CORES BARULHENTAS - CAP 07

Uma coisa ficou clara para Roger pouco depois de começar a trabalhar: se o seu plano era levar mudas de maconha consigo e planta-las no planeta sem que ninguém soubesse, não bastaria programar bem o robô, mas também seria necessário mexer nos sistemas de suporte, afinal, seria preciso manter um compartimento da nave com para o cultivo da planta.
Num primeiro momento, Roger pediu ao pai para trabalhar também nesta área. Mas, à medida que o tempo passava, o jovem só recebia desculpas polidas para não conseguir trabalhar nesta área.
Ao final do primeiro mês, já estava bem claro que o estavam enrolando. Um dia entrou furioso na sala onde tinha aulas com seu tutor.
-Como é que pode, Monteiro?! Eu peço para trabalhar no suporte, mas só ficam enrolando!
-O suporte é um sistema crítico da nave, Roger. É preciso muita dedicação num sistema como esse.
-Mas eu posso me dedicar! Posso cuidar dos robôs e do suporte!
O padre coçou o queixo, pensativo. Logo falou:
-Acho que hoje podemos ter uma aula sobre redação. Eu gostaria que você escrevesse uma dissertação ao baseada numa história que vou contar.
Roger se assentou numa cadeira. Talvez ele não gostasse muito de estudar, mas ouvir histórias era mais leve que as matérias aos quais estava acostumado.
-Diga-me, Roger: conhece o termo "Fariseu"?
-Não. O que significa?
-Bem, na época de Jesus eram homens respeitadíssimos. Eram tidos como exemplos pelas virtudes que pregavam.
-Então Jesus gostava deles.
-Ao contrário: os abominava.
-Hein? Como assim?
-Embora os Fariseus pregassem amor ao próximo, eles desprezavam pessoas e as julgavam. Oravam em voz alta e davam esmolas na frente de todo mundo, mas raramente o faziam de coração. Gostavam de chamar a atenção para si e criar regras para todo mundo, embora eles mesmos não seguissem essas regras.
-Mas Jesus sabia da hipocrisia deles?
-Sim. E por isso os chamava de "raça de víboras".
-Interessante...
-Outro problema dos Fariseus eram sua superioridade: eles se sentiam a nata da sociedade.
-"Nariz empinado"?
-Sim. Eles não se relacionavam com pessoas que achavam inferiores. Eram muito arrogantes.
-Víboras mesmo! - concordou Roger.
-Bom, vamos ao exercício. Sua redação será baseada em três perguntas que devem ser respondidas no texto.
Roger pegou uma caneta e papel.
-Primeira pergunta: Por que Jesus não confiava nos Fariseus?
O jovem copiou, mas mentalmente respondia:
-Porque eram hipócritas e arrogantes.
-Segunda pergunta: Você confiaria numa pessoa que fala uma coisa e faz outra? E numa pessoa que despreza você?
-É claro que não! - pensou o rapaz.
-Terceira pergunta: Você também diz que fará uma coisa mas seus atos têm dito outra coisa? Você trata as pessoas do mesmo modo que você gostaria de ser tratado? Ou seja, de igual para igual, ou quer mandar nas pessoas e não se enturmar com a gente à sua volta no seu dia a dia?
Esta pergunta acertou Roger em cheio. A conclusão é que o desprezível Fariseu era ele mesmo. O rapaz levantou a cabeça olhando atônito para seu mestre.
-Não precisa entregar sua redação agora. Pense bem nela. Vamos encerrar a aula por agora para que você possa refletir.
O padre foi até a porta e abriu-a para seu aluno. O jovem guardou seu material em silêncio e seguiu em direção à saída. Quando cruzou a porta, o padre o abençoou:
-Vá com Deus e que Ele lhe ilumine o caminho.

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