CAPÍTULO 16 - O Capitão Zonan

- Capitão, uma nave zortar está emergindo do hiperespaço. – anunciou o alferes ilkage.
- Dentro dos limites seguros da Confederação é um ato hostil. Preparar para batalha!
- Senhor, a nave está desarmada. Nossos sensores indicam que estão com as armas desligadas.
- Com certeza deve ser uma armadilha. Atirar!
A nave zortar recebeu um forte impacto.
- Senhor, comunicação chegando. – anunciou o oficial ilkage de comunicações. Eles estão sem imagem, só áudio.
- Vamos ouvir.
- Aqui é Donet, capitão da nave Compassiva da Confederação. Nós fomos capturados pelos zortars, mas conseguimos conquistar a nave deles. Cessem fogo!
- A Compassiva não é a nave onde trabalha a sua esposa, capitão? – perguntou o 1º oficial.
- Com certeza é um truque zortar.
- Senhor, conheço a voz de Donet. Deve ser ele.
- Também conheço a voz dele, mas tenho certeza que é um truque. Atirar torpedos!
O torpedo explodiu a nave. Esperava-se encontrar zortars entre os destroços da cabine da nave, porém os sensores indicavam outra raça.
- Senhor, eram ilkages que pilotavam a nave. Eles estavam falando a verdade. – anunciou o alferes.
- O quê?! Há sobreviventes?!
- Somente um. Devia estar dentro de uma cápsula de fuga na hora que a nave explodiu.
- Que seja minha esposa! Que seja minha esposa! – começa a repetir para si mesmo.
Zonan acorda. Ele respira fundo.
- Por que os ilkages têm sonhos tão intensos? – lamentou Zonan, um ilkage de 130 anos, de porte físico saudável. Foi até a cozinha preparar um chá. Enquanto isso, ele liga a holovisão no canal de notícias.
- Hoje fazem 20 anos da morte dos tripulantes da Compassiva. Desleixo ou arrogância? A reportagem é de Akrina Fonslef.
Zonan volta sua atenção à HV.
- Há 20 anos o capitão Zonan, da nave ilkage Defensora, atacou e destruiu uma nave zortar que estava desarmada e com os tripulantes da Compassiva dentro. Eles haviam conquistado a nave, mas o capitão da Defensora julgou ser uma armadilha zortar.
Aparece a imagem de um ilkage sendo entrevistado.
- Eu era alferes nessa nave. O capitão atacou, pois julgou que fosse uma armadilha.
- Tenente-capitão Forgter, o capitão Zonan agiu por desleixo ou arrogância? – perguntou a repórter ilkage.
- Em minha carreira eu já ouvi falar de histórias em que zortars do clã JAVIRT usaram aparelhos que disfarçam bem a voz. Zonan pode ter se levado por esta lenda e desleixado.
Zonan balança a cabeça. Ele tem certeza: não foi desleixo, foi arrogância.
- O caso foi julgado pelo tribunal kabraq. Embora Zonan tenha sido inocentado, sua carreira acabou na frota ilkage. Após isto, ele trabalhou durante um período na frota kabraq, mas acabou pedindo aposentadoria por não se julgar mais apto para o serviço.
Zonan desliga a HV. Olha para a máquina de chá e depois para a foto da esposa. Foto que ele guarda com carinho há mais de 20 anos. Como todos os dias, ele abaixa a cabeça e pede perdão à foto; mesmo sabendo que ela não está lá e que, sendo ateu como a maioria dos ilkages, sua alma também não está.
A campainha toca.
- Será que é outra repórter que veio comemorar os 20 anos da minha desgraça? – fala consigo mesmo.
O monitor de segurança mostrou um grupo com três humanos, um pazenv e um kabraq.
- O que desejam? – perguntou Zonan pelo interfone.
- Capitão Zonan, meu nome é Silas. O centro de pesquisa me enviou.
Zonan estranhou:
- Por que o centro de pesquisas enviou vocês?
- Senhor, é um assunto muito importante e secreto. Precisamos discutir pessoalmente. – adiantou-se Gano.
- Secreto? – estranhou Silas.
