CAPÍTULO 2 - O Debate

- Com certeza, isto é obra dos Deuses Gentis!
A equipe de arqueólogos olhou curiosa o estudioso de pele dura e amarela. Como um estudioso Kabraq podia se deixar levar por religião?
- O senhor não está falando sério, dr. Arson? – manifestou-se o Pazenv participante do debate.
- É claro que não acredito em deuses de verdade, reitor Biar, mas as lendas de nossa raça sugerem que fomos criados artificialmente e, de fato, ao contrário de outras raças, não encontramos nenhum indício de que somos frutos de qualquer tipo de evolução.
- Então seus deuses seriam uma raça avançada que criou a sua espécie. – deduziu o arqueólogo Ilkage.
- É isso mesmo, dr. Ionis.
- Mas, segundo a lenda, seus criadores apenas os usavam como escravos. Os “Deuses Gentis” teriam que ser outra raça que os libertou. Conforme a lenda, a raça kabraq dizimou seus criadores depois disto. – relembrou Biar.
- Possivelmente. Como arqueólogo não posso ser religioso.
- E assim, os Kabraqs foram orientados pelos “Deuses Gentis” a sempre defenderem a justiça e a verdade como compensação pelo genocídio de seus criadores. Isso tudo é religião Kabraq. Precisamos ser minuciosos e pragmáticos em nossas análises. – prosseguiu Biar.
- Agora entramos no campo religioso Pazenv. – protestou Arson em relação à ultima frase dita pelo reitor de pele verde.
- Embora os Pazenvs acreditem ser engrenagens na grande máquina divina que é o Universo e que acreditem que o trabalho deve ser feito como forma de sacerdócio, isso apenas nos torna mais cuidadosos e melhores profissionais. – defendeu-se Biar.
- Pode ser. Mas toda mudança ou idéia nova é quase uma forma de punição ou pecado. Certos estamos nós, os Ilkages, que não têm religião e nunca erram. – vangloriou-se o arqueólogo de pele enrugada e cinzenta.
- O senhor acabou de errar, dr. Ionis. Deduziu que os “Deuses Gentis” eram os criadores dos Kabraqs, e não outra raça. – observou Arson, com justiça.
- Desatenção. Todos sabem que os Ilkages só erram quando ficam distraídos e não analisam todos os fatos. “Desleixar é ilkage”, como diz o ditado. – defendeu-se Ionis.
- Eles também erram por arrogância, quando insistem num erro. – prosseguiu Arson.
- Mas não estamos aqui para discutir a cultura das raças da Confederação, e sim este aparelho. – cortou Biar.
- Está certo. Voltemos às perguntas. – concordou Arson.
No monitor próximo aos arqueólogos as perguntas da platéia estavam agrupadas por assuntos. Geralmente os debates assistidos na 2ª Universidade da Confederação não eram tão concorridos e nem tinham tantas perguntas a ponto da necessidade de agrupá-las. A notícia do debate sobre a recém-descoberta tratou de encher a sala principal de debates.
Embora a 2ª Universidade da Confederação tivesse a extensão de uma cidade de grande porte, o espaço era meticulosamente planejado de forma a elevar a qualidade de informação transmitida para quem estudasse lá (coisa de Ilkage, como diriam muitos).
A sala de debates, por exemplo, não era muito grande para que não lotasse demais, porém, seu formato era redondo e afunilado. Bem no centro da sala ficavam as mesas de debate, rodeadas por cadeiras para a audiência.
- A próxima pergunta questiona o que é a descoberta. – leu Biar.
- A descoberta foi feita no planeta M439-0 e está em cima da mesa principal. É uma caixa que chamamos de TRADUTOR FINAL e é feita de uma substância que chamamos de Metal Ativo. – descreveu Ionis.
- Chamamos de Metal Ativo, pois, aparentemente, conserta-se sozinho. Fizemos alguns buracos na caixa e, depois de um tempo, a caixa restaurou-se completamente. – continuou Arson.
- A platéia está questionando sobre o funcionamento do aparelho. – prosseguiu Biar.
- Normalmente os debates são feitos na língua Pazenv, uma vez que é a língua mais técnica e detalhada da Confederação. Porém, todos nesta sala estão ouvindo este debate em sua própria língua. Este aparelho que é, segundo o Dr. Arson, produto de uma raça muito avançada, trata de analisar a língua de cada ouvinte e gerar ondas sonoras direcionais cancelando o som das vozes originais e gerando, no mesmo tom de voz, a tradução em tempo real. Talvez alguns tenham percebido um leve atraso entre o movimento de nossas bocas e a voz. Isto se deve à tradução. – explicou Ionis.
- A platéia talvez tenha achado estranho nosso atraso para dar início à palestra. Foi preciso fazer isso para que o TRADUTOR se regulasse para cada membro presente neste local. Como tenho domínio de várias línguas, sou eu quem está lendo o monitor de perguntas. O TRADUTOR só atua no nível sonoro. Não traduz as perguntas que estão em forma de texto no monitor. – explicou Biar.
Houve um certo burburinho na sala. Ninguém havia notado a atuação do TRADUTOR FINAL. Espécies diferentes começaram a falar em suas próprias línguas com os colegas para testar a capacidade do aparelho.
- Senhores, a próxima pergunta é sobre o planeta da descoberta: M439-0. – tentava silenciar Biar.
- Uma patrulha kabraq mantém órbita no planeta. É preciso autorização para entrar. – explicou Arson.
- Acho isso um exagero. O planeta deveria ser de livre acesso a todos os pesquisadores. – protestou Ionis.
- Devemos nos proteger contra os ZORTARS. Esse é o motivo da patrulha. – continuou Arson.
- ZORTARS são piratas espaciais. Não se interessam por arqueologia.
- Porém, o clã Javirt dos zortars é muito interessado em tecnologia. Um planeta onde novos artefatos tecnologicamente avançados podem ser descobertos é uma tentação muito grande para eles.
- De fato, mas há dois aspectos importantes: Primeiro - há 160 anos , quando a Confederação das nossas três raças foi criada para combater a ameaça dos zortars, assinamos um tratado com eles para delimitar limites seguros onde eles não nos atacariam. M439-0 está dentro destes limites. O segundo ponto é que os zortars não são sutis. Eles não infiltrariam um agente espião num grupo indo visitar este planeta. Podemos até colocar uma patrulha lá, mas pedir autorização é exagero.
Aqui cabe um comentário meu, o narrador da História: talvez o leitor se pergunte quanto é 160 anos para uma raça de outro planeta, ou ainda pergunte quais medidas são usadas na Confederação. Como já foi dito anteriormente, esta história é sobre a humanidade, assim, as medidas de tempo e espaço, assim como a base numérica utilizadas pelos personagens, eu converti para valores e unidades utilizadas na Terra.
- Nosso tempo está acabando. Eu irei sortear uma pergunta para encerrar o debate. – anunciou Biar.
O Pazenv toca na tela em qualquer ponto. Logo, uma pergunta se destaca.
- “O aparelho pode ser produto da civilização humana nativa?”.
Arson e Ionis se olharam. Logo ambos soltam gargalhadas enquanto Biar parece visivelmente constrangido.
- Não acredito que exista alguém que ainda acredita nesta tese vergonhosa. A 2ª Universidade foi sinônimo de piada por muito tempo! – esbravejou Biar.
- Não tenha vergonha, reitor Biar. A tese foi proposta pelo professor Arnaldo, dos humanos. O senhor era apenas o reitor quando a tese foi ridicularizada. – acalmou Ionis.
- Eu só não expulsei o ajudante dele, pois este era filho de Clóvis Carvalho, o grande arqueólogo humano.
- Acho que podemos aproveitar a ocasião pra encerrar, de uma vez por todas, esta tese falha. – sugeriu Arson.
- De acordo. Bom, como todos sabem, os humanos chegaram ao nosso setor da galáxia há pouco mais de 100 anos, numa viagem que durou cerca de 10.000 anos. Até hoje acho que foi um milagre as câmaras criogênicas das naves deles durarem tanto tempo sem dar nenhum defeito... – começou Biar.
- Muitas câmaras deram defeitos, reitor. Quase 1/3 dos que entraram na nave morreram. – defendeu Arson.
- De qualquer maneira, a população sobrevivente foi enorme, quase 100 milhões de pessoas. Segundo os registros das naves, os humanos estavam fugindo de uma guerra que deve ter extinguido a raça humana. Porém, o professor Arnaldo teorizou, há 10 anos quando ocorreram as primeiras descobertas arqueológicas de alta tecnologia, que os humanos poderiam ter sobrevivido no planeta que eles chamam de Terra e evoluído tecnologicamente a ponto de espalharem pela galáxia estes itens encontrados. A escrita parece muito com a escrita da Terra, porém, a língua era completamente desconhecida. Segundo o professor, a língua poderia ser uma variante de uma linguagem humana chamada ESPERANTO, que deveria ser uma língua globalizada que nunca saiu do papel.
- O que ridicularizou a tese era o fato que, embora as naves tivessem coordenadas do sistema solar humano, nossos telescópios nunca encontraram nada naquela direção e, no dia da apresentação da tese do professor, quando ele levaria evidências de sua teoria, ele fugiu e deixou seu auxiliar sozinho. O rapaz até tentou defender a tese, mas sem evidências, tudo não passou de delírio. – completou Ionis.
- Foi uma tentativa bem intencionada de exaltar a raça humana. Desde que os seres humanos chegaram ao nosso setor, eles ainda não conseguiram alcançar o status de cidadão da Confederação, algo que deveríamos estudar. – defendeu Arson.
- De fato, mas isso já se torna um diálogo político – observou Ionis.
- A raça humana tem oferecido pouco. Eles nem mesmo acharam um planeta que atenda a todas as suas necessidades. A maioria vive nas naves e, os poucos que moram em planetas, acabam prejudicados, seja pela gravidade, clima ou mesmo o tempo de duração dos dias e das noites. – lembrou Biar.
- Há quem se destaque, como já foi citado Clóvis Carvalho, um grande arqueólogo. – defendeu Arson.
- Há também o Silas Carvalho, filho dele que quase arruinou a reputação da 2ª Universidade ao defender a tese do professor Arnaldo.
Finalmente toca o sinal de encerramento do debate. Os pesquisadores se encaminham para uma das saídas, seguidos de alunos interessados em perguntar mais sobre o artefato e arqueologia.
Vagarosamente, a platéia deixa a sala. Porém, permanece uma figura numa cadeira num canto mal iluminado. Ao ver que todos saíram, levanta-se comentando em voz baixa:
- Estes tolos são arrogantes o suficiente para subestimar os humanos. Assim, logo a Confederação cairá em nossas mãos e a humanidade poderá, finalmente, ser exterminada!

4 comentários:

  1. Anônimo disse...:

    Brie

    Não entendo muito de ficção "< >" mas achei interessante a sua postagem na comunidade do Rogério e resolvi acompanhar.

    Confesso que achei seu capítulo meio confuso e cansativo.

    Eu não escolheria nomes tão exóticos nem faria personagens com caras de ETs / a não ser que fossem coadjuvantes e tivessem uma relação direta com os seres humanos.

    Além do mais, muito melhor do que diálogos são os pensamentos complexos das personagens.

    O que me chama a atenção é o fato de você ser um cientista e gostar de criar histórias, legal !!!!

    Com o passar do tempo... comento +

    [ ]s
    Isa

  1. Narrador Briee disse...:

    Realmente eu já ouvi que poderia adaptar os nomes. Fica registrado para a próxima aventura.
    Porém, os personagens principais, embora tenham nomes diferentes, serão mais simples E como já colocado, a história é dos humanos e eles serão os principais. Até agora foi só uma preparação para entender qual o cotidiano e pelo o que passa a humanidade.
    Toda preparação costuma ser mais cansativa, mas acredito que os próximos capítulos serão mais interessantes e com muito desenvolvimento psicológico.
    Este capítulo que passou, em especial, o deixei levemente confuso a fim de despertar perguntas nos leitores, o que costuma levar a um envolvimento maior com a história, mas nas próximas vezes que escrever não tentarei mais fazer isso. Realmente pode haver o efeito contrário.
    E sobre ser cientista, confesso que não sou físico, mas sim engenheiro, embora eu já tenha trabalhado em observatórios astronomicos. Precisei aprender astronomia para trabalhar com automação de telescópios e desde então, vivo envolvido com isso. Espero não ter lhe desapontado.

  1. Anônimo disse...:

    Não confie muito em mim pq não sou especialista no assunto. Apenas uma curiosa que gosta de dar palpites. T a prouxima semana! :X

    Isabela /

  1. Narrador Briee disse...:

    Qualquer opinião é bem vinda! Tudo bem que ninguém agrada todo mundo, mas é com essas opiniões que melhoramos nossa "porcentagem" de aprovação. ;-)

Postar um comentário

ANTES DE COMENTAR:

- não escreva em CAIXA ALTA;
- não divulgue links;
- não escreva com miguxês, internetês e similares;
- respeite as opiniões apresentadas.

Obrigado.

 
T.E.C. © 2010 | Designed by Trucks, in collaboration with MW3, Broadway Tickets, and Distubed Tour | Customized by Sybylla