CAPÍTULO 18 - Às vésperas da partida

Em três dias se abriria uma janela naquele sistema distante para o sistema HADES, nome dado por Silas a seu destino.
- Por que esse nome? – perguntou Gano.
- Na mitologia da Terra, Hades significa “abismo”. Como vamos chegar rápido e demorar a voltar, é o nome perfeito. Uma “queda” rápida e uma “escalada” demorada.
Nos dias que se seguiram, o grupo não saiu do centro de pesquisas. Silas e Vanessa tinham aulas com Trec de Esperanto II, a língua da Terra. Eles estudavam principalmente textos escritos, pois para isso o Tradutor Final embutido na TEC não iria ajudar.
Gaia supervisionava as adaptações à nave. Elas eram sugeridas por Sônia, que achava soluções para ser possível uma viagem de duração de 10 anos, Zonan e Gano, que davam idéias que poderiam ajudar na navegação em espaço profundo, e Bevra que, além de trabalhar duro, tinha sugestões que dariam mais segurança à nave.
Estranhamente, Gano estava muito cooperativo com Zonan.
- Gano, você anda concordando com quase tudo que Zonan propõe. O que está acontecendo? – perguntou Silas no fim da tarde do dia anterior à viagem.
- Nada. Ele sabe o que faz.
- Você sempre foi conhecido por não acatar superiores. Toda missão arqueológica da 2ª Universidade você tinha algum atrito com o chefe da missão.
- Devo estar amadurecendo. – sorriu o pazenv.
- Sei... – duvidou Silas.
- Mudando de assunto, vamos sair hoje à noite com o pessoal? A próxima oportunidade é só daqui a 10 anos.
- Amanhã devemos partir por volta da 12ª hora. Acho que podemos dormir tarde hoje. Eu topo. Aonde vamos?
- Gaia conhece um lugar que ela gosta de ir...
- Não sei não. Depois daquele “clube de lutas” eu não confio muito nos lugares que ela conhece...
- Não seja chato. E depois, o “clube de lutas” não era tão ruim assim.
Silas arregalou os olhos. Finalmente ele tinha entendido.
- Gano, você está gostando da Gaia! Por isso você está sendo legal com o Zonan! Quer que o pai dela aprove o namoro de vocês!
- Namoro??? Você sabe que eu não sou de compromisso sério. Além do mais, já se foi o tempo em que era preciso consentimento para namorar a filha...
- Não, mas tenho certeza que a fim dela você está e está tentando impressiná-la sendo legal com o pai dela.
- Você tem uma imaginação muito fértil... – não admitiu Gano.
Gano convidou a todos. Zonan já se sentia velho demais para um programa como aquele. Bevra, como bom militar, dormia e acordava cedo. Foram Silas, Gaia, Gano, Vanessa e Sônia.
Gaia levou o grupo ao Strek Formo, um restaurante tão “acolhedor” quanto o “clube de lutas”.
- “Não seja chato”... – resmungava Silas.
- Lugar bacana, Gaia. A comida aqui deve ser ótima. – elogiou Gano.
- Se não gostou, não precisa ser irônico. – respondeu Gaia.
- Não, eu gostei sim. As pessoas devem vir aqui por algum motivo não é? Deve ser a comida. – tentava consertar Gano.
Silas sorria com a mancada do amigo.
Eles vêm aqui para ver as lutas de torkuts. – disse Gaia.
- Torkuts? Mas isso não é ilegal? – perguntou Sônia.
- Já olhou na clientela em volta? – respondeu Silas.
- O que são torkuts? – perguntou Vanessa.
- É aquilo ali. – apontou Silas.
Numa roda, duas criaturas marrons de meio metro com olhos multifacetados bem grandes, quatro tentáculos apoiados em duas pernas com uma boca cheia de dentes afiados se encaravam.
- Torkuts são criaturas originárias do primeiro planeta que os kabraqs visitaram quando entraram na era das viagens espaciais. – continuou Sônia.
- Eles parecem tão fofinhos... – admirou-se Vanessa.
- Espere mais alguns segundos... – disse Gano.
Os tentáculos se encheram de unhas afiadíssimas e os torkuts iniciaram uma luta.
- Que horrível! – disse Vanessa abraçando Silas.
- Os torkuts são criaturas selvagens que atacam toda espécie viva que lhes atravessa o caminho. Sempre que vêem uma criatura eles analisam o oponente por cerca de 30 segundos antes de atacar. Depois eles estraçalham o que está pela frente. – explicou Sônia.
- Qualquer criatura?
- Nem todas. Aquelas que eles julgam serem mais fortes faz os torkuts assumirem um comportamento submisso. É uma estratégia de sobrevivência, um torkut grande não ataca um torkut pequeno quando este se mostra submisso.
- Mas não dá pra fugir nesses 30 segundos em que os torkuts estão analisando o oponente?
- Correr faz os torkuts atacarem imediatamente.
- Mas não tem jeito de escapar de um ataque de um torkut?
- Se outra criatura tocar ou empurrar o torkut durante o tempo que ele aguarda para atacar, o torkut vai voltar sua atenção à nova criatura e a outra pode fugir.
