Conto (capítulo 12) - NÃO SE MORRE MAIS COMO ANTIGAMENTE

Naquela noite, João não voltou para casa. Disse à esposa que precisaria fazer plantão onde trabalhava, mas estaria de volta no dia seguinte.
João hospedou-se num hotel num morro próximo à fábrica. Fez questão de pedir um quarto virado para lá, o que não foi difícil de conseguir: quem deseja quarto com vista para uma indústria de inseticidas?
Por que um quarto de vista para a Mata Pragas S.A.? Nos anos 70 não havia links de satélite. Se algo errado ocorresse na fábrica, o único recurso disponível era a telefonia, muito ruim, inclusive, naquela época. A saída que João encontrou para ser alertado de um acidente foi colocar um sinaleiro no alto da torre mais alta. Assim, daquele quarto de hotel, ele podia ver caso ocorresse alguma intercorrência na fábrica.
O quarto era muito simples: Uma cama de solteiro com um criado mudo de madeira com um vaso de flores e uma garrafa d’água. Havia ainda um rádio velho AM em cima da cômoda, ligado, tocando músicas da época. Porém, toda atenção de João ficava voltada para a janela.
O tempo passava devagar. O bilhete premiado jazia em cima do criado mudo, próximo a uma mala com uma muda de roupas. João sabia que havia aumentado muito a segurança e, talvez, aquela tragédia nem teria início. Não havia como as bombas dos tanques deixarem vazar os conteúdos letais e ninguém ficava na fábrica à noite que viesse a fazer um bombeamento acidental, mas se fosse preciso, ele passaria a noite acordado para ter certeza que tudo deu certo.
Porém, por volta da meia-noite, o fantasma que assombrava o dedicado funcionário surgiu: o farol acendeu!
João saiu correndo do quarto, deixando tudo para trás. Ele estava confuso.
-O que ocorreu? Não havia falhas!
Chegou à fábrica. Pelo silêncio, as bombas dos tanques estavam inativas. Ficou mais tranqüilo.
- Ufa! Deve ter sido um mau-funcionamento. O sistema de segurança deve ter bloqueado as bombas a tempo e acendeu o farol avisando...
Indo em direção à central de controle para verificar o problema, percebeu as luzes acesas. Entrou. Lá estava Armando mexendo no painel de comando.
-Armando? Como chegou aqui tão rápido? Viu o farol também?
Entretanto, a reação de seu superior foi inesperada: Armando apontou uma arma para João e disse:
- Fique onde está, viajante do tempo!

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