Conto (capítulo 7) - NÃO SE MORRE MAIS COMO ANTIGAMENTE

Um incêndio provocado por João da Silveira ontem à noite, na central de distribuição de energia da fábrica Mata Pragas S.A. impediu que produtos químicos fossem misturados no reservatório principal, o que provocaria uma grande explosão e envenenamento do ar e do rio, o que levaria à morte da população de Nossa Senhora das Nuvens Brancas. Infelizmente, o ato heróico do funcionário custou a sua vida. Mais detalhes na página 3.
Era isso que estava escrito na primeira página do jornal de João. Não havia uma página 3, mas aquela manchete era suficiente para causar pânico. Como ele se envolvera? Por que sacrificar a sua vida para salvar tanta gente? João nunca foi herói.
Naquela noite ele mal dormiu. Chegou com grandes olheiras em seu trabalho.
-Viu um fantasma, João? - brincou um de seus colegas.
-Desculpe. Eu tive um pesadelo e não consegui dormir direito.
-E o que foi? Pode contar? - perguntou prestativo o amigo.
João pensou bem. Geralmente ele pedia ajuda quando algo era muito difícil (ou trabalhoso) para ele.
-Eu sonhei que eu tinha visto a minha morte num acidente que ia acontecer no futuro. Você já sonhou com uma coisa dessas?
-Eu nunca, mas, amigão, sonhos são só sonhos. Você deve estar incomodado pois está achando que isso é um presságio.
-É... pode ser...
João sentou-se. Olhou para o colega:
-Mauro, se você soubesse que ia acontecer em determinada data esse acidente, o que você faria?
Mauro ficou pensativo. Respondeu:
-Nesse dia eu não saía de casa. Se o acidente não vai acontecer dentro do meu lar, pra que arriscar? Fico em casa e deixo que a vida continue seu curso. Deixe que outro sofra o acidente no seu lugar. No dia seguinte, sei que ainda estarei vivo.
João levantou suas sobrancelhas. O colega estava certo. Saber sobre o futuro era uma benção, e não uma maldição. Respirou aliviado.
-Tem toda razão, Mauro. Tudo isso é besteira...
O chefe chegou na seção. Estava acompanhado de um rapaz. Curiosamente, João parecia conhecer, aquele desconhecido.
Finalmente seu chefe chegou:
-João, quero apresentar-lhe o Jairo. Ele estará responsável pela central de força da empresa.
João perguntou:
-Parece que conheço você. Qual seu nome?
-Jairo de Oliveira Rosa.
João quase caiu da cadeira.
-Tudo bem, João? - perguntou o chefe.
-É só... uma fraqueza momentânea. Acho que não comi bem no café da manhã. Está tudo bem.
Mas não estava tudo bem. Jairo, na verdade, era o futuro sogro de João da Silveira...

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