A luta de torkuts estava chegando ao fim. Uma das criaturas jazia morta no chão enquanto a outra tinha poucos ferimentos. O dono do torkut vencedor o segura e guarda numa caixa escura.
- Como o torkut não ataca seu dono? – perguntou Vanessa.
- O dono precisa ser um kabraq, pois os seres desta raça são enormes. Se o dono mostrar autoridade e firmeza, o torkut fica calmo. – explicou Gaia.
- Mas não tem perigo do torkut atacar o dono?
- Por isso é um jogo ilegal. – disse Silas.
- Oh, Silas! Eu queria poder ficar invisível como você para escapar da criatura! – abraçou Vanessa.
- Não adianta muito. Os torkuts podem enxergar na faixa do infravermelho. A invisibilidade da TEC só alcança a faixa visível da luz. – explicou Sônia.
Neste momento, entra no recinto o kabraq que lutou contra Gaia e perdeu. Vendo que ela estava ali, veio até a mesa.
- Eu quero uma revanche! – declarou o kabraq.
- Para você perder de novo? – esnobou Gaia.
- Você trapaceou! Só uma fêmea mestiça seria tão baixa quanto você...
- Ei, peraí! Eu vi a luta! Ela ganhou de você honestamente! – levantou-se Gano.
- Ora, parece que a ilkazenv arranjou um amiguinho...
- Gano, não dê importância a ele. – pede Gaia.
- Não escutou sua namorada? Sente-se aí junto com seus amigos covardes. – ordenou o kabraq.
- Eu já encarei zortars menos bonitos que você. O que te faz pensar que me bota medo? – continuou Gano.
O kabraq deu um soco em cheio no nariz de Gano. Este caiu no chão. O oponente já estava começando a rir quando Gaia revidou com um soco que jogou o kabraq contra a mesa onde estavam outros dois kabraqs e um ilkage. Estes foram atacar o lutador, mas ele jogou os três longe, começando uma reação em cadeia levando à tão conhecida “briga de bar”.
Tudo virou um grande tumulto. Vanessa caiu de sua cadeira. Silas foi jogado, caindo em cima de Sônia.
Percebendo que a situação estava fora de controle, Silas segurou no braço de Sônia e disse:
- NEVIDEBLA!
O casal ficou invisível.
- Está tudo preto e branco!!! Será que eu contraí uma doença alienígena ??? – assustou-se Sônia.
- Depois eu explico! Venha comigo!
Silas levou Sônia até o lado de fora do restaurante. Lá, falou:
- VIDEBLA!
E tudo voltou ao normal.
- Então é assim quando você fica invisível?
- Isso mesmo. Tudo que eu seguro, como você, fica invisível também.
O kabraq causador de todo aquele tumulto sai rolando pela porta desacordado. Gaia sai em seguida com Gano logo atrás, segurando um lenço para estancar o sangue verde escuro que saía de seu nariz.
- Esse aí não vai causar problemas tão cedo. Ainda bem que a Gaia entrou no meio, senão eu não sei o que eu faria com esse cara! – falava Gano.
Gaia e Sônia esboçaram um sorriso, mas Silas tinha outras preocupações:
- Onde está Vanessa?
- Acho que ainda está lá dentro. – disse Gano.
Nesse momento, todos começaram a sair correndo do restaurante.
- O torkut escapou! O torkut escapou!
Silas ficou branco.
- Vanessa ainda está lá dentro! – disse entrando correndo pela porta.
O salão já estava vazio. Logo Silas viu Vanessa paralisada com cara de horror. Ela olhava para um torkut que estava prestes a atacá-la.
Como num reflexo, Silas pulou na direção do torkut, empurrando-o longe. Recuperando-se, o torkut começa a mirar em Silas.
- Fuja, Vanessa!
- Silas...
- Corre!!!!
A moça saiu correndo. Os segundos passavam rapidamente. Silas estava caído no chão, olhando para a criatura.
- Silas, estou impressionado. Foi um grande ato de coragem, digno de um portador da TEC. É uma pena que você vá morrer agora. – apareceu Trec, sempre animador.
- Trec, você pode emitir luz no espectro infravermelho? – perguntou rápido Silas.
- Claro! Se eu não emitisse você não me enxergaria quando estivesse invisível! Meu criador não ia fazer um dispositivo como a TEC de qualquer jeito! Um campo de força agita as moléculas atmosféricas onde estou projetado e...
- Então assuma a forma de um torkut gigante! – interrompeu Silas.
O holograma levantou uma sobrancelha.
- Sabe, você não é tão burro quanto eu imaginava...
Trec tomou a forma de um torkut ameaçador com 3 metros de altura. O animal que estava prestes a atacar encolheu-se e começou a gemer como um filhotinho de cachorro. Silas pegou a caixa escura de onde o torkut escapou e trancou o animal lá novamente.
- Dê um desses de presente de Natal para a Vanessa. Ele parece ser muito fofinho... – ironizou Trec, voltando à sua forma normal.
Antes que Silas pudesse responder, do lado de fora, o som de sirenes começava a se aproximar.
- A polícia está chegando, Silas. Você vai ser finalmente reconhecido como um grande herói entre estes alienígenas subdesenvolvidos! – disse Trec.
- Eu vou é ser preso se não sair dessa espelunca! NEVIDEBLA!