- Você quer falar com ele ou não? – cochichou Gano.
Podiam ser repórteres, mas, ao contrário da maioria dos ilkages, Zonan evitava fazer julgamentos desde o desastre com a Compassiva.
- Podem entrar. Mas já adianto que não falarei nada a respeito da Compassiva nem da minha vida pessoal.
O portão se abriu. Logo o grupo estava assentado na sala de visitas de Zonan. Bom, todos menos Bevra, que se mantinha de pé em posição de sentido.
- O que os kabraqs querem agora? – perguntou Zonan com sua xícara de chá na mão.
- Não é o que os kabraqs querem e, sim o que os humanos querem. – disse Gano.
- Querem um capitão de nave suicida? Desculpem, mas já me aposentei há três anos.
- Deixe-me explicar, capitão... – começou Silas.
- Ex-capitão. – corrigiu Zonan.
Nisto Trec apareceu.
- Estamos perdendo tempo! É óbvio que este alienígena não está preparado para essa missão divina!
- Trec, não o irrite! Estamos precisando da ajuda dele! – censurou Silas.
- Nossa busca exige os melhores. Já acho demais precisar de ajuda de não humanos. Está claro que ele não é o melhor capitão que podemos querer.
Zonan acabou de beber seu chá. Levantou-se e foi até Trec.
- Trec, não é? Ouvi falar de você. Para um holograma com inteligência artificial desenvolvido por seres com tecnologia superior você é bem limitado. – falou calmamente.
- O quê? Como assim?
- Humanos, humanos... Seus criadores não estão aqui. Os humanos que estão aqui mal acompanham a tecnologia da Confederação. Se você foi desenvolvido para ajudar a humanidade, está fazendo um péssimo serviço irritando os possíveis aliados alienígenas que estão dispostos a ajudar. Se não fossem os kabraqs, por exemplo, a humanidade talvez já estivesse extinta. E quanto à capacidade, tenho quase 100 anos de experiência como capitão de naves, quase o tempo de vida de qualquer humano. – continuou com o tom de voz baixo.
Todos estavam surpresos: Trec estava sem reposta! Ninguém ainda havia enfrentado o holograma daquele jeito.
- Sabe... Gostei dele! – pronunciou-se Trec.
- Sr. Zonan, para ter trabalhado tanto tempo como capitão é porque o senhor deve gostar disso, não é? – perguntou Sônia.
- Desculpe, mas eu disse que não responderia perguntas pessoais.
- Se gostava, é uma oportunidade de voltar à ativa!
Zonan caminhou até o porta-retrato da esposa.
- Já gostei. Era tudo pra mim. Mas tudo morreu para mim no dia em que minha esposa morreu no desastre da Compassiva. Desse dia em diante, a culpa pelas vidas que tirei nesse desastre pesa em meus ombros cada vez que sento numa cadeira de comando.
- E se lhe déssemos a oportunidade para a sua redenção? – propôs Trec.
- Do que estão falando?
- Trec está certo! – concorda Sônia.
- Está? – perguntaram juntos Silas e Gano.
- É claro que estou! – vangloriou-se o holograma.
- Capi..., Quero dizer, senhor Zonan, sente culpa pela morte de sua esposa e os tripulantes da Compassiva. No momento, a humanidade corre o risco de ser dizimada. Não sei quantas pessoas morreram na Compassiva, mas e se o senhor agora fosse diretamente responsável pela salvação de milhões de pessoas? Talvez de toda a humanidade? – propôs Sônia.
Zonan colocou sua xícara na mesa. Voltou-se completamente para o grupo.
- Têm minha atenção.
Silas então contou o que estava acontecendo. Como eles haviam se lançado a uma missão de 10 anos para buscar uma arma que pudesse salvar a humanidade da perseguição dos zortars. Zonan ouviu a tudo atentamente.
- 10 anos? Por que não? Aqui em Kaprol não tenho nada para fazer e estaria longe dos repórteres por um bom tempo.
- O senhor aceita? – perguntou Silas.
- Será um prazer trabalhar com o senhor! – disse Sônia.
- Chame-me daqui pra frente de “capitão”.

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