durante a refeição, a moça pôde contar como o atrapalhado Josias a conheceu durante uma viagem de férias. Ele era muito engraçado, um peixe fora d'água na Bahia, mas seu amor foi arrebatador.
-A vida seria boa com ele... - entristeceu-se a moça.
-A vida vai ser boa para onde iremos. - tentou consolar Roger.
-Eu desejo boa sorte a vocês. - sorriu a moça.
-Como assim "deseja"? Você vem com a gente.
-Não vou. Eu não era casada ainda com Josias.
-Mas você está carregando um filho dele!
Rosa sorriu complacente:
-Roger, isso não é imigração. Eu não tenho laços oficiais com Josias.
O rapaz ficou em silêncio. Rosa respirou fundo e disse:
-Talvez tenha sido melhor assim. Se eu fosse, sempre me lembraria de Josias...
Roger olhou para a barriga da moça. Ela percebeu e abanou a cabeça.
-O que estou dizendo? Eu sempre vou me lembrar do Josias!
Dito isso, algumas lágrimas escorreram do rosto da jovem. Roger abraçou-a para consola-la.
-Obrigada por tudo que você fez por mim.
Mas Roger ainda não havia acabado. Ali, ele percebeu que ainda restava fazer uma coisa por seu amigo...

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