4 comentários:

  1. Anônimo disse...:

    Gostei bastante desse capítulo! Bem criativo!
    Abraço,
    Roberto.

  1. Narrador Briee disse...:

    Obrigado! Na verdade, só esta semana que percebi um furo no texto: num planeta alienígena não necessariamente os carros de polícia teriam sirenes e dificilmente estariam na mesma frequencia que já utilizamos. Trec não deveria conseguir reconhecer os sons da sirene (a não ser que o tradutor universal da TEC ajudasse a reconhecer isso, mas seria forçar um pouco a barra...)

  1. Anônimo disse...:

    Não, mas eu acho crível que seres alienígenas inteligentes com audição desenvolvam um mecanismo de alarme como a sirene. Tendo em vista o alto volume da sirene e a variação abrupta de freqüência do som, creio que uma sirene cumpre o objetivo de chamar a atenção de qualquer ser com audição. Claro que é provável que não fosse da mesma freqüência das sirenes daqui. Mas, ainda, considerando a coabitação de diferentes espécies alienígenas, provavelmente, os carros de polícia teriam sirenes com freqüências para todas essas espécies. Bem, quiçá eu esteja viajando!hehehe.
    Abraço,
    Roberto.

  1. Narrador Briee disse...:

    Hum... olhando por esse prisma realmente faz sentido. Ilkages escutam muito bem diversas frequencias. Os Kabraqs não precisariam de sirenes muito altas pois são muito atentos e Pazenvs teriam uma frequencia própria (dentro do padrão humano para audição). Jogando estes fatores, as sirenes provavelmente tocariam em 3 frequencias diferentes, sendo somente 2 audíveis pelos seres humanos (não há uma frequencia própria para os humanos pois eles não são membros oficiais da Confederação). Porém, é um planeta Kabraq, logo, é possível sim uma frequencia para humanos (afinal, Kabraqs são muito justos). Pensando bem, Trec poderia identificar uma frequencia humana e concluir que os toques são da polícia mesmo. Bem pensado, Roberto!

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