Conto (capítulo 4) - NÃO SE MORRE MAIS COMO ANTIGAMENTE

João empurrou a taboa de madeira que obstruía a saída. Estava emperrada. Com a pressa que estava de terminar aquele trabalho, resolveu dar um forte chute no obstáculo.
Para sua surpresa, terra e pedras voaram em sua direção. Após se recuperar e ver que a saída estava desobstruída, caminhou em sua direção. Não conseguiu: caiu para trás como se tivesse caído num buraco.
Sem entender nada, João esgueirou-se pelo chão até conseguir colocar a cabeça para fora do corredor. Neste ponto, sentiu-se confuso e tonto – literalmente – pois sentiu o chão abaixo de sua cabeça enquanto sentia o peso do corpo nas mãos e pernas. Colocou as mãos para fora do corredor e puxou-se. Curiosamente, o corredor de onde saíra, era um buraco no chão.
Muito confuso, João seguiu por uma trilha até encontrar uma calçada e um banco para sentar.
Olhava em volta. Onde estava a casa que ele estava fazendo vistoria? Na verdade, a verdadeira pergunta era: onde estava a cidade em que ele vivia? Tudo ali lembrava uma cidade do interior onde as pessoas pareciam viver na década de 70.
João se vestia bem, uma vez que estava em horário de trabalho. Talvez seu estilo fosse um pouco diferente, mas não chegava a chamar a atenção. Andando procurando pistas, passou por uma banca de jornais. O que viu, ele não acreditou: a data do jornal era, realmente, do ano de 1970.
-Este jornal é velho? – perguntou confuso.
-De forma alguma, senhor. Chegou hoje cedo. Se está procurando jornais velhos, tenho esta edição de ontem que li e esqueci de devolver ao distribuidor. – apresentou simpático o dono da banca, com um pequeno rádio ao ouvido.
João agradeceu e começou a ler. De fato, eram notícias da época em questão. Observou que o jornaleiro prestava muita atenção ao rádio.
-O que você está ouvindo?
-O senhor se esqueceu? Hoje é a final da copa do mundo! Será Brasil e Itália!
-E seremos tri-campeões. Ganharemos por 4 a 1.
O homem riu.
-O senhor parece que já sabe o resultado. Imagine! A Itália está bem servida. Se ganharmos será 2 a 1, ou 3 a 2. Ganhar de 4 a 1 é muito otimismo.
João sorriu.
-Quer fazer uma aposta?
-Vai apostar que o Brasil vai ganhar por esse placar?
-E ainda aposto que o Brasil vai abrir o placar aos 18 do primeiro tempo, com Pelé cabeceando um cruzamento de Rivelino.
O jornaleiro deu uma gargalhada.
-Se o senhor acertar, eu lhe dou o dinheiro que ganhei hoje vendendo jornais e revistas.
-Está apostado. Mas... o jogo já não começou? Já são 2 e meia da tarde. – observou João olhando o relógio.
-Seu relógio está adiantado, amigo. Agora são 1:53. O jogo começa em sete minutos.
-Bom, vou me sentar naquele banco da praça. Daqui a pouco venho buscar o dinheiro.
João agora iria descobrir se realmente estava no passado, mais precisamente no dia 21 de junho, 37 minutos atrasado em relação a seu relógio. Não pensou no que poderia ter acontecido, mas nas possibilidades que se abriam à sua frente. Ele havia pensado que poderia ser mais feliz vivendo numa época mais tranqüila. Seu sonho poderia ter se realizado.
Estava ansioso. Se tudo aquilo fosse real, quando seu relógio marcasse 2:55 ouviria gritos de comemoração por todos os lados.
Confirmado. No horário esperado, ouviu os gritos, enquanto observava o jornaleiro deixar cair seu rádio.

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