CAPÍTULO 14 - PRECIOSIDADES

Tudo teve início há pouco mais de 10 anos.
Eu havia acabado de vencer a eleição para reitor da 2ª Universidade. Na semana de minha posse, o ex-reitor, QnuBo, dos Ilkages, procurou-me para passar-me uma informação muito valiosa.
-Bom dia, reitor QnuBo.- Saudei-o.
-Ora, Biar. Você é o reitor agora.- Corrigiu-me
-Só a partir de amanhã.
-Já tem metas para seu mandato?
-Ainda não. Apenas desejo transparência em minha administração. E o senhor? O que fará a partir de agora? Ouvi que aceitará a aposentadoria.
-É isso mesmo. Gostaria de aproveitar meu tempo conhecendo os diversos planetas da Confederação.
-Sempre um Sociólogo...
-Certamente. Há muitas subculturas dentro da Confederação. Adoraria conhecer todas mais a fundo.
-Desejo-lhe sorte.
-Eu também, Por isso vim até aqui.
-Obrigado.
-Há coisas que você conhecerá como reitor que o levarão a tomar decisões difíceis.
Achei estranho. Em seguida minha secretária chamou pelo interfone.
-Doutor Biar, o secretário do exército Kabraq está aqui.
-Esta será uma delas.- completou QnuBo.
Curioso, pedi para o secretário entrar. Parecia que o antigo reitor sabia de algo importante.
-Saudações ao novo reitor. Vim aqui para tratarmos das Preciosidades.- declarou o secretário Kabraq.
-Não estou entendendo. Preciosidades? O que o secretário do exército Kabraq faz aqui?
-Veio por causa disto. – anunciou QnuBo.
O ex-reitor desembrulhou um objeto em minha mesa. Parecia ser somente um copo de metal, mas por que aquilo deveria ser importante?
-Está com sede, doutor Biar? Por favor, beba neste copo. – pediu QnuBo.
Levantei-me para pegar uma garrafa de água, mas QnuBo pediu para parar.
-Não pegue da garrafa. Pode beber direto do copo.
Olhei para o copo.
-Reitor, o copo está vazio.
-Tem certeza? Por que você não pega o copo e olha mais de perto?
Quando peguei, tive uma surpresa: o copo estava cheio de água.
-Mas... estava vazio. – falei.
-Beba. Você precisa hidratar-se. – pediu QnuBo.
Comecei a beber, mas, curiosamente, a água não acabava. Voltei a olhar o copo. Parecia que eu não havia bebido nem uma gota.
-Isso é alguma brincadeira? – reclamei.
-Agora que o senhor matou a sede, por favor, coloque o copo na mesa.
Coloquei o copo na mesa e voltei-me para QnuBo.
-Por favor, insisto que me explique o que está acontecendo. Como o copo ficou cheio de água e não esvazia mais?
-Mas o copo já está vazio. Olhe o senhor mesmo.
Olhei novamente para a mesa. O copo estava tão seco quanto antes. Fiquei perplexo.
- Como fez isso?
- Enquanto ninguém segura o copo, ele permanece seco. Quando alguém segura o copo, ele se enche e permanece assim até que ele volte a ser solto. O copo também faz outros truques: se o senhor colocar um pouco de sua bebida preferida no copo, quando o senhor pegá-lo, o copo estará cheio desta bebida e voltará a se encher da mesma bebida na próxima vez que pegar o copo. Só voltará a se encher de água quando o copo for lavado com água mesmo. Outra coisa interessante é que o copo não derrama mesmo de cabeça para baixo.
-Mas não existe nada assim na Confederação!
-É hora de explicar. Aquilo em sua mesa foi um artefato que descobrimos recentemente num planeta próximo à fronteira da Confederação. Acreditamos que pertence a uma raça que ainda não conhecemos, muito avançada por sinal pois não conseguimos decifrar a tecnologia por trás daquele copo. – explicou QnuBo.
-Fantástico! Mas o senhor Secretário não deve ter vindo aqui para beber nada. – deduzi.
-Isso mesmo. Há mais alguns objetos assim guardados em segredo na 2ª Universidade. Todos descobertos em escavações. – começou a explicar QnuBo.
-Senhor Secretário não deve ter interesse em arqueologia. – dirigi-me à autoridade.
-Está certo, senhor reitor Biar. Na verdade, o que tem nos interessado é o potencial tecnológico de armas que podem ser descobertas nestas escavações. As descobertas são muito recentes e a administração militar Kabraq estava organizando junto à 2ª Universidade um grupo de especialistas para procura dedicada a armas. Embora há muito tenha acabado a guerra com os Zortars, é importante estarmos à frente deles.
-Entendo. E vieram a mim para dar continuidade ao projeto de vocês. – deduzi.
-Creio que entenda o quanto isso é importante. – falou QnuBo.
Andei até a mesa. Peguei o copo novamente. Pensei o quanto seria bom enche-lo de suco fermentado de Lorust, minha bebida preferida.
-Como disse, reitor QnuBo, minha única meta seria a transparência. Como estudioso, já vi muitos avanços se perderem por pouco estudo. Se eu manter estas preciosidades em segredo, quantas pesquisas perderíamos? Quanto nossa tecnologia estagnaria?
-Por favor, Biar. Pense no que poderia acontecer se os Zortars soubessem que existem estes artefatos? – protestou QnuBo.
-Minha decisão está tomada. Somos pesquisadores, não militares. Estas descobertas devem ser reveladas e pesquisadas. Não tenho a intenção de buscar armas. Somente descobertas.

6 comentários:

  1. Anônimo disse...:

    Vc pode descrever o suco fermentado de Lorust?

  1. Narrador Briee disse...:

    Eu não havia pensado em descrever esta bebida, mas a princípio seria uma bebida de cor lilás com a fruta lorust do planeta natal Pazenv. O fruto se assemelha à amora, mas é um pouco maior, também dada em cachos. Sua cor é lilás levemente escuro e o suco contém pedaços da fruta. A bebida é leitosa, levemente gaseificada, e o sabor parecido com chop de vinho

  1. Anônimo disse...:

    Legal, gostaria de experimentá-la.

  1. Narrador Briee disse...:

    Se vc gosta de bebidas fracas, vc iria gostar mesmo. A constituição física dos Pazenvs é mais fraca que dos humanos (a gravidade do planeta natal é um pouco menor), logo, o teor alcoolico da bebida mais forte Pazenv não é muito maior que o teor de uma cerveja humana. Por outro lado, um gole de cerveja Kabraq é praticamente mortal para os humanos (lembre-se: Kabraqs são imunes a venenos). Por este motivo, as bebidas Kabraqs quase não não comercializadas em mundos não colonizados por esta raça (quando há comércio, as bebidas vêm com grande aviso no rótulo). Não há bebidas Ilkages: culturalmente, é tabu ingerir bebidas alcoolicas (uma raça que se acha perfeita devido aos sentidos aguçados, não pode te-los reduzidos devido a embriagez). Quando um Ilkage bebe, curiosamente, seus sentidos se misturam, como acontece a alguns seres humanos que sofrem do fenômeno da sinestesia (a cor azul tem cheiro de atum, ou uma determinada música causa sensação de frio).

  1. Anônimo disse...:

    Esse tipo de descrição - no caso, de bebidas - traz mais fantasia à história, fazendo com que o leitor entre mais na história, imaginando-se naquele mundo e percebendo as experiências sensoriais daquele lugar. Sei que o Douglas Adams costumava descrever bastante essas coisas. Isso dava um toque especial à história.

  1. Narrador Briee disse...:

    Bem observado. Vou estar investindo mais nestas descrições. Eu acabo falhando um pouco neste aspecto pois temo criar pontos de estagnação na história quando eu paro para descrever. Mas deve haver momentos certos que a descrição acaba trazendo mais atenção do leitor com estes detalhes. Quem quiser aproveitar este espaço de comentários para perguntar eu prometo agracia-los com ricas descrições.